Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

29 de Maio de 2017, 08:41

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Ouro sobre azul (ou vermelho?)

Sempre me despertaram curiosidade as expressões populares que, de uma ou de outra maneira, associam cores a aspectos da vida das pessoas. Falo hoje deste prosaico assunto porque, há dias, ainda no rescaldo da celebração do tetracampeonato do Benfica, alguém – querendo ser simpático para mim – rematou a conversa com “desta vez, foi ouro sobre azul”!

Eu, que até gosto muito de azul, fiquei a matutar na dita expressão, aparentemente desajustada para o meu coração encarnado. O meu amigo, pouco dado a estas coisas da bola, fê-lo com boa intenção. Afinal “ouro sobre azul” significa uma situação ou algo muito bom, magnífico, deslumbrante. Mas porque não “ouro sobre vermelho” ou outra cor?

Fui procurar detalhar a origem da dita frase. Comecemos pela razão de ordem técnica. Considerando as cores primárias, verificamos que o amarelo contrasta mais com o azul assim como o vermelho se opõe ao verde (esta eu entendo, futebolisticamente falando). Ora como o amarelo do ouro brilha como nenhum outro, o contraste é ainda mais impressivo. Logo “ouro sobre azul” é uma deslumbrante junção de opostos. Um desafio conquistado.

Depois, há uma outra pretensa justificação de natureza guerreira. Consta que “ouro sobre azul” se usava antigamente para a espingardaria mais elitista, pois que as armas tinham uma tonalidade azul resultante do aço temperado, à qual se juntavam inscrições a ouro.

Por fim, há algum rasto artístico para o “ouro sobre azul”. No barroco português, era habitual juntarem-se os azulejos azuis junto dos espaços sobre a talha dourada de altares e retábulos nas igrejas e capelas.

Técnica, bélica ou artisticamente “ouro sobre azul” não é uma regra de ouro, mas, por respeito ao meu bom amigo (repito, pouco conhecedor do jargão futebolístico) não o contestei. Afinal o silêncio também é de ouro…

Continuando este meu itinerário por um campeonato emocionante e sofrido, confesso que tive algumas “noites em branco” (uma, justificada pelo título; outras, decepcionado com os poucos desaires). Todavia não “votei em branco” nas eleições do meu clube, até porque acho que nesta última década os encarnados têm posto o “preto no branco” com o cuidado de não darem “carta branca” a quem quer que seja.

Mas sendo o Benfica sobretudo vermelho (ou encarnado, como preferirem), para esta inédita quarta vitória consecutiva, ninguém precipitadamente “estendeu o tapete vermelho” antes da consagração. Já nos chegou o golo de Kelvin – esse jovem jogador que está na minha “lista negra” – que, só de o lembrar, nem com “sorriso amarelo” consigo disfarçar.

Já os clássicos adversários do campeão tiveram estados de alma bem diferentes dos que houve na Luz. Uns, “ficaram verdes” por não terem conseguido “pôr o pé em ramo verde”, mesmo com Jesus (o Jorge) bem pago, mas sem ser através de “recibos verdes”.

Outros, vão balbuciando que a “coisa está preta” não só por não ganharem, mas porque estão perigosamente “no vermelho”, uma ironia de cores face ao campeão. Diz-se até que entre os responsáveis da comunicação dos não campeões vai haver um “telefone vermelho” para gizarem uma estratégia de combate ao comum opositor (outra ironia colorida…).

Resta-nos, nas próximas semanas, ler as revistas “cor-de-rosa” (com hífen, pois claro!) sobre as “esposas dos craques” e afins. E começar o defeso com notícias abundantes sobre trocas e baldrocas, pegando nas “páginas amarelas” (chinesas e não só) ou dispensando algumas “ovelhas negras” das equipas. Os intermediários, esses começam a pensar no “correio azul” (ou será “saco azul”?). Ah! E alguns treinadores a chegarem e outros a partirem, estes com a imaginada “cor do burro quando foge”.

Comentários

  1. AS CORES TÊM TIDO REFLEXO:

    (A) Na Música Popular:

    (A.1.) “Se eu tivesse vinte anos/E soubesse o que sei hoje/Pintava a manta da vida/Cor do burro quando foge”
    Paulo de Carvalho em 1972 em “Perdido por Cem”, de APVasconcelos

    (A.2.) “O silêncio é de ouro”

    “Silence is golden/But my eyes can see…” “Silence is Golden”-Tremoloes -SIxties

    (A.3.) “…so we sailed up to the sun/Till we found the sea of green/And we lives beneath the waves/In our yellow submarine”

    (The Beatles)
    (Portugal após ter saído do Procedimento por Déficit Excessivo)

    (A.4.) Purple – Roxo

    “Purple Rain” – Prince

    “Purple Rain, Purple Rain/Purple Rain,Purple Rain/I only wanted to see you/Bathing in the Purple Rain”

    (B) NO CINEMA

    (B.1.) A trilogia de Lieslowski

    “A igualdade é Branca” “BRANCO”
    “A Liberdade é Azul” “AZUL”
    “A Fraternidade é Vermelha” “VERMELHO”
    (LA FRANCE)

    (B.2.) “As Brancas Montanhas da Morte”(1972) de Pollack

    As Montanhas Rochosas. A Natureza e o Homem.

    (B.3.) “The Soylent Green”(1973) de Fleischer

    Uma ficção localizada em 2022…estamos perto…
    Somente os ricos têm acesso a alimentos naturais…Uma parábola com aplicação aos dias de hoje.

  2. A só conhecia a versão dos azulejos por baixo da talha dourada nas igrejas. Via “visita guiada”, um óptimo programa. Btw, não sei se o professor anda atento mas anda a passar na tv2 um programa sobre jardins que aconselho a todos mas especialmente aos amantes da natureza e dos jardins como o Sr.

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