Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

23 de Abril de 2017, 18:02

Por

O Sr. Schäuble vai a Washington…

 

convencer o resto do mundo de que a política macroeconómica da Alemanha é virtuosa e participar na reunião anual do FMI. Nesse âmbito, deu uma entrevista à CNBC em que foi confrontado com o resumo de uma análise, de um colunista britânico, que caracterizava a Alemanha como uma “economia pária” (“rogue economy”) e uma das principais fontes de instabilidade para a economia global. De acordo com Matthew Lynn, do Telegraph, os elevados excedentes da balança comercial da Alemanha resultariam na destruição da base industrial de países vizinhos e colocariam em risco a estabilidade do sistema financeiro internacional. Schäuble reagiu literalmente praguejando acerca da qualidade da análise de alguns jornalistas britânicos.

Também, num discurso na Universidade John Hopkins em Washington, revelou as suas ideias para a zona euro, defendendo uma zona euro a várias velocidades e argumentando ainda que o FMI estaria cansado de participar em resgates a países membros da zona euro, pelo que o Mecanismo de Estabilidade Europeu deveria ser reforçado e transformado em algo parecido com o Fundo Monetário Europeu.

Estas mensagens de Schäuble em Washington merecem ser “traduzidas” para economês comum.

Antes da introdução do euro, nunca a Alemanha se atreveria a registar excedentes da balança corrente de cerca de 9% do PIB. Sempre que o excedente externo da Alemanha subia, os seus parceiros comerciais exerciam pressão para que adoptasse medidas para corrigir os excedentes externos, ou através de políticas orçamentais expansivas, ou através da apreciação do marco alemão. Desde a introdução do euro a 1 de Janeiro de 1999, o paradigma alterou-se. A Alemanha acreditou e adoptou convictamente a mantra da competitividade da agenda de Lisboa, competitividade que se passou a medir, na prática, pela dimensão dos excedentes externos (balança corrente).

BC Alemanha
F: Eurostat

 

Ora, como já referi neste blog muitas vezes, esta é uma estratégia de política económica insustentável.

Desde logo porque os excedentes externos só existem porque existem outros países, como por exemplo os EUA e o Reino Unido, que estão dispostos a registar elevados défices externos, privando-se de industrias e empregos que, em certa medida, se deslocalizam para os países excedentários. Ou seja, não é possível que países possam viver “abaixo das suas possibilidades” sem que existam países a viver “acima das suas possibilidades”. E isso não resulta exclusivamente da eventual maior competitividade de países como a Alemanha: basta que os rendimentos cresçam a taxas mais baixas na Alemanha do que nos EUA, como de facto ocorreu.

A melhor solução para este problema é simples, tendo sido preconizada por Keynes: os países excedentários devem promover o crescimento das respectivas economias, por exemplo, através do aumento de rendimentos e de políticas orçamentais expansivas, para assim contribuir para o crescimento global e para o ajustamento dos desequilíbrios externos.

A perspectiva da Alemanha sobre os respectivos excedentes externos, partilhada não somente por Schäuble e o seu economista chefe, mas também, em algum grau, por personalidades como Henrik Enderlein (director da Fundação Jacques Delors em Berlim), afigura-se  incoerente: os excedentes externos elevados devem ser ignorados (não obstante as regras europeias sobre desequilíbrios macroeconómicos excessivos) porque teriam tendência a corrigir-se com o passar do tempo…mas os défices orçamentais excessivos devem ser rapidamente corrigidos com disciplina férrea e medidas de austeridade.

As duas outras mensagens de Schäuble em Washington, DC, são igualmente importantes. Primeiro, a ideia de uma zona euro e/ou uma União Europeia a várias velocidades vem desmitificar o recente “livro branco” da Comissão Europeia. Será que já se decidiu que o caminho que se segue é a várias velocidades, constituindo as alternativas apresentadas no “livro branco” um mero pró-forma?

Segundo, a transformação do Mecanismo de Estabilidade Europeu no Fundo Monetário Europeu, por um lado, é provavelmente o resultado da posição do FMI de que a dívida da Grécia seria insustentável, contrariando a visão de Schäuble e de outros responsáveis europeus. Será por essa posição em relação à insustentabilidade da dívida da Grécia que o FMI tem de “sair de cena” em futuros resgates na zona euro? Por outro lado, será essa a forma encontrada pela Alemanha de chegar a um compromisso para, no futuro próximo, reduzir o papel do BCE de garante da zona euro (e das dívidas soberanas dos países membros), pondo ponto final ao programa de expansão quantitativa do BCE?

De notar ainda que a proposta de Schäuble tem esse elemento comum – o Mecanismo de Estabilidade Europeu – com o relatório da Fundação Jacques Delors e da Fundação Bertelsmann, “Repair and Prepare: Growth and the Euro after Brexit“, apresentado em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, a 22 de Fevereiro de 2017, da autoria de vários notáveis europeus de centro-esquerda (Henrik Enderlein, Enrico Letta, Jörg Asmussen, Laurence Boone, Aart De Geus, Pascal Lamy, Philippe Maystadt, Maria João Rodrigues, Gertrude Tumpel-Gugerell and António Vitorino). O Mecanismo de Estabilidade Europeu ganha cada vez mais preponderância no contexto da política económica da zona euro, transformando-se lentamente num embrionário Ministério das Finanças Europeu.

Das intervenções de Schäuble em Washington DC transparece a sua visão para a zona euro e para a União Europeia. Mas também transparece que a Alemanha não está a perceber os sinais, cada vez mais fortes, que recebe do exterior em relação à sua política económica.

Afigura-se que a pressão internacional crescente sobre a Alemanha irá, não obstante a visão dos seus responsáveis políticos, traduzir-se numa alteração da política económica da zona euro em prol do crescimento económico e de maiores transferências orçamentais entre países membros, o que, a ocorrer, seria positivo para países como Portugal.

Comentários

  1. A eficiência de Schauble é directamente proporcional à miséria espalhada por muitos países…A Alemanha de Schauble é comprovadamente – em termos quantitativos – um país que funciona pela predação dos recursos alheios, dos outros países, através dos mecanismos burocráticos de Bruxelas. É isto a que Alemanha chama Europa; mas as contas começam-lhe a sair furadas. Aguardemos.

  2. Schauble tem trilhado o caminho tranquilo da eficiência, e involuntariamente surge como um farol para o mundo desenvolvido.

    Não foi certamente sem querer que chegaram a este nível . O lendário sucesso alemão é o sucesso da própria seriedade e rigor nos assuntos. Os alemães desde o princípio da década anterior que tem objectivos muito claros, tiveram a fase da reunificação, têm trabalhado arduamente, e começaram a ver os primeiros resultados.

    Por aqui é o contrário.

    E quando nós, os armandinhos da DÍVIDA, vamos ao FMI é para estender a mão.

    1. Pedro Ferraz da Costa:um exemplo de dinamismo contraditório: Por um lado fala despudoramente de empreendedorismo e, por outro lado, apoia a pedinchice ao Estado pela via da Segurança Social / TSU – esse mesmo, o patrão Ferraz da Costa, ex-presidente da CIP, um “cavaleiro” da indústria.

  3. Há inconvenientes que Ricardo Cabral não refere nos seu remédio keynesiano para a Alemanha, aumento de rendimentos, ou seja, consumo privado, e também consumo público eventualmente. O consumo acrescido pode não se dirigir aos produtos externos, e nada impediria os alemães de irem consumir os rendimentos extra em produtos e serviços alemães. Mas há uma coisa garantida, é o decréscimo da poupança nacional agregada, que, bem investida, tem sido o verdadeiro motor do há muito JÁ EXISTENTE crescimento alemão. Ou seja, uma dinâmica económica virtuosa já existente de poupança/investimento/produção seria afectada por medidas voluntariosas para agradar a países que não são capazes, por culpa própria, de ter essa dinâmica económica, com a agravante de, feitas as contas, essas medidas voluntariosas acabarem por falhar. Não vai ser fácil enfiar o barrete a Angela e a Wolfgang, mas há esperança para quem quer lixar a Alemanha, com o “outro”.

    1. Tão carinhoso, Angela e Wolfgang…
      Existem em Portugal estas estranhas criaturas…
      Um comentário feito em 25 de Abril…
      Cumprimentos ao Obama de Massamá e ao consultor da Mota-Engil.

      Viva o HUMOR!!!

    2. Quem está primeiro: o ovo ou a galinha?

      O que deixa de estar em marcha é “O OVO DA SERPENTE”. Com outras roupagens, claro. Já passaram 70 anos e tem de haver inovação…

      A Angela e o Wolfgang não gostam de Trump e Putin?
      Puxem os cordões à bolsa e gastem em armamento. Quem diria, hem? E não chorem pela NATO. A mama está em perigo. Novos Tempos?

    3. Vejo que o meu comentário foi apreciado, hei-de escrever mais para lhe proporcionar alegrias revolucionárias. Pode ir salivando, “Ultra Suave”! P.S. Notei que não foi capaz de atacar a minha argumentação, mas talvez o seu forte não seja mesmo o raciocínio.

    4. Caro Liberal: leia o livro de Félix Ribeiro, de Outubro/2015. Fica esclarecido.
      A edição é da Guerra e Paz. (“EUA versus China…”)

      Anda a adorar o bezerro de ouro?

      Alemanha: decadência; exploração de outros países; empecilho à economia mundial.

      Teses subscritas por dezenas de analistas e investigadores.

      Quando é que começa a ver o Mundo e a Europa?

  4. Os EUA são o inimigo número um da UE. Apostaram na fragmentação da UE com a sua calçadeira gémea no Brexit mas pelos vistos, pelos vistos os Europeus estão a perceber o que significa o ‘polítical’ dessa malta.

  5. Não percebo como será concretizada essa tal “pressão internacional” sobre a Alemanha. Afinal a protecção que o BCE e o eurogrupo oferecem à political colonial de assessorizar a produção nos restantes países acaba de ser reforçada com a eleição de Macron em França. Obviamente os tratados comerciais entre blocos económicos vão (estão) a ser revistos. Mas a trafulhice das dívidas soberanas cria uma hierarquia dentro da UE em que será a periferia a absorver os choques dirigidos ao centro.

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