Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

25 de Abril de 2017, 13:16

Por

A França, cantando e rindo

Um suspiro de alívio atravessou as chancelarias no domingo à noite e houve governos europeus que, mesmo antes de o Presidente francês o fazer, se precipitaram para apelar ao voto em Macron. No centro e até na esquerda ouvem-se vozes indignadas exigindo essa mesma entronização, castigando quem se atreva a sugerir que perceber o risco é útil para o combater.

Tal precipitação partilha aliás um consenso que convém a ambos os candidatos que chegam à segunda volta das presidenciais francesas: como anunciavam os cartazes de Le Pen, “Já não existe esquerda e direita mas sim patriotas ou globalistas”, e o mesmo repetem os macronistas da primeira como da última hora. É portanto neste terreno de bipolarização que ambos jogam. É-lhes confortável fingir que acabaram os programas e que agora é tudo ou nada, ou o isolamento ou o desvanecimento. É um sinal do estado da política francesa: “cantando e rindo, levados, levados, sim”, resolve-se o problema? Precisam mesmo de um “som tremendo” e um “clamor sem fim” para que ninguém ouça nada.

Pergunto-me como podem alguns intelectuais colaborar nesta fraude, que é a verdadeira alavanca de Le Pen. Pacheco Pereira resumiu bem todo esse paradoxo: “(a Europa) vai andar feliz uma semana ou duas e depois tudo começa na mesma”. Ora, ficar tudo na mesma é a garantia de dois erros fatais: primeiro, perante a degradação institucional, persistir na solução (entregar o poder soberano a autoridades europeias) que garante o desastre (os regimes deixam de ser representativos); segundo, baixar ainda mais o nível dos protagonistas. Depois de Hollande é a vez de um político postiço cuja qualificação para ser Presidente é ter ganho uns milhões em aventuras financeiras.

De resto, entendamo-nos: não tem o leitor a sensação de déjà vu? Hollande deu o golpe garantindo que com ele a Europa se ia endireitar, respeitar as pessoas e as nações, cuidar dos desempregados, corrigir os tratados – e tudo em três semanas. Macron dá um passo mais: tudo se há-de resolver, mas não me pergunte como, basta um beatífico “referendo europeu na segunda volta”.

Mas se há lição de França é esta: acelera-se o colapso das famílias políticas tradicionais que têm governado a União e os seus principais Estados. Isso é imparável, a culpa é sua, isto não ocorre por causa de inimigos exteriores, não é por Putin e Trump apoiarem Le Pen, o que tem forte significado mas escasso impacto eleitoral, acontece por causa dos inimigos internos. Numa palavra, é o liberalismo económico que corrói a confiança. E esse é o problema de Macron, é a sua realidade que o perturba. Ele é o nome da “Lei Macron” que facilitava despedimentos colectivos e outras ignomínias e que desencadeou uma greve geral – não seria então de esperar que a esquerda desconfie dele?

Portanto, Macron tem esta escolha: tem de negociar e dar garantias à esquerda. Os que o querem entronizar, esperando depois um governo dos ressuscitados PS e Republicanos, desesperam por evitar esse comprometimento (veja o exemplo do impagável Duarte Marques, que já sonha com a vitória da direita nas legislativas de junho). Mas ele é a chave da segunda volta e é Macron quem deve tomar a iniciativa. Obrigando-o a isso, Mélenchon, que tem a maioria do voto jovem e de metade das grandes cidades, age estrategicamente em nome da esquerda. Ainda bem que houve alguém que não se acobardou nestas eleições francesas.

NB- Apreciei a infamiazinha de Rangel, é mais forte do que ele. Venho só lembrar-lhe, a propósito de a esquerda ser “moralmente” igual a Le Pen que, quando há trinta anos Le Pen pai veio a Portugal para incentivar a extrema-direita, só um punhado de militantes protestou cara a cara contra o que ele representava. Os moralistas rangelianos estavam de folga.

Comentários

  1. É muito difícil argumentar bem (e honestamente) o apoio à atitude de Mélenchon. Desde logo, porque essa atitude é ambígua e nada garantidamente derivada de razões de estrita coerência política (como F. Louçã sugere ou pressupõe). E, depois, porque é um apoio que obriga a fazer perguntas capciosas, como esta: “Ele é o nome da “Lei Macron” que facilitava despedimentos colectivos e outras ignomínias e que desencadeou uma greve geral – não seria então de esperar que a esquerda desconfie dele?” A esquerda pode e deve desconfiar de quem quiser, mas um ponto é certo: não tem o direito de “desconfiar” de Marine Le Pen, porque não tem o direito de ignorar o que ela, com toda a clareza, representa. E, de duas, uma: ou a esquerda tem uma clara identidade antifascista e marca de imediato a sua posição perante o risco de ter uma neofascista a dirigir um país como a França, ou se põe a navegar em águas turvas e incorre no risco de se tornar cúmplice daqueles com que a esquerda (se o é, de facto) nunca se pode confundir. E nunca é nunca. Ser de esquerda, neste sentido, é uma responsabilidade histórica muitíssimo pesada, incompatível com qualquer espécie de complacência quando se está cara a cara com o inimigo. Agir doutro modo não significa, de maneira nenhuma, que “houve alguém que não se acobardou”. Esperemos que não signifique, pelo contrário, uma certa espécie de medo em que a França, infelizmente, tem uma péssima tradição.

    1. Gustavo: o Macron teve 24%. Precisa de mais 26%. Tem mesmo de negociar com os eleitores. Apresentar-se como um rei em vias de entronização, considerando o seu passado recente como ministro e o seu programa, é a única forma de ajudar Le Pen. Em vez de se discutir a política portuguesa a fingir que é a política francesa, sugiro só um pouco de tino: o homem, se quer ter a maioria, tem que falar com a maioria.

  2. Excecionalmente, o meu comentário anterior passou! Talvez hoje Louçã esteja mais inspirado pelo espírito democrático do 25 de abril do que pelo espírito comunista do PREC. Ou talvez seja um milagre relacionado com a visita do Papa. Por coincidência, o Bloco mudou de opinião e desta vez não condena a tolerância de ponto para os funcionários públicos poderem ir a Fátima.

    “… persistir na solução (entregar o poder soberano a autoridades europeias) que garante o desastre (os regimes deixam de ser representativos)”? Quem escreveu isto? Le Pen? Farage? Trump? Não, foi Louçã! Então o Parlamento Europeu não é eleito pelos europeus para representar os europeus? E o Conselho Europeu não é constituído por dirigentes representativos dos respetivos países? Em particular, será que António Costa “deixou de ser representativo”?

    “Entregar o poder soberano a autoridades europeias”? Não, caro Louçã, é apenas partilha de alguns aspetos da soberania. Vivemos num mundo globalizado onde os acontecimentos do outro lado do mundo nos podem afetar instantaneamente. É de bom senso regular aquilo que que nos pode afetar a todos, à escala continental ou à escala global, e isso implica partilhar soberania.

    A globalização não é uma maquinação malvada dos liberais, nem do Grupo de Bilderberg, nem dos judeus, nem dos extraterrestres. Resulta das comunicações instantâneas e da tecnologia que nos afeta globalmente. Para o bem e para o mal, a globalização veio para ficar e não vai desaparecer se fecharmos os olhos.

    Que saudades eu tenho do tempo em que a esquerda era internacionalista! Como é lamentável que a esquerda se tenha tornado tão nacionalista como o fascismo!

    1. A globalização não resulta das comunicações instantâneas e da tecnologia que nos afeta globalmente. Resulta de decisões polítivas que foram tomadas por várias instituições em diversas alturas e depende do que as comunicações instantâneas e a tecnologia possibilitam. Mas em primeiro lugar de uma vontade dos actores políticos.

    2. Muito obrigado pelo elogio. Tenho copiado o seu estilo com algum sucesso. Desejo-lhe que seja muito feliz.

    3. Caro Sousa da Ponte, quando a tecnologia e as infraestruturas resultantes permitem a circulação fácil de pessoas, ideias e bens, como acontece atualmente, a globalização é o estado que ocorre naturalmente na sociedade humana. As decisões políticas não são necessárias para que isso aconteça. Pelo contrário, se existir uma decisão política para limitar as manifestações da globalização, pode até ser necessário construir barreiras caras como, por exemplo, fronteiras, alfândegas, a firewall de internet da China, o muro de Trump, etc..

      Note que não estou a dizer que os efeitos da globalização são necessariamente benévolos, mas vejo com uma expectativa positiva a emergência de uma sociedade humana global como resultado deste processo. Estou ciente da necessidade de o regular e de proteger as partes mais fracas, o que deve ser feito por tratados internacionais negociados politicamente com bom senso. O que me parece desnecessário é ter ideologias dogmáticas a decidir por nós o que é bom para nós.

  3. Nada a acrescentar ao meu comentário de ontem.
    Curiosamente esse comentário foi eliminado, depois de o ver aqui publicado.
    Há alguma informação que eu possa obter sobre o que se passou? Não ficando com cópia do que escrevi, não gostava de ficar com a ideia de que terá havido qualquer tipo de Censura.

    1. Continuo a não compreender o motivo do meu comentário ter sido eliminado (APAGADO) depois de já ter sido publicado.
      E ser insultuoso? O que eu já tenho lido leva-me a acreditar que o insulto (alguma violência verbal, suponho) não é estranho a estes comentários que aqui leio. Em que terá consistido esse meu presumido insulto? Duvido que seja suficiente essa resposta. . Que me lembre afirmei que Macron era a escolha certa e que as pessoas (de esquerda?) parece que nunca aprendem. Era este o comentário insultuoso?

    2. Tenho já a explicação do que aconteceu ao meu comentário que me parecia ter sido apagado.
      Desde já quero confirmar que não se deve a qualquer Censura ou omissão.. Fico satisfeito por saber que Francisco Louçã é a mesma personalidade séria e combativa, sempre na defesa do que considera o melhor.
      Mas devo explicar: por não comentar constantemente, não notei que no Público vinha uma Opinião, e que ao mesmo tempo existia o Blog
      Acontece que escrevi na “Opinião”. Essa minha análise continua online , simplesmente a “mistura” com o Blog fez a confusão, pois neste nada aparece (mas tem o mesmo comentário de Jonas, em 26.04.17).
      Algo a lembrar ao Público?
      Aqui fica dado o necessário esclarecimento
      Quanto á política da França, vou continuar a ler (e a comentar também).
      Democracia é isto.

      .

  4. Todo este contorcionismo de Louçã ( e de Mélenchon e de de muitos outros extremistas da esquerda europeia) é a perfeita demonstração de que o fascismo e o comunismo são farinha do mesmo saco.

    Provavelmente, este comentário será censurado, como acontece usualmente com os meus comentários. A prática da censura também confirma que o fascismo e o comunismo são farinha do mesmo saco.

  5. Questões:

    (1) Vale a pena votar útil no próximo dia 7 de Maio? A questão é esta: qual é o mal menor: o papão Le Pen ou o papão Merkel-Schauble?

    (2) Macron foi serventuário da Alta Finança(banqueiro do Rottschild) e Hollande considera-se o criador da criatura Macron, o que abona muito em favor deste;

    (3) O papão Merkel-Schaulb é temível. Vemos o que tem provocado. Não se pode dar o ouro ao bandido. Macron tem de se pronunciar sobre a sua vontade de forçar a negociação dos Tratados, nomeadamente o sinistro Tratado Orçamental. Eu creio que Macron será um carta falhada. O seu percurso de vida pública não é muito abonatório;

    (4) Toda a gente considera que a Zona do Euro preciso de um ORÇAMENTO para corrigir os golpes assimétricos. Macron deve pronunciar-se sobre esta questão crucial. Sem Orçamento Europeu Não há forma de atenuar o poder discricionário de Berlim sobre Bruxelas.

  6. Foi a terrivel obstinacäo de Mélenchon em ir sózinho a votos, quando Hamon é um tipo fiável e com um largo futuro dentro ou
    fora do PS f rancês, que permitiu a vitória de Macron, um produto de marketing sem carisma nem discurso como referiu na noite eleitoral o filósofo e analista politico Gérard Miller.

    1. Parece que esse é um argumento de mau perder. Se os eleitores pensassem que Hamon é melhor candidato, teriam votado nele, não é verdade?

    2. Prof., talvez tenha interesse sinalizar que o movimento politico de J-L. Mélénchon quer” cilindrar o PS e o PCF”, segundo o desabafo impresso no indispensável hebdo ” Le Canard Enchainé” desta semana da autoria do presidente do partido comunista, Pierre Laurent. E o ex-vice do Front de Gauche ,pretérita estrutura eleitoral dirigida a meias com Mélénchon,desdobra e desenvolve o seu raciocino, subinhando que é” inaceitável que J-L.M. tenha traido toda a história do combate contra a extrema direita “.”Isso é” minable “, assevera ainda.

  7. Discordo da sua análise e considero um erro gravissimo esta posição de Mélenchon, aliás estranha se se recordar da posição adoptada em 2002 aquando do embate entre Jean-Marie Le Pen e Jacques Chirac.
    De facto não há nada a negociar com Macron. Não há se quer condições a colocar. O que está em causa não é apoiar o candidato Macron mas de votar contra Marine Le Pen. Este silêncio não reforça antes fragiliza Mélenchon (aliás vários dos seus apoiantes já declararam o seu voto em Macron).
    Sem uma posição clara de Mélenchon, na sua segunda volta ou ganha Le Pen e Mélenchon fica com o ônus de ter facilitado a vitória de uma candidata ´fascista e xenófoba, ou ganha Macron que ficará reforçado e legitimado por ganhar sem o apelo de voto claro da esquerda.
    Neste caso não se trata sequer de escolher o mal menor. Independentemente do programa de Macron, o que está em causa é uma barragem à extrema direita, o que aliás sempre foi defendido em França pela esquerda.
    Depois de um resultado e de uma campanha histórica, Mélenchon em vez de consolidar esse resultado está objectivamente a contribuir para a sua erosão. É pena.

    1. Acho que não entendeu o meu argumento. Macron é que tem que negociar com os eleitores para os convencer de que lhes pode dar garantias. O seu passado não dá, a sua proposta também não e ele precisa dos votos de eleitores de esquerda. Para ganhar, tem de se comprometer com eles.

    2. “Para ganhar, tem de se comprometer com eles.”
      Difícil de convencer quando já se foi ministro das finanças. Além de que acho muita graça cotejar a berraria que foi quando Barroso foi para a Goldman Sachs e agora nem um pio quando um homem da Goldman Sachs vai para President de la Republique. Será por isso que nunca mais se ouviu falar do barroso?

  8. Estou em total desacordo com Francisco Louça. Não há nada a negociar porque a negociação virá depois das eleições legislativas e com a composição da nova Assembleia Nacional. Essas eleições serão muito importantes. Agora o que é preciso é garantir que quem nega o Holocausto e o papel que a França teve nesse momento negro da história da humanidade fique pelo caminho. No dia a seguir começa o combate para as legislativas e aí não se trata de projectos unipessoais mas propostas concretas que vão a votos.

    1. Compreendo o seu ponto de vista. O meu é este: Macron pode ganhar com grande vantagem e a derrota de Le Pen é essencial. Mas Macron tem de merecer os seus votos e por isso deve falar com os eleitores, não esquecendo que lhes impôs há pouco uma lei sinistra que ameaça os trabalhadores e que esta lei teve de ser imposta arbitrariamente pelo Presidente, dada a revolta dos deputados, não sendo por isso submetida ao parlamento. O candidato tem de procurar resolver o conflito que criou. Os votos não são uma graça divina, têm de ser merecidos.

    2. Pois aí está a divergência. Não considero que haja alguma coisa para negociar com Macron a única coisa que acho que é preciso garantir é que a “terceira volta” seja feita em liberdade sem uma vitória da extrema direita na segunda volta. A grande negociação irá ser feita depois das legislativas e não agora, parece-me. Nessa altura Macron terá que negociar e numa base de igualdade.

    3. Se me é permitido gostaria de acrescentar: os poderes presidenciais em França são muito vastos, relativamente aos correspondentes e decorrentes da Constituição Portuguesa. A negociação parlamentar pós-Junho não será tão decisiva e até diria, que face ao passado público de Macron, possam ser muito nefastas. Sobre este aspecto, sugiro a leitura do artigo de Serge Hamili, no “Le Monde Diplomatique”, de Abril/2017. Na versão portuguesa da mesma edição um artigo excelente de José Castro Caldas, onde é desenvolvida a necessidade de impor o Orçamento Europeu, como instrumento privilegiado da convergência.

  9. Estranha noção de democracia a que leva o Francisco Louçã a dizer que “Portanto, Macron tem esta escolha: tem de negociar e dar garantias à esquerda.”. Apenas formalmente ele não é já o presidente da República Francesa, e não tem que negociar com ninguém para isso, trata-se de uma eleição directa em que o voto está completamente fora do controlo de “sumidades” como Mélenchon – boa parte dos eleitores de Mélenchon irão votar Le Pen, independentemente do que Mélenchon diga ou faça. Falta apenas a Macron conseguir os deputados que lhe permitam governar, e isso está longe de ser um dado adquirido, mas já está aberta a porta para deserções no PS e nos republicanos para quem quiser ir para o “partido Macron” – de Mélenchon, Macron nem fala. E por fim, o que leva o Francisco Louçã a imaginar que Macron não vai negociar antes com os republicanos o seu governo, até porque os republicanos podem vir a ter uma boa representação na assembleia nacional? O PS foi e está devastado, mas Fillon não passou por uma unha negra, e muito do eleitorado Le Pen não vai votar no “partido Macron”. Enfim, a ver vamos! Tendo a pensar que se Macron precisar da coabitação, irá coabitar com os republicanos. Ainda bem.

    1. Estranha noção essa de “. Apenas formalmente ele não é já o presidente da República Francesa”. Quanto a ter uma maioria presidencial, essa tem de passar pela “formalidade das eleições. Que podem ser mais complicadas que a eleição presidencial.

    2. O Sousa da Ponte ainda tem a esperança de ver a marechala Le Pétain irromper com as suas hostes pela Assembleia Nacional, tal como o Fura austríaco e seus muchachos castanhos e arruaceiros em 1933 no Reichstag… Vá esperando, Sousa da Ponte, vá esperando!

    3. Essa demonização AD HITLERUM já atingiu os seus limites e impressiona cada vez menos gente.
      E só revela mesmo como estão falhos de argumentos.

    4. Aflige-me que impressione cada vez menos gente. Esta geração de 1920, a geração de Isabel II, que está agora a desaparecer, é a última que viu a sua juventude marcada pelo fascismo, a última geração que compreende na primeira pessoa o “plus jamais de ça”. A liberdade não é um direito adquirido. À UE não foi prometida a eternidade. A História da Europa não é uma História de paz. Da próxima vez não vão ser 50 milhões de mortos.

    5. “Aflige-me que impressione cada vez menos gente.”Vá se queixar aos que abusaram dessa palavra.

  10. O clan Le Pen e a sua identidade Nazi-Fascista é, há muito tempo, o seguro de vida do sistema cujos partidos agora colapsaram.

    Esse sistema e esses partidos, republicano e socialista, fazem as políticas que cedem o espaço ao clan Le Pen e o usam para, chantageando o eleitorado, eleger por mais de 2/3 um Presidente que vale menos de 1/5.

    Após a contagem dos votos a maioria que elegerá Macron desfaz-se e Macron será um Presidente mais fraco que Hollande para continuar a obra miserável de Hollande.

    Quem tem dirigido a França nunca quis fazer o necessário para erradicar as razões objetivas e subjetivas que sustentam os resquícios do Nazi-Fascismo. A cumplicidade colaboracionista, a herança do governo de Vichy são mantidas com nostalgia e “pedigree” do verniz xenófobo tão francês.

    Verdadeiramente “La Résistance” tem tudo a ver com os “partisans” e nada a ver com os ocupantes nazis, colaboracionistas franceses e o governo de Vichy ou os seus atuais equivalentes.

    Nos dias que correm a França está ocupada pela “corja da chamada UE através do governo tecnocrata de Macron, como o de Vichy, mas agora em Paris e o Clan Le Pen a chantagear e massacrar os franceses resistentes que se agregaram na candidatura de Mélenchon em nome da sua identidade pátria e das políticas da liberdade, solidariedade e fraternidade.

    A questão da indicação de voto não se põe senão na cabeça de quem presunçosamente sempre esteve convencido que os eleitores não têm cabeça para votar nem para coisa nenhuma.

    Os franceses, com a liberdade possível num país em estado de emergência, decidirão segundo a sua consciência apesar de condicionada pelas pressões que sofrerão nos próximos dias.

    Na França amadurece a fratura social que acabará com a atual V República.

  11. Tenho que dizer qualquer coisa sobre a figurazinha que é o Rangel, o campeão europeu dos interesses cruzados no PE: certa Esquerda (que não é a minha Esquerda) tem de facto pontos em comum com os Le Pen deste mundo. Mas vaticino isto: ainda vai andar muita gente, cá e lá, de mão dada com essas personagens, mas não será essa ou outra Esquerda que o fará.

  12. Concordo completamente, não caindo na armadilha de saltar para a panela amorfa do antilepenismo “Mélenchon … não se acobardou nestas eleições francesas”. Ficou assim a salvo, como nota, o caminho que excitou os jovens franceses com uma democracia mais participada, menos “monárquica” como ele lhe chamou, e surpreendentemente moderna em termos tecnológicos (e não me refilo aos hologramas :-D). Sacrificando as suas alternativas políticas à monocultura política da “Europa” e do antilepeneismo amorfo, os partidos tradicionais acabam a identificar precisamente o confronto político entre Le Pen e Mélenchon como a conversa relevante sobre o futuro.

  13. Que alternativa tem a esquerda a apresentar à europa?

    A esquerda foi inventada na revolução industrial europeia, num tempo em que a produção era deficitária. A esquerda é uma ideologia da secção da produção, valoriza os aspectos e personagens da produção e não vê o contexto que determinou esse tipo de valores.

    O que manteve a revolução industrial foram as colónias da europa. Os trabalhadores europeus participaram num processo de saque das colónias: a colónia dava as matérias primas e pagava os produtos produzidos pela industria dos tais trabalhadores. O trabalhador é o servo da gleba industrial, de um tempo de saque das colónias.

    Como quem pagava era a colónia, o trabalhador europeu teve um quinhão do roubo como nunca foi dado à plebe servil na barbárie ocidental (os romanos eram muito mais pródigos com os seus soldados e população). A base dos direitos dos trabalhadores da europa é o colonialismo europeu. Uma chatice para quem advoga a moral igualitária.

    Hoje a produção é excedentária, a industria é um serviço poluidor que se subcontrata ao terceiro mundo (alguns são ex-colónias) e a europa não tem colónias.

    O que tem a esquerda a apresentar neste contexto? Como mantém a esquerda o quinhão do trabalhador, quando não há colónias para saquear? As colónias acabaram na década de 70, daí para cá uma hora de um trabalhador europeu deixou de ser igual a milhares de horas dos servos do colono. Como manter a vida desses tais trabalhadores da “metrópole” com direito a ter uma infinidade de produtos vindos, ou pagos, pelos servos dos colonos?

    Como pensa a esquerda fazer para que uma hora de um trabalhador europeu voltar a ser igual a mais de mil horas de um servo de colono? Sem esse diferencial lá se vai o tal “poder de compra” do trabalhador europeu.

    O atraso e o tamanho da China mantiveram a ilusão do poder de compra do ocidente, por mais uns tempos. Mas a diferença, entre uma hora de um ocidental e de um chinês, também está a diminuir. A vida assente na parasitagem feirante europeia está a perder condições de existência. Uma chatice para as ideologias de feira, tanto de esquerda como de direita.

    A esquerda e a direita são ideologias de um passado que já não existe. Ideologias sem qualquer fundamento económico como se observa nos comportamentos e resultados presentes na história.

    A esquerda e a direita não têm qualquer solução para a falência real das suas ideologias.

    Com ou sem UE, a europa não volta ao passado. Com ou sem folclore ideológico, a economia continua a não se reger pelas regras de pilhagem da feira medieval europeia.

    Que seja a direita a assumir a derrocada, pode ser que não se perceba que a esquerda também é nula. Não é caro Louçã?

    1. Qual esquerda e direita, quem manda são os mercados financeiros e seja quem for que se meta com eles, leva: “O que acontece é que “os mercados” não têm normas morais, nem obedecem aos interesses nacionais dos países. São supra-nacionais e, por definição, apolíticos; tanto lhes faz se o país A é uma ditadura ou se o dirigente do pais B é bem intencionado. Se o país C paga bem aos trabalhadores e o país D investe em betão.” – http://perplexo.blogs.sapo.pt/35099.html

      http://expresso.sapo.pt/economia/2017-02-05-Quem-manda-no-petroleo-sao-os-mercados-financeiros

    2. Ij é perspicaz, ainda ninguém tinha percebido que quem manda são os agentes de mercado (feirantes).

      A questão não é quem manda, mas sim qual é a estrutura que determina o poder desses boçais. Porque é que os agentes de mercado mandam?

      Não é devido à economia, porque as regras de economia não resultam na aberração económica, como a que temos desde que os feirantes tomaram o poder a partir do século XVII. É um contra-senso dizer que as regras da economia resultam no absurdo económico que os “mercados” produzem. Está à frente de todos os efeitos completamente anti-económicos dos “mercados” (1% de imbecis com metade do planeta não deixa dúvidas).

      A economia não anda ao acaso dos “mercados”, bem pelo contrário, os “mercados” destroem a economia como se vê na situação actual, onde existe excesso de meios e, ao mesmo tempo, carência no acesso aos meios existentes… devido aos tais “mercados”.

      Quando se deixam os feirantes mandar eles produzem a aberração económica que se observa: excesso de meios, excesso de produção e, ao mesmo tempo, a população sem acesso aos meios existentes.

      Portanto perspicaz Ij, a questão é: porque é que mandam os feirantes, que actuam de forma completamente anti-económica?

      O caro Louçã, que é um desses que pregam que a “economia” tem as regras da feira medieval, faz parte do problema.

      É com doutrinas de feira (direita e esquerda), que dizem que a economia tem as leis da corrupção – da chantagem (chamada convenientemente de oferta) e do suborno (chamado convenientemente de procura) – que se leva a plebe a acreditar nas mentiras mais ridículas, dos mais assumidos aldrabões: os feirantes.

      O segredo (a ignorância) é a alma da “economia”, para os “patos” que acreditam em feirantes.

      Enquanto forem os “mercados” a mandar obviamente não vai haver economia, vai continuar a haver uma estrutura de propaganda universitária a dizer que “economia” é corrupção; vai continuar a haver corrupção total e uma plebe a pagar esse estado de corrupção total, chamado convenientemente de mercado. Não é caro Louçã?

  14. E já antes, o PSD dos EUA (Partido Republicano), elegeu um fascista e um racista (Trump).

    É óbvio que toda esta direcção do PSD e CDS votariam Le Pen contra Mélenchon na 2ª volta. E mesmo quando o falso centrista Macron (não sou francês, nem imagino quem “vendeu este peixe” como centrista – esse lugar escuro e desolado –
    com todos os sinais de ser mais um neoliberal habilidoso a prazo, para bater nos franceses mais pobres, e fazer crescer ainda mais o fascismo na Europa), conseguiam o sonho de 2ª volta dos neoliberais, com o confronto Le Pen – Macron, eles continuam sem dizer em quem votariam numa 2ª volta Mélenchon – Le Pen.

    Eu estou com Mélenchon.
    Enquanto Macron e os outros candidatos não disserem em quem votariam nessa 2ª volta Mélenchon – Le Pen, ele também não deve dizer nada, pelo menos até ao último dia. E ainda têm 13 dias para pressionar para eles dizerem ao que vêm, e revelar a verdade por trás dos “vizinhos que se tocam”, e que continuam a culpar a esquerda com o populismo estúpido dos “extremos que se tocam” (mesmo sabendo que nunca se tocariam, nem com a recente cópia dos fascistas da agenda da esquerda, incluindo a globalização que prejudicou a UE e os EUA, beneficiando as multinacionais)…

    1. Essa pergunta foi feita por um jornalista da rtp (emitida por cá ainda antes da 1° volta) : e ele disse claramente que votaria Mélenchon em caso de uma 2° volta entre este e Le Pen.

    2. Caro Rui Espontâneo, eu também vi essa entrevista, e outra que ele fez a um jornal francês. O problema são os outros, os neoliberais já cadastrados, principalmente os Republicanos e a ala direita do PSF, Holland e Valls, e também o Dupond… esses sim, são neoliberais realmente perigosos (não tanto como a Le Pen, mas perigosos, e alguns deles adoptaram também um discurso racista)…

      É necessário não os deixar completamente à solta, nem a eles, nem ao Macron (ainda sem cadastro oficial, mas já com graves indícios)…

  15. Excelentes questões para reflectir, contudo o ponto é: vale a pena neste momento favorecer a vitória da desagregação da União Europeia ? Os aperfeiçoamentos que se pretendem não são possíveis se e só se no seu interior se continuar, persistentemente, um processo político em vez da pulverização de décadas de caminho comum que, a despeito de tudo, representaram pelo menos o benefício da paz para os povos da Europa?

    A Europa é um projecto comum ambicioso com muitos inimigos. Entre eles (encapotadamente sob o verniz da diplomacia) contam-se os interesses económicos e geopolíticos de outras potencias. É fundamental não esquecer isto. Desde o princípio da década que o Euro tem estado sob ataque cerrado dos americanos na sua pretensão hegemónica que não hesitam no recurso a todas as manigancias possíveis e imaginárias para a fragmentação da maior zona económica do mundo, do seu elevado grau civilizacional e da sua moeda. O Brexit foi apenas a ponta visível dessa estratégia. A Leste as questões de definição territorial e zonas de influência por parte da Rússia. A crise das guerras na bacia do Mediterrâneo e os seus efeitos humanitários trágicos sobre a Europa. A deriva autocrática da Turquia. O terrorismo e a proliferação de fanatismos religiosos.

    Bom, problemas demais. Vale então a pena criar mais um e , com estas eleições francesas, avançar para a extinção do Projecto Europeu?

  16. A questão está precisamente em colocar condições para um apoio. E se Macron não aceitar essas condições, Mélenchon faz o quê? Manda votar em branco e abre o caminho a Le Pen? Em 2002, Mélenchon acusou então a Extrema-Esquerda de sectarismo por se ter recusado a apoiar Chirac, agora faz exatamente o mesmo. Para si, a Extrema-Direita e a Direita democrática são iguais (Macron é de Direita, que fique claro e a pergunta é retórica, por isso não comece já a arrancar a camisa)? Encolher os ombros e dizer que se algo não for feito agora, Le Pen será eleita daqui a cinco anos tem como consequência que pode mesmo ser eleita daqui por 13 dias, o que me parece pouco inteligente (afinal, o tempo é o fator essencial no combate político). O L’Humanité não perdeu tempo a apelar à barragem a Le Pen. Estou certo que se Macron for eleito, os comunistas franceses se lhe oporão desde o dia um. Há, no entanto, quem se dedique a taticismos e racionalizações para evitar fazer o que deve ser feito e sem condições…

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