Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

8 de Junho de 2017, 09:55

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Futebol, poderio e passivo

Desde criança que gosto de futebol. Ou melhor, fervoroso adepto de um clube, o meu gosto tem mais a ver com o coração do que com a razão. Gosto dos golos, da fantasia, das emoções. Com cor, movimento, alegria, ansiedade. Lá dentro, nas quatro linhas.

Visto como o jogo do ano, acompanhei a final da Champions. Venceu bem o Real Madrid. Cristiano Ronaldo foi soberano. Os dois treinadores excelentes: Zidane não precisa de histrionismos patéticos, nem de piadas subliminares. É um senhor, como senhor foi o derrotado Massimiliani Allegri (e o príncipe do futebol, Gianluigi Buffon).

Depois do jogo, resolvi fazer uma incursão estatística pelas últimas 10 edições da Champions. Primeira ideia: acentuou-se, de um modo quase irreversível, o fosso entre os (poucos) do costume e os (muitos) de acompanhamento. Dos 10 títulos 6 são espanhóis (3 para o Real Madrid e 3 para o Barcelona). Os outros 4 repartem-se pelo Bayern, por 2 ingleses (Chelsea e Man United) e pelo italiano Inter.

Mais significativos, na minha opinião, são os dados relativos aos países representados nas meias-finais: 43% espanhóis (apenas 3 clubes: os já citados e o Atlético de Madrid), 25% ingleses (aqui com os 5 clássicos: Man United, Chelsea, Man City, Arsenal e Liverpool), 20% alemães (o inevitável Bayern, Dortmund e Schalke 04), 8% italianos (Juventus e Inter) e 5% franceses (Lyon e Mónaco, com a curiosidade de o PSG nunca lá ter chegado).  Outros países? Nenhum!

Ou seja, fora deste conjunto platinado, o máximo que outras equipas têm alcançado é os quartos-de-final. Numa competição internacional, é habitual ouvirem-se, no seio da “classe média clubística”, frases como “a nossa meta é chegarmos tão longe quanto possível”. Na Champions League, considera-se que se atingem os objectivos chegando aos quartos-de-final. E, de facto, é um bom desempenho desportivo e financeiro.

Nos últimos 10 anos, o número (por países) das equipas que atingiram aquela fase é elucidativa: à frente, ainda e sempre a Espanha com 29% de presenças (nos últimos 5 anos, sempre com 3 equipas). Segue-se-lhe a Inglaterra com 21% (nos primeiros anos com 4 clubes, mas nas últimas ligas em acentuado decréscimo). Depois, a Alemanha com 18% (sempre representada, mas não mais do que por 2 clubes). Mais atrás, a França com 11% e a Itália com 10%.

Nestes 10 anos, restam 9 presenças (num total de 80) para o “resto da Europa”, apenas por via de 5 países. Portugal, em primeiro lugar, com 4 entradas (duas vezes cada, Benfica e Porto). A seguir, Turquia com 2 (Fenerbahçe e Galatasaray), Ucrânia (Shakhtar), Rússia (CSKA Moscovo) e – surpresa das surpresas – Chipre (Apoel).

Países com tradição e currículo nunca lá chegaram com qualquer das suas equipas. Refiro-me, por exemplo, à Holanda, R. Checa, Grécia, Escócia, Bélgica, Suécia, Roménia e Sérvia.

Diz-se que a Liga Europa é a 2ª Divisão europeia. Mas, afinal, o que verificamos é que também na Champions há, em terminologia italiana, uma série A e uma série B.

É no que deu a fragmentação pelo dinheiro e pela mais agressiva lógica de mercado. Os mesmos a ganhar aos mesmos e a ideia da (boa) surpresa a desvanecer-se em anéis impenetráveis. Como na política, uma Europa a várias velocidades. E, em ambos os casos – político e desportivo – desejadas e até estimuladas pelos poderosos.

Com a conivência dos detentores do poder neste desporto-espectáculo (ou será espectáculo-desporto?), os clubes estão acentuadamente divididos em quatro grupos: ricos, remediados, pobres e abaixo do RMG (“Rendimento Mínimo Garantido”).

Ah! Evidentemente todos ricos de impagáveis … passivos. Mas que importa isso, dir-se-á. O povo entretém-se e os proveitos concentram-se.

Comentários

  1. Ainda há uns dias Dr. António Bagão Félix lembro-me deste mesmo tópico. Quando era miúdo (nos anos oitenta) jogava um jogo chamado futebol de mesa. Adorava. Todos os anos fazia as devidas competições (Taça dos Campeões Europeus, Taça das Taças e Taça Uefa). Eram 10 minutos para cada lado (relógio de corda). E todos os anos ganhava uma esquipa diferente nas referidas competições. E o mesmo se passava com o futebol de verdade. Só de 1985 a 1995 Taça dos Campeões: Juventus (triste desastre Haysel), Steaua Bucareste (Roménia), o grande FCP, PSV (na final contra o Benfica), Milan (acho que ganhou 2 vezes nesse intervalo), Barcelona, Estrela Vermelha (Jugoslávia), Marselha e por aí fora. Na taça das Taças e Taça UEFA era exactamente a mesma coisa. Resumindo: qq. país poderia levar às meias-finais ou final uma equipa. Havia muito mais emoção e interesse e embora houvesse Maradonas e Platinis (ganhavam bem), nem se compara à barbaridade dos dias de hoje. Na realidade, era bem melhor e diga-se bem mais democrático. Bem haja

    1. Pois… Quando eu era miúdo, nos anos 40, havia jogadores (em Portugal nem profissionais eram…) que jogavam melhor, mais bonito futebol, do que hoje as estrelas milionárias feitas pela comunicação social e pelos múltiplos interesses parasitas do Futebol… O Futebol é hoje em Portugal o embuste mais responsável pelo alheamento da população dos problemas que a corrupção e o mau governo têm trazido ao País. Muito pior que as religiões, no antigamente !

  2. É uma perda de tempo assistir a jogos de futebol com a ilusão de se ver competição e desporto.

    Aquilo não passa de negócio sujo, sem escrúpulos, jogos combinados e muito doping que as autoridades fingem não ver.

    Basta olhar bem para a cara de quem gravita à volta do futebol. E sobretudo para a máfia de escroques dos principais personagens nos ditos ‘grandes’.

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