Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

5 de Junho de 2017, 08:55

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Danos colaterais de Goldman & Maduro

Há uma expressão politicamente correcta muito usada no campo bélico. Falo de “efeitos ou danos colaterais”, um modo amoral de se dizer que morreram inocentes, civis, crianças, idosos. Hoje tende a espalhar-se para outras áreas onde a beligerância é menos física e mais monetária. Entre os chamados “colaterais” financeiros e os seus “efeitos colaterais”, há sempre espaço para uma escapatória igualmente amoral.

Vem isto a propósito da notícia sobre mais uma operação do sempre omnipresente (e, pelos vistos, omnipotente) banco de investimento americano Goldman Sachs. Esta instituição comprou 2,8 mil milhões de dólares de dívida da Venezuela por 865 milhões. Ou seja, terá pago apenas 31% do valor facial da dívida titulada pela empresa Petróleos da Venezuela (detida pelo banco central), com vencimento em 2022.

“Efeitos colaterais”? Evidentemente. Para a Goldman Sachs, serão os da probabilidade de ter fortes e especulativos lucros, apostando na “estabilidade” (?) do regime venezuelano. Para o regime de opressão protagonizado por um Maduro que, qual lapa no poder, perverte quase todas as regras da democracia e espezinha direitos humanos elementares, será o de um balão de oxigénio face à iminência de cofres vazios e antes da burla da anunciada reforma constitucional para eternizar a “revolução socialista bolivariana”. Para os venezuelanos, o efeito da continuação de uma situação insustentável social e economicamente, com o PIB a decrescer 30% nos últimos anos e a inflação a chegar aos 1.000%, com as lojas vazias e os (poucos) medicamentos vendidos no mercado negro.

Mas que importa tudo isso para a Goldman Sachs? Este é, infelizmente, um de muitos e variados casos que, no rastro curricular desta instituição, significam que os (seus) fins justificam quaisquer meios. Dois exemplos elucidativos foram o seu contributo “inovador” para a chamada crise do subprime, e o empréstimo secreto de 2,8 mil milhões de euros à Grécia, travestido de swap cambial e que permitiu, no início do euro, o falso cumprimento dos critérios de adesão à moeda única. O poder que exibe e que condiciona o enquadramento regulatório, a visão brutalmente agressiva de curto-prazo aliada à escassez e diluição de responsabilidade ético-social são, também, suas imagens de marca.

Este poderoso banco de investimento é o paradigma da supremacia da finança sobre a política. Mas também da hegemonia da auto-regulação (oligopolista e sem limites) de mercados financeiros que criam poderes assimétricos, agressivos e egoístas e geram ambientes tóxicos e destrutivos. Salvificamente, é consultor de muitos governos e uma verdadeira “hidra” com cabeças criteriosamente escolhidas e espalhadas.

Dir-se-á que nada há de ilegal neste tipo de práticas. É um reles argumento farisaico. O limite do aceitável e legítimo nem sempre coincide com as fronteiras da legalidade. É o reflexo da aridez descarnada de um mundo do dinheiro sem cor, sem pátria, sem limites éticos, sem exigências deontológicas, socialmente censurável, sem respeitar elementos essenciais da vida em sociedade, como os mais elementares direitos humanos. A ética negocial não se pode esgotar nas normas legais. Mercado livre e concorrencial não é sinónimo de “vale tudo”.

Porém, todas as “Goldman” continuam a exibir o seu poder-poder, afastando a ideia do poder-dever. E os Estados continuam a assobiar para o lado. Neste caso da Venezuela, quem reagiu a esta intromissão ardilosa e necrófila, a não ser a oposição daquele país? Os EUA? A Europa? As instituições internacionais regulatórias? Ninguém! Não há “danos colaterais”, é lá longe, pensarão. Mas haverá, por certo, “proveitos (pouco) colaterais” para o prestimoso e “solidário” operador.

 

Comentários

  1. Excelente. Evidentemente os Estados, particularmente as democracias ocidentais, ficam acocorados a este tipo de poderes por via dos seus eleitos. E da visão torpe que transportam, fina e previamente filtrados sobretudo no funil selectivo dos partidos tradicionais – autenticas escolas de alta gatunagem, de assalto ao poder e da rapina dos sectores económicos ainda controlados pelos Estados. É esta a ‘democracia’ à Americana. Por cá sabemos bem o que isso é. Até experts altamente inflitrados exportamos para a Goldman. Assim a única defesa possível que resta ao zé votante é fragmentar a força dos partidos de poder, e ajudar a emergência de soluções novas, descomprometidas. E ter fé em mesmo assim não cair na mão de mais bandidagem encoberta.

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