Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

25 de Maio de 2017, 11:00

Por

Jens Weidmann à frente do BCE?

Quando o euro foi criado, França e Alemanha “acordaram” que a sede do Banco Central Europeu ficasse em Frankfurt, sob a condição de que seria presidido por um francês. Embora o BCE fosse um banco central que conduziria a política monetária de forma independente, à imagem do Bundesbank, o Presidente Chirac pretendia dar o sinal político de que, em última instância, estaria sob o controlo político dos líderes eleitos da Europa, segundo John Van Oudenaren. Foi encontrada uma solução de compromisso, em que um holandês, Wim Duisenberg assumiu a presidência na condição de se demitir a meio do mandato para dar lugar a Jean-Claude Trichet. E assim foi.

Agora, pela primeira vez, o nome de um alemão, Jens Weidmann, é lançado por Angela Merkel e Wolfgang Schäuble como candidato à presidência do BCE.

Compreende-se que a Alemanha pretenda ver finalmente um alemão à frente do BCE. A política monetária do BCE, sem dúvida fundamental para promover o desenvolvimento da economia da zona euro, incluindo a economia alemã, tem efeitos redistributivos muito significativos devido à arquitectura da zona euro e ao formato dos instrumentos de política monetária. Com efeito, ao contribuir para taxas de juro muito baixas, a política monetária do BCE tende a penalizar países credores em detrimento de países devedores e, mesmo dentro de cada país, tem efeitos redistributivos a favor dos devedores. Por isso, se compreende que o governo alemão e o seu banco central sintam que a política monetária do BCE tem prejudicado a Alemanha.

Jens Weidmann foi economista chefe de Angela Merkel, entre 2006 e 2011, muito próximo desta. Foi posteriormente escolhido por Angela Merkel para presidente do Bundesbank. Jens Weidmann tem sido o “falcão” no Conselho do BCE, votando muitas vezes contra as políticas monetárias acomodatícias de Draghi, ao que se sabe.

O Ministro das Finanças português não vê problemas, considerando Jens Weidmann um nome forte, mas pretende que as políticas (monetárias) sejam discutidas. Em teoria, o Ministro das Finanças tem razão porque o importante são as políticas monetárias que o BCE venha a adoptar. Mas, na prática, como se constata pela acção de Mario Draghi, o BCE é o banco central mais independente do mundo, e o seu presidente (e a comissão executiva do BCE) tem muita latitude e poder para definir e implementar a política monetária. Acresce que a Alemanha foi uma das impulsionadoras da União Bancária, que concedeu muito mais poder ao BCE.

Por conseguinte, numa União de “governo de homens”, a escolha das pessoas importa porque infelizmente as políticas, na zona euro, são indissociáveis dos homens e das mulheres que as definem e as implementam.

Interessa alguém para o BCE que saiba construir consensos, que seja extraordinariamente conhecedor de política monetária, que seja visionário. Embora não concorde com muitas opções de Mario Draghi na área da política monetária e da política económica, li muitas das suas intervenções para compreender que é alguém com essas qualidades, alguém que domina o detalhe técnico e a “delicadeza” da política monetária. Draghi representou um salto quântico em comparação com Jean-Claude Trichet. As políticas de Draghi salvaram o euro, pelo menos por uns anos…

Jens Weidmann já sinalizou a política monetária que faria, se fosse eleito como presidente do BCE: uma política monetária restritiva, que poderia fazer regressar os momentos aflição…. Seria essencialmente o contrário de Mario Draghi. Representaria vários passos para trás. Não se afigura bom para a zona euro que a política monetária ande aos ziguezagues.

Mas esta é uma discussão académica. O status quo, mantém-se para já, na zona euro: o que a Angela quer, a Angela consegue … e há que ter muita cautela nisso.

Comentários

  1. Tenho saudades de Wim Duisenberg. Venha Jens Weidmann, o senhor pombo já causou demasiado estrago ao euro, tal como a senhora pomba o fez ao dólar. Esta ideia toda pós-modernaça de que esses insignificantes burrocratas podem domar as crises económicas só as está a fazer piores. A ponto de as pessoas procurarem moedas alternativas, sejam os velhinhos metais preciosos, sejam as ridículas moedas virtuais, estas últimas perigosíssimas para os seus utilizadores. Para não haver confusões, eu não confio neste euro, vamos ter inflação no final da história, e penso que já se sente isso.

  2. Foi interessante ler este seu artigo sobre a crescente ascendência da alemanha agora também no controlo direto do BCE que não está, parece que caso único num banco central de uma economia desenvolvida, sujeita a oversigh parlamentar. A mim ajudou-me a pensar nesta receita de opacidade no cozinhado Macron-Merkel discutida neste artigo no NYT de ontem pelo editor político do Die Zeit, Jochen Bittner, sob o título “Macron’s Disastrous Eurozone Plan”. Como ele recorda, o fim do marco foi então imposto pela França a uma Alemanha que não mais precisa de ceder nada a ninguém. Desta forma querem o marco de volta, mesmo que se continue a chamar euro … Cido da sua conclusão “there’s no point repressing this now. Instead they [a França] can try working harder to catch up with the strongest”. De volta as ideias de que aos “fortes” è devida a obediência dos “fracos” como modelo das “uniões” continentais. Junta-se a isto que o negociador da unificação que teve de engolir o sapo do euro foi precisamente Wolfgang Schäuble, como ele próprio descreve no seu livro de 1991 “Der Vertrag: Wie ich uber die deutsche Einheit verhandelte” (O Acordo: como eu negociei a unificação alemã). Ou seja, a alemanha prepara-se com Macron, pela admissão de gente que sabe o que quer como Jochen Bittner, para se “desreprimir”. Nesse caso a sua discussão aqui está longe de ser apenas académica e eu fico com muitas dúvidas que os Centenos da europa consigam fintar este adversário …

    1. Caro Jonas Almeida,

      muito obrigado pelo seu comentário e pela sua referencia à coluna de Jochen Bittner no NYT, que eu só poderia apelidar de surreal.

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