Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

26 de Maio de 2017, 14:57

Por

O Eurogrupo é nosso, ou em marcha para lugar nenhum?

Foi um balde de água fria: um ex-embaixador, versado nestas coisas europeias e que não é propriamente um adversário do governo, veio escarnecer dessa “saloiíce lusitana” que teria levado a que alguém, fora “do seu perfeito juízo”, acreditasse que a sibilina frase de Schauble sobre “o Ronaldo do eurogrupo” fosse “algo mais do que uma arrogante boutade”. Lembrou Seixas da Costa que Schauble só defendeu em público um ministro e o nome dele é Dijsselbloem (precisamente contra as críticas portuguesas por outra boutade mais séria). Nicolau Santos conclui, e quem o pode criticar, que Schauble está a gozar connosco.

Feitas as contas, percebem-se duas evidências: primeira, ao governo português convém que esta hipótese seja espanejada e, segunda, não é fácil ao Eurogrupo encontrar um socialista que não seja francês nem italiano e que possa ocupar o cargo. Mas, como lembra Seixas da Costa, a ser um socialista, será provavelmente uma operação ventríloqua do governo alemão, alguém confiável como o foi o ministro holandês. Restaria ainda perguntar que faria Centeno nesse lugar: imaginemo-lo a negociar com a Grécia ou a fazer advertências sobre o défice estrutural português, para podermos antecipar a armadilha.

Em qualquer caso, é interessante compreender o que pensa o ministro português – e o seu governo – a respeito da questão europeia, para além deste circunstancialismo da desejada vacância de Dijsselbloem. E, a esse respeito, provocou algum debate o seu artigo sobre o sucesso da saída do Procedimento por Défice Excessivo, em que houve quem quisesse ler um programa para a Europa e portanto a confirmação da ambição pelo lugar europeu. Ferro Rodrigues, nas jornadas parlamentares do PS, acrescentou alguma teoria a este debate, com a crítica à assimetria do euro, assunto em que Centeno sempre foi mais reservado.

Falso alarme, porque o ministro se limita a pedir que se complete a União Bancária com um Fundo de Garantia de Depósitos e que haja uma solução para o crédito mal-parado (qual?). Ora, podemos então perguntar por que razão estas questões se arrastam, visto que já estão a ser faladas ou mesmo prometidas há vários anos. E em ambos os casos a razão é a mesma: dinheiro. Um fundo de garantia significa que a UE paga se houver uma crise bancária; uma solução europeia para o mal-parado significa que a UE paga os desvarios anteriores. E a UE não quer pagar. Schauble gosta de jogo de bola, desde que não haja bola. E Schultz, agora em queda depois de tanta promessa de redenção alemã, veio explicar ao Financial Times que pensa precisamente como Schauble. Assim, como se nota num recente documento do governo português, é dado por certo que não se passará nada e portanto bastam algumas proclamações sobre o “défice democrático” e como seria conveniente “reforçar a zona euro”.

Macron, mais afoito, sugere um ministro europeu das finanças, além de curiosas convenções em todos os países, com data marcada e agenda feita, refundar a Europa, mas agora não, só depois do Natal. Essa proposta do ministro europeu, sim, agrada aos governantes alemães, que aliás já a apresentaram no passado, embora por alguma razão a foram deixando de reserva. Mas tem um problema: chama-se democracia, aquela coisa de os parlamentos serem eleitos para deliberar sobre o orçamento nacional e de ser inconveniente que lhes seja tão violenta e explicitamente retirada essa função.

Agora, entendamo-nos, nada disto é um programa, com a particularidade de tudo o que é solução ser inaplicável e tudo o que é aplicável não ser solução. É pedido que se complete a União Bancária, aceitando a monstruosidade do seu funcionamento e o risco actual (uma autoridade europeia pode impor o confisco de parte dos depósitos num banco nacional em caso de dificuldades); é pedido que venha dinheiro que nunca há-de vir; e, para cúmulo do entretenimento, discute-se que se reforce uma união em que a única solução discutida é a das várias velocidades. Fica tudo dito: a solução que está em cima da mesa vai sendo aceite por se ter a certeza de ninguém saber o que quer dizer. Portanto, estamos em marcha, mas é para lugar nenhum.

Comentários

  1. Afinal o quer quer Louçã? Alguém que pague as dívidas por ele? Alguém que financie as “boas” ideias do Bloco? Será a Alemanha que não quer ou será que a larga maioria do povo Europeu quer que Louçã faça menos despesa e produza mais a exemplo do que eles próprios têm de fazer para ter melhor nível de vida. As ideias de Louçã até podem ser boas. não há é quem as financie. E que tal pedir à afilhada que assalte o BCE?

  2. Ó Louçã,até o Seixas!Até o Nicolau !!! Chamem o Varoufakis(que até apoiou Macron)! Maldito capitalismo,”vendem-se” todos…

    1. Seria muito curioso ver Varoufakis, esse burguês motard trapalhão que acabou de arruinar a Grécia, apoiar o artista para a presidência do Eurogrupo. Curioso mas pouco útil, porque já ninguém, e o Syriza mais do que ninguém, lhe suporta as trapalhices. É pena, porque eu adoraria ver o artista no lugar de Dijsselbloem.

    2. Victor Guerra está a ser injusto. Não acredito que o “capitalismo” tenha comprado Varoufakis. Bem,… a não ser que tenha sido por um prato de gambozinos com caviar, acompanhado de Moët & Chandon de 1943, no Belcanto.

  3. Qual balde de água fria, qual carapuça! Costa e Centeno têm sentido de ridículo e sabem que a ‘boutade’ de Schaeuble (para usar a expressão de Seixas da Costa) ou é pura ironia ou pior, se não o for, contém veneno. Não se está a ver o poderoso Ministro Alemão ficar convencido por um mero ano de redução do défice, ou por um mero trimestre de crescimento. Estou como Costa, esperemos para ver, que o Diabo pode assumir muitas formas. Mas, Professor, não deixa de ser estranha a simetria entre o discurso pessimista da Esquerda em relação à UE e o discurso pessimista de Passos Coelho (e Schaeuble e Cia) em relação à presente solução de Governo. Compreende-se, se as coisas continuarem a correr bem, lá se vai a ‘narrativa’ das soluções maximalistas em relação à saída da presente crise. Mas, tenho, em relação a isso, más notícias para si. Falo naturalmente só por mim, mas o que eu espero é que esta doce Primavera ‘costista’ dure tanto tempo quanto possível. Não quero cá ruturas, sejam elas trazidas pela pulsão ‘passista’ de nos transformar numa qualquer Singapura, ou pela pulsão esquerdista de nos levar de regresso à Economia dos anos 70, como se isso fosse possível nos dias de hoje (sobretudo porque continuaremos a precisar de financiamento externo para o futuro e não vejo ninguém à Esquerda explicar de onde ele virá se não for dos suspeitos do costume, os maléficos mercados). E verifico, com regozijo, que o discurso de Ferro Rodrigues nas jornadas parlamentares do PS reflete exatamente essa posição. Porque, no dia em que o PS deixar de ser o Partido de Centro-Esquerda que é (sei que tem dificuldades em usar o último rótulo, e que prefere chamá-lo de Partido de Centro, é a vida) eu levo o meu voto para outro lado, talvez para um Partido com o sugestivo nome de ‘Em marcha!’. A Esquerda da Esquerda ainda não percebeu que sem os votantes de Centro (os grandes Partidos são sempre coligações de votantes) nunca ganhará uma eleição que seja (de onde pensa que vem a vitória de Macron?) e que nós não queremos o modelo económico que ela nos pretende vender (até porque os seus resultados noutras paragens foram sempre muito mais desastrosos que os do Capitalismo. olhe para a Venezuela para o exemplo mais recente). Chamem-lhe o que quiserem, complexo de Estocolmo, mudanças de mentalidades à Thatcher, que eu digo-lhe, como Blair, que é pior, nós acreditamos mesmo nisso. Claro, se a Direita reduzir esse Centro à pobreza, talvez as pessoas aceitem mesmo votar no que quer que seja, mas a raiva não é por si só nenhum projeto político. E, por simetria, o que está a acontecer na Venezuela, onde 80% das famílias são pobres, é exatamente a imagem no espelho disso, sendo que quando Maduro for democraticamente despachado para onde merece, demorarão muitos anos até que a Esquerda possa regressar ao poder. Diga-me sinceramente, é mesmo algo assim que espera que aconteça, ou vai antes prevalecer à Esquerda o ímpeto moderado e reformista que assistiu por exemplo à redação do relatório sobre a reestruturação da dívida e que lhe poderá permitir exercer o poder até talvez 2023, pelo menos?

  4. Haaa, este seu artigo ajudou-me a perceber o caso Centeno. De facto não se encontra na imprensa alemã nada que se pareça com a histeria eurovisiva à volta da ideia de nomear Centeno para o pres do eurogrupo. Quanto à “democracia” na arquitetura da UE, parece cada vez mais claro, serve apenas de iconografia.

  5. Eu adoraria ver um dos artistas da geringonça como presidente do Eurogrupo. Adoraria tanto como adorei ir ao circo quando era menino.

  6. Para se ser o capataz de Schäuble tem que ser-se um frouxo! A linha de comunicação pode variar desde que cumpra a missão: anexar as economias submetendo-as à corja visível e invisível que manda na chamada UE.

    A linha de comunicação de Centeno é gelatinosa, atrapalhada, de engasgues, avanços, recuos, mudanças de direção e sempre lealmente obedecendo. Assim engodou Passos e seu bando que acreditaram na firmeza irredutível de Dijsselbloem e perderam ano e meio a chamar pelo diabo. A gelatina de Centeno esmagou a firmeza de Dijsselbloem. O diabo de Passos engoliu-o Schäuble.

    No plano internacional as coisas não são fáceis sabe disso Seixas como toda a gente que tentou mudar alguma coisa nesses meios envenenados habituados a mexer com mil cuidados e muitas zonas de recuo. Seixas exagera carregando nas cores do seu texto.

    Schäuble já falhou bastante com as suas iniciativas punitivas e musculadas. Foi Schäuble quem, sem aviso prévio, meteu nas decisões quentes do verão de 2015 a abertura para a expulsão da Grécia do euro. Pois o RU saiu da UE e Schäuble ficou calado mordendo a língua.

    Esta graçola de Schäuble têm muitas zonas de recuo depois de medidos os efeitos diretos e colaterais do arremesso. A melhor e impossível resposta ao arremesso de Schäuble seria não ter havido reação alguma de parte nenhuma. Porém como era inevitável estarão a ser coleccionadas e alinhadas as múltiplas reações seus pontos de origem, direção, sentido e intensidade. O homem semeou e acolheita cresce em abundância.

    Dijsselbloem Continua no lugar apesar da barulheira que provocaram os seu “copos e mulheres”. Agora é tempo de esperar pelo grau de submissão de Macron e pelos resultados eleitorais da CDU. A presidência de um órgão que nem existe formalmente pode esperar e pode até nem ser precisa.

    1. Concordo! O Eurogrupo não é nosso – nós é que somos dele – é o toque de caixa de uma marcha para o regresso da ditadura ao continente europeu. isto já só se resolve assinando o artigo 50.

  7. Schauble ainda não percebeu (ou não quer entender), que só uma muito pequena minoria dos portugueses são Cosa Nostra, ou barrosistas-Goldman-iraquianos. E que quase toda a Europa e o resto das potências excepto a China, desejam a novamente a divisão da Alemanha em 4, agora em paz e sem desculpas de guerra fria.

    Precisamente por causa de gente como Shauble, ou o covarde Schulz, que pensa que fazer o mesmo para agradar aos barões alemães e aos fascistas (ou populistas, como os neoliberais pré-fascistas agora confundem propositadamente esquerda com direita, que nunca se tocaram), faria diferente de Merkl (direita por direita, os alemães escolhem o original, como tem acontecido ao resto dos extintos “socialistas”, entre aspas, na Europa)…

    E espero bem, para bem dos alemães comuns, que eu simpatizo e gosto particularmente de trabalhar, que Merkl não tenha tentado comprar Trump, aumentando o limite dos Tratados de 100 mil soldados, ou forçar estados endividados da UE a aumentar gastos militares, sem renegociação prévia das dívidas…

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