Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

22 de Junho de 2017, 08:38

Por

Diante da morte

Diante da morte, compreendemos com absoluta nitidez o valor insubstituível da vida. Diante da morte, somos tudo o que, muitas vezes, não somos capazes de ser diante da vida: ternos, gregários, próximos da essência e longe do quotidiano dizimado pela adjectividade.

Diante da morte é-se final e verdadeiramente afectuoso e doce. Por isso, se tenta recuperar no dramático infinito daquele momento o que faltou no finito da relação em vida.

A morte – essa iniludível certeza –  é o momento mais profundo para reconhecermos as insuficiências e as responsabilidades perante quem desapareceu. Um redemoinho entre o que se fez e o que se deveria ter feito, entre o que já foi e o que não deveria ter sido, entre o que não se foi capaz de dizer e o que se disse por não se ser capaz de calar.

A morte é a explicação do que não se explica ou a confirmação do que não se compreende? A morte é o mistério do depois ou o absurdo do nada? A morte é a luz depois do escuro ou a penumbra eterna depois da claridade? Ou, parafraseando Jorge Luís Borges, somos apenas o esquecimento que seremos?

Escreveu Vergílio Ferreira: “O que mais me intriga e dói na nossa morte, como vemos na dos outros, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. Mesmo que sejas uma personagem histórica, tudo entra de novo na rotina como se nem tivesses existido. […]. Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível – morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma”.

A morte é o silêncio depois do silêncio. O silêncio na morte do ente, do amigo, do conhecido ou do desconhecido diz tudo no respeito de nada dizer. Incompatível com a audiência e o share da morte exorcizada até ao infinito, entre noticias frenéticas, que nos empanturram até ao esófago da alma por via da adjacência de espectáculo mórbido. A morte até já passou a ser hiperbolizada por intrusos drones manipulados por comunicações preocupadas com o ângulo, a luz e o azimute da tragédia, onde a morte é o motivo e a pessoa o objecto.

Li depoimentos impotentemente dolorosos de pessoas que viram a morte a alguns segundos de distância. Reflecti sobre casos indissoluvelmente atormentados de quem se tendo salvado transporta o sentimento de culpa de não ter conseguido salvar. Percebi o conflito de decisões pela razão tomada pela emoção e pelo medo que levaram à morte de pessoas e ao resgate de outras.

Sento-me junto da intermediação da morte que nos é oferecida por câmaras e reportada por pessoas no exercício de uma profissão cada vez mais dada ao espectáculo e onde não há tempo nem ocasião para um purificador silêncio. Pessoas entrevistadas no meio da desgraça, crianças filmadas no seu puro pranto, homens e mulheres empurrados para, em directo, gritarem a sua dor e exprimirem a infinitude de perda e de vazio, reportagens sem o mínimo respeito por cadáveres de vidas que são filmados quase como “troféus” ou “adereços”: eis o que alguma televisão (não toda, felizmente) nos quer dar.

Diante de generosas instituições e profissões – ora designadas como equipas interdisciplinares – numa organização de “cacifos” tão perfeita quanto imperfeita – a morte, para os que a ela fugiram ou que sobre ela choram, corre o risco de ser perspectivada quase como assunto tecnocrático, que fica aquém da generosidade e do humanismo dos seus intérpretes. Porque, diante do sofrimento de uma morte, não há manuais de instrução, nem kits de consolo, nem apoios psicológicos de quem lá está sem ficar por lá. Porque é assim a nossa mais profunda natureza. Diante da morte, são os que nos são próximos quem mais pode contribuir para consolar a tristeza. Porque, como escreveu Gabriel Garcia Márquez, “é isso que eu sou: solidão e solidariedade”. Às vezes separadas, outras vezes fundidas.

 

 

Comentários

  1. NEWTON NUNCA FIGUROU NA LISTA ANUAL DA FORBES:

    Claro que uma tragédia desta dimensão é impressionante e lembra-nos quão frágil é a nossa condição. Mas, a exemplo de Virgílio Ferreira, outros pensadores, tantos outros, nos legaram reflexões profundas sobre a morte.

    Tenho sempre presente o seguinte: o nosso tempo de vida é curto, nunca poderemos ter uma visão abrangente da vida e dos outros. O que mais me impressiona é a forma como alguns se comprazem em produzir condições negativas para os seus semelhantes. Embora as Tábuas de Mortalidade dos demógrafos acentuem o declínio dos qxs, ou seja, da probabilidade de x, um determinado habitante do Planeta, viver mais y anos e com isso estabelecer o carácter transitório da vida, os comportamentos em vida são perfeitamente incompreensíveis. Ou seja: o ser humano vive um pouco mais, pelo trabalho dos melhores de nós, os investigadores, os médicos, isto é, as pessoas que trabalham em ciência em geral, aumentando a esperança de vida e a sua qualidade geral.

    Como entender que determinadas pessoas em Portugal consigam figurar na lista da Forbes anualmente? No meio de tanta carência e tanta infelicidade causada pela ganância, como compreender o poder das empresas, das corporações sobre a vida de todos nós? Até que ponto é possível afirmar que a tragédia de Pedrogão foi causada pela ganância e pelo desejo, quase incompreensível, de enriquecer à custa dos outros? A obtenção de riqueza, nestas circunstâncias, não representa a pobreza e a tragédia de muitos?

    Creio que a culpa assenta nos códigos de valores que são transmitidos pela forma como obtemos os nossos conhecimentos, desfasados das necessidades da existência. Talvez a questão esteja na brevidade da vida. Não há tempo para ganhar uma formação verdadeiramente sólida, de modo a preencher os desejos e ambições de todos. Existe cérebro a mais e corpo, duração da vida, a menos. O cerébro é perfeito mas o seu transportador é frágil. É uma contradição, um desfasamento que traz infelicidade geral. Ninguém consegue ultrapassar este limite, embora o tentem. Algumas experiências ditas científicas têm sido feitas, mas sem sucesso. Daqui, nasce a transcendência, que é procurada.

    Este modo de produzir, o capitalismo, traz infelicidade e desigualdade. É esta a conclusão, porque traz comportamentos desregrados.

    Diariamente, somos confrontados com a morte. Então, verificamos que somos todos frágeis. Todos. Como compreender que Newton só tenha vivido 85 anos? Newton pensou, criou e foi-se embora. Nunca figurou na lista da Forbes. Como compreender que grandes figuras se retirem para sempre? Quando assimilarmos que os melhores de nós não escapam à lei da vida, então talvez a corrupção e a ganância diminuam. E estas tragédias deixem de acontecer – começaremos a ter mais compreensão pelas alterações climáticas, pelas vidas dos próximos, pela vida em geral e pelo Planeta. Como diz a canção “estamos de passagem”. Dentro do possível, Viva a Vida.

  2. Quarenta anos nisto. Deviam ter é vergonha.

    .Há baixeza maior que esta sucessão de tragédias todos os anos reiterada e remoida em depoimentos e palpites desculpabilizantes da politicagem?

    Há modo mais primitivo para esta guerra interna que chega sempre, infalível e anual, ao verão português?

    1. À época de incêndios não tem quarenta anos, tem muito mais. A luta política não tem quarenta anos tem muitos séculos. A hipocrisia ainda tem mais séculos. A morte de humanos na sua participação com as demais forças da natureza tem ainda mais séculos.

      O acidente de 17 de Junho de 2017 no centro de Portugal vitimou muitas dezenas de portugueses e mutilou muito mais que sobreviveram. Lamentar estas perdas é óbvio, não carece de demonstração. Esse lamento emerge de muitos, de diferentes formas sinceras, solidárias e irmãs. Do Estado e seus representantes eleitos pelos portugueses que ainda votam o que surge é luta política surfando a onda do horror com a hipocrisia e demagogia secularmente entranhadas nos atores da governação dos Estados.

      A mudança real do modo de viver nas terras do minifúndio a Norte do Tejo compete aos habitantes dessa vasta área de Portugal. É da sua iniciativa privada obviamente que têm de surgir modelos de exploração das áreas aráveis e concomitantes terras de floresta capazes de criar riqueza que baste para a repovoação se fazer em benefício dos atores dessa iniciativa e da segurança do seu habita. Não será o Estado a substituir-se aos cidadãos que fará o que quer que seja de útil para as populações a Norte do Tejo nesse minifúndio que espelha a árvore genealógica das suas sucessivas gerações de habitantes.

      O Estado tem limitadíssimas capacidades de viver a vida que os cidadãos têm de viver por ser deles a vida.

      Quem quiser viver a chafordice da luta política e o aproveitamento da emoção da morte em grande escala fá-lo-á com o meu sincero desprezo.

      Não é por decreto que muda o modo de vida das pessoas. Os decretos vêm sempre depois para ordenar a iniciativa.
      Não é a perseguição de proprietários empobrecidos e impotentes perante as mudanças que vêm de pelo menos há 60 anos que se resolve coisa alguma.
      É a iniciativa privada, criativa e modernizadora que inventará formas novas de exploração competitiva do minifúndio secular imutável e insuscetível de ser mudada enquanto estrutura de propriedade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo