Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

1 de Junho de 2017, 09:48

Por

Tempos e silêncios

Há uns tempos, tive a oportunidade de ler um interessante texto de um editorialista italiano do “Corriere della Sera”, Beppe Severgnini sobre a crise – que eu diria estrutural – do modo verbal conjuntivo. Escreveu ele que o conjuntivo está moribundo. Não se trata, porém, de nenhum assassinato linguístico, de um suicídio premeditado ou induzido, ou de uma eutanásia idiomática. Trata-se, sobretudo, da desconsideração das ideias de dúvida, de incerteza ou de humildade (ou de todas em conjunto). Construir uma frase ou declaração com o verbo no modo conjuntivo precedido de “julgo que”, “penso que”, “creio que”, “talvez” e outras da mesma natureza cautelar está a cair em desuso. Hoje, fala-se categoricamente com a factualidade indicativa que não deixa margens para dúvidas. “Talvez ele faça bem aquele trabalho” é quase estigmático dando lugar ao “ele faz bem aquele trabalho”.

Há aqui também algo de preguiça. E de um modo facilitista de expressão. Muita gente pensará para quê fazer tanto esforço com o antipático do modo conjuntivo quando os outros o entendem em versão indicativa e redutora!

Por outro lado, a tendência para a supressão de modos e tempos verbais resulta do “contágio” do inglês, língua universal, bem mais simplificada neste âmbito e sem a nossa sofisticação.

Aliás, em português, há um tempo que quase se sumiu, a não ser por escrito e reportado a factos históricos. Refiro-me ao pretérito-mais-que-perfeito para traduzir um facto passado antes de um outro facto também passado (“quando cheguei à igreja, a missa acabara”).  Outra tendência irreversível (e, na minha opinião, empobrecedora) é a sistemática troca do futuro condicional pelo pretérito imperfeito do indicativo. Por que razão usar só um tempo verbal para dois modos de tempo? Pretérito ainda que imperfeito (“eu escrevia”) não é o mesmo que futuro ainda que condicional (“eu escreveria”)! O condicional exprime uma possibilidade dependente de uma condição, de uma dúvida ou de uma incerteza, ou, ainda, de uma gentileza (“poderia fazer o favor de me ajudar?”). Curiosas são frases que por vezes se lêem ou ouvem, com o pretérito imperfeito do indicativo, logo seguido do modo condicional (“ele era o Rei e ela seria a Rainha” ou “matava-o e morreria”).

Estamos vivendo uma avalanche de pseudo hegemonia dos factos (mesmo que não o sejam…). É a primazia crescente sobre a filosofia, a hermenêutica e sobre a necessidade de compreender as coisas. Mas é, de igual modo, uma expressão deste tempo onde quase tudo é efémero, virtual, rápido, descartável, ligeiro, superficial, inútil, supérfluo.

Pouca gente julga, considera, crê ou pensa. Muita gente sabe, transmite, comunica, tem a certeza. Como um amigo me dizia há tempos, a propósito de alguém que estava há longo tempo a tentar explicar uma situação, quando interpelado sobre se percebia o que estava a explicar, disse com sinceridade: “não, não percebo. Se tivesse percebido, não te explicava, dizia-te…

Hoje quem se arrisca a usar o conjuntivo ou o condicional, corre o sério risco de ser visto como uma pessoa insegura. “Creio que seja deste modo”, “quem seria aquela pessoa?” cansam os mais convencidos que retorquirão “oh homem, deixa-te de creio e parece. As coisas são ou não são, ponto final”.

De certo modo ligado a esta questão verbal está o odiado silêncio, ainda que possa ser um modo inteligente ou humilde de alguém se exprimir. Numa qualquer reunião, quem não fala, simplesmente porque nada tem a acrescentar, comete o pecado da mudez pessoal ou profissional. É desqualificado, passa por ignorante ou incompetente.

Desconsideração do modo conjuntivo, do modo condicional, do modo de silêncio, afinal três vértices de um dos triângulos da vida hodierna.

Comentários

  1. Algumas questões:

    (1)É preciso continuar a crescer para tudo poder continuar no mesmo sítio – é o paradoxo que aparece em “Alice no País das Maravilhas”. Vivemos numa sociedade que tem como lemas o crescimento económico, a maximização do lucro e a concorrência nas escalas individual e colectiva. A língua que convém a este tipo de organização social é, sem dúvida, o inglês. É o esperanto da Humanidade – verbos conjugados de forma simples, os tempos primitivos dos verbos reduzidos ao mínimo, bastando três termos para a conjugação entre todos os tempos e modos. Que fácil: To be, was, been; To get,got,got; to forget, forgot, forgotten,etc. É a linguagem adoptada à mundialização da economia. Quem não arranha o inglês não sobrevive. É a forma de comunicação alargada e difundida no Planeta pela classe dominante no Modo de Produção Capitalista;

    (2) Não vale a pena preocuparmos mais com conjugações de verbos.Compreendo a frustração do Professor Bagão Felix, mas a economia e a ganância dos 1% que dominam os restantes 99% não permite mais. Cada vez será pior. Veja-se o seguinte apontamento: os ministros da Cultura nos executivos do mundo ocidental ocupam posições subalternas. Por vezes, nem sequer são ministros; são secretários de estado. O escritor Francisco José Viegas foi secretário de estado no anterior Governo;

    (3) O latim foi abolido do ensino secundário. No meu tempo de Gil Vicente as declinações de latim eram leccionadas no 5º. ano em Português. As chamadas línguas mortas, donde provem toda a etimologia, fonética, morfologia e sintaxe do português desapareceram do ensino secundário(Latim e Grego). Perante isto…nada a fazer. Como se pode escrever falar e escrever bom português, a nível nomeadamente dos mais novos?;

    (4) Há coisa de vinte anos, era comum encontrar, nos transportes públicos, muita gente a ler jornais ou livros, onde se aprende o português. Actualmente, sabemos o que acontece: são portáteis, tablets e telemóveis, toda a gente a clicar teclas e a jogar. Joga, joga, joga…. Estamos numa sociedade dominada pela tecnologia. Grandes discussões acerca da robotização e do Rendimento Básico Único. É uma nova revolução – tão importante como a Revolução Industrial. O amigo de Marx, Engels, escreveu um livro notável sobre a Revolução Industrial. “A situação da Classe trabalhadora em Inglaterra”, em pleno século XIX, principalmente, embora faça algumas incursões no século XVIII.. A outro nível, os problemas de hoje podem ser vistos nesta perspectiva: adaptação a uma situação nova;

    (5) O inglês só é complicado nas frases idiomáticas. Mas para as relações na mundialização da economia basta a fácil conjugação verbal para vender e comprar. Para comunicar basta o twitter – vide Trump. Chega para o comércio, para explorar legiões e legiões de trabalhadores e seres humanos e para maximizar os lucros dos tais 1%;

    (6) Quem ventos semeia…temos o que construímos ou o que deixámos e deixamos(pretérito perfeito e presente do Indicativo) construir. Sem apelo nem agravo;

    (7) Que beleza enunciar os tempos primitivos com cinco termos. Por exemplo o verbo mettre, do francês, etimologia latina: mettre, mettant, mis, je mets, je mis. Com estes cinco termos constroem-se todos os tempos e modos do verbo mettre. Je mets – 1ª. pessoa singular do presente do indicativo, Infinitivo presente: permitem formar o presente, o imperfeito e o futuro de todos os modos; a 1ª. pessoa do pretérito perfeito do indicativo: permite o infinitivo perfeito, futuro anterior e mais-que-perfeito. O gerúndio permite formar o infinitivo, o particípio futuro e o particípio perfeito. Em português é análogo. O mettre veio-me à memória porque foi a última pergunta do exame de Francês do 5º, ano: a partir dos tempos primitivos pretendia-se saber a tempos e modos davam origem;

    (8) Na passada quinta-feira, 1 de junho, o Prof. João Paiva assinou no “PUBLICO” um artigo de opinião muito interessante: “A apologia da ciência e a inutilidade das artes e das humanidades”. O título é enganador, pois o autor diz-nos:”Sabemos que Kant, Tolstoi ou Beethoven nos deliciaram e apontaram caminhos…e não tinham laboratórios.Benditos inúteis!”;

    (9) De “Dictionary of English Idioms”, Penguin Books, U,K, 1986, não resisto a transcrever alguns idioms:(só no âmbito dos animals)

    “A dog’s dinner” – Um jantar miserável;
    “A sly dog” – Um homem que é discreto nos seus prazeres;
    “It rains dogs and cats” -Chove a cântaros;
    “No room to swing a cat” – Um espaço exíguo;
    “A dark horse” – uma pessoa de qualidades desconhecidas;
    “To be in a pet” – estar de mau humor.

    Extremamente engraçado. Seria interessante a origem de cada uma destas preciosidades da língua inglesa. Os “idioms” é um caso à parte no inglês.

  2. Muito bom . Talvez seja também consequência do deslumbramento saloio com a net e os powerpoints tanto no ensino do português como da filosofia. Já não há o hábito da análise e interpretação do texto ou do uso quotidiano do dicionário. Há alunos que fazem todo o percurso secundário-universidade sem livros enquanto os pais lhes proporcionam smartphones,ipads e computadores sem qualquer ponderação. A reflexão,o espírito crítico não é incentivado nas escolas nem em lado nenhum.. Os próprios professores são obedientes a normas acéfalas dos sucessivos ministérios e têm medo de não ser “modernos”. E isso acontece há uns dez anos a esta parte nas escolas.Cabeças no nevoeiro.

  3. Excelente reflexão, de facto. Parece-me surpreendente a velocidade de empobrecimento da língua, desde o ubíquo «supostamente» (que faz o lugar sem substituir de «teoricamente», «alegadamente» e «aparentemente») aos inglesismos enfiados a martelo.

    Relacionado com isso, ou não, há a tal ausência de dúvidas — e consequentemente, de conhecimento (quanto mais conhecimento, mais as dúvidas) — que é a via-rápida para o fascismo. E não será a TINA um reflexo disto?…

    E nem falo na visão da linguagem ultra-simplificada que o Orwell deixou no 1984…

  4. O caro Bagao Felix tem aqui uma bela reflexão. Ja dizia o Bertrand Russel: “The whole problem with the world is that fools and fanatics are always so certain of themselves, and wiser people so full of doubts.”

  5. Não creio que esta reflexão seja oportuna, não só porque é um caminho que percorremos há décadas (muitas), também porque não se trata de um desvio linguístico de preguiça e muito menos um acaso dos tempos modernos. A certeza como convicção é uma opção no dia-a-dia, nada menos que isso. Andámos (muitos de nós) 50 anos sem questionar o Estado Novo; andamos há 5 séculos sem questionar o papel dos portugueses no tráfico de humanos; vendemos verdades convenientes como a que li hoje aqui no Público sobre a “hipotética” existência de praias com “zero poluição”, sabendo nós de fonte segura que, nada mais que as areias, contêm cerca de 100g de minúsculas partículas de plástico por cada quilo de areia. Porque só a verdade se eleva (diz quem a apregoa), quem a ouve é instado a não questionar. Na ciência escondem-se os fracassos, na política e na religião manipulam-se as promessas, na economia insiste-se na verdade dos números, ainda que os números nunca coincidam com a realidade. Com tanta verdade instalada nos eufemismos, para que queremos nós o conjuntivo? Creiam, meus caros, não se trata de uma moda, mas sim de uma opção civilizacional, a verdade magoa.

  6. Excelente reflexão. É claro que tudo isso é empobrecedor e actua subrepticiamente num quadro mental em transformação que determina a convivencia humana. Mas, claramente, é a consequência da americanice jagunça que se entranhou e que tem sido veiculada massivamente pelos média e entretenimento. A seguir vem a fase dos silêncios mas agora ditado pela pistolada.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo