Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

21 de Abril de 2017, 15:50

Por

A curiosíssima teoria do sequestro

Numa das curiosas coincidências cósmicas que povoam o nosso firmamento, a mudança de agulha da direita sobre a forma de atacar a “geringonça” inspirou-se em vários comentários e análises que antecipavam uma maioria absoluta para o PS, a haver eleições. A partir dessa iluminação, a “geringonça”, que era demonizada por ser esquerdista, passou a ser condenada por ser situacionista.

Essa contorção esclarece a difícil posição da direita. Os mesmos arautos que fustigavam António Costa por estar manietado pelas exigências dos partidos de esquerda e que anunciavam o consequente apocalipse, registada a perda de tino do PS, que merecia justo castigo europeu, convenceram-se agora de que o contrário é que se aplica, os tais partidos de esquerda é que, coitados, se arrastam sob a vergasta do PS, que lhes ensina razão e obediência. É difícil de perceber o que pensam Passos e Cristas no meio deste labirinto intelectual: quando acusavam o PS de se esquerdizar, percebia-se a sua indignação pelo fim do consenso da austeridade; quando acusam o PS de subordinar os recalcitrantes, percebe-se menos o que os indigna nesse putativo regresso do consenso.

É portanto constrangedor ver o acabrunhamento parlamentar do PSD e do CDS, reduzidos a pedir ao Bloco e ao PCP que se oponham a medidas que são o santo e a senha das suas própria regras orçamentais e a recusarem apoiar aeurosondagems iniciativas destes partidos quando o fazem, como na nacionalização do Novo Banco. Afinal, não gostar do PS por se afastar e gostar menos ainda por se aproximar constitui uma bússola alucinada. A não ser que, simplesmente, Passos e Cristas estejam em transe pela queda nas sondagens e por temerem realmente que Costa possa ambicionar a maioria absoluta.

Vejamos então os números. O primeiro gráfico mostra o que há de realidade e fantasia nessa hipótese, registando os dados da Eurosondagem (Expresso e SIC) desde o momento da sua últims sondagem antes das eleições legislativas).

aximageO segundo regista os dados da Aximagem (divulgada pelo Correio da Manhã e Jornal de Negócios).

O terceiro gráfico resume os dados da Aximage, mas desta vez comparando somente os resultados da soma BE+PCP com a do PSD+CDS. Percebe-se o problema, não se percebe? A direita, que não consegue enfrentar o governo, usa a estratégida de disparar sobre a esquerda, dado que a diferença entre os dois blocos é cada vez mais reduzida. De facto, está simplesmente a reconhecer que não tem energia nem resposta ao problema da governação e que agora já só teme esta rápida redução da diferença eleitoral em relação à esquerda.

difereneçasOs dois centros de sondagens, que são os que analisam mensalmente a evolução de uma amostra de eleitores, concluem portanto o mesmo: a subida do PS é o resultado da queda do PSD e CDS, mas está ainda longe da maioria absoluta, enquanto os partidos de esquerda mantêm a sua posição ou conseguem mesmo um ligeiro reforço. Como aliás se compreende imediatamente, este mapa eleitoral é o que decorre do sucesso do governo e da confiança que ele criou; se o governo procurasse um incidente ou criasse uma crise para disputar eleições, é mais do que duvidoso que os seus resultados não fossem fortemente penalizados. Consequência: continuidade, mesmo com negociações difíceis, como se notou no salário mínimo ou nas pensões, ou agora nos escalões do IRS. Então, a teoria do sequestro, seja do PS pela esquerda, seja desses partidos pelo governo, é só uma curiosíssima brincadeira e mais vale tranquilizá-los: saibam que Costa é o primeiro a saber que não tem maioria absoluta e, se o tentar, ficará ainda mais longe de o conseguir.

Se o problema de Costa é não se mexer parecendo que se mexe, o da direita é mexer-se parecendo que não fica no mesmo sítio. Ora, toda a conversa prova que a direita sofre as sondagens mas ainda não se conseguiu organizar para responder ao governo. Por isso, dispara em todas as direcções – António Costa, Catarina e Jerónimo de Sousa deviam enviar ramos de flores aos líderes das direitas todas as semanas.

Em todo o caso, a teoria do sequestro tem ainda outras entoações. Ou no anúncio do gesticular desesperado de greves salvíficas, ou na análise de uma normalização que aplane as diferenças numa banalidade social-democrata, diversos comentários bebem desta presunção de fim da história, pelo menos a eleitoral.

No entanto, quem lê estas linhas perdoará que destaque outros comentários mais vibrantes, por exibirem a angústia dos jornalistas-militantes entre os quais, à direita, se destaca o homem do CDS que anuncia simultaneamente que vivemos num Estado Novo de terror ideológico mas que os seus agentes fazem o que deviam fazer, tão sensatos que eles agora são, ou o que entende insultar o PCP com a comparação com Le Pen, um must destas lides, ou Henrique Raposo, o mais confiável de todos os misóginos, que volta ao seu tema de sempre, nunca nos deixa ficar mal, ou ainda o editor do Correio da Manhã que, assim como assim, revela que Catarina é só “mais daeshista do que o Daesh”. Como é que não haviam de andar perdidos?

Na imprensa e na política, esta direita tem o que merece.

Comentários

  1. É do PS, PSD e CDS a responsabilidade política da ineficiência da economia portuguesa, da gigantesca dívida externa onde pontifica a dívida privada das empresas descapitalizadas e a fragilidade da banca que opera em Portugal.

    É do PS, PSD e CDS a responsabilidade política do fosso entre ricos e pobres, da imensa pobreza até de quem empobrece trabalhando.

    É do PS, PSD e CDS a responsabilidade política da queda demográfica, da emigração, do despovoamento, da retirada do Estado de largas áreas do território nacional, da entrega da soberania nacional, da perda dos negócios e mercados portugueses para estrangeiros, do crescimento da idade média dos trabalhadores do Estado, da falência de empresas e retração da extensão da economia…

    Esses partidos têm de pagar a fatura desses enormes e graves erros. A nação, o povo não os perdoará!

    Esses partidos provaram ao longo de mais de 40 anos que têm uma visão estratégica contrária aos interesses objetivos e subjetivos dos portugueses e da identidade de Portugal. Têm de “pagar as vacas ao dono”.

    A votação nesse partidos têm vindo a diminuir de eleição em eleição. A abstenção tem vido a aumentar. Esse processo continuará. Em conjunto o PS, PSD e CDS terão menos votos a cada acto eleitoral. Os portugueses não confiam em quem os vem enganando há 40 anos.

    O PS foi salvo da queda vertical pela responsabilidade do PCP-PEV e BE que através dos entendimentos materializados nas posições conjuntas permitiram ao PS de António Costa fazer a política de direita que quer em acordo com Bruxelas, Frankfurt e Estrasburgo com a contrapartida de travar a degradação das vidas dos portugueses, do factor Trabalho da economia.

    Ficou claro para os portugueses que o entendimento através de posições conjuntas é possível, protege os portugueses das loucuras e abusos das maiorias absolutas da direita seja do PS ou do PSD/CDS. Ficou claro para os portugueses que o reforço da proteção dos seus interesses objetivos e subjetivos passa pelo reforço do PCP-PEV e BE. Ficou claro para os portugueses o quanto foi errado fazer o chamado voto útil que agora não se fará antes pelo contrário. Útil será reforçar o peso e influência dos que comprovadamente protegem os portugueses.

    PSD e CDS tenderão a acentuar a sua perda e o PS não irá além dos 1,7 milhões de votos que alcançou com António Costa.

    A próxima legislatura terá as mesmas características da atual e a democracia portuguesa ganha com isso.

  2. Mais uma vez apelo à calma dos geringonços, principalmente agora, com o aproximar do Dia da Liberdade, 25 de Abril.

    Há provocações e hormonas descontroladas vindas tanto da actual direcção do PSD que se dizem ser “sociais democratas”, ou dos que se dizem ser “sociais democratas- neoliberais da economia social de mercado”, nomeadamente vindo dos comentadores e jornalistas do costume, porque muitos deles não passam de fascistas disfarçados e envergonhados.
    Infelizmente, a clique Passos-Montenegro-Relvas (do CDS nem falo, porque esses há muito que meteram a social democracia cristã ao lixo, antes deste actual PSD ter metido a social democracia ao lixo), irá continuar a destruir o PSD e a dar votos ao PS, na vã esperança que um PS com maioria volte a virar 180º para a Direita, para continuar a saga do terrorismo social e chantagem económica ao nosso povo.

    Mas o nosso povo sabe perfeitamente que é hoje perigoso votar no PSD e no CDS, mas também sabe que é perigoso depositar os todos ovos no PS…

    1. Desculpem o meu esquecimento e o espaço, porque quase que me esquecia.

      Devo salientar que não acho que nenhum partido português esteja hoje a sequestrar o outro.

      O único partido que está sob auto-sequestro, é o PS, porque com uma maioria, uma viragem solitária ou junto com o PSD-CDS á Direita, ou até com o sonho húmido do PSD-CDS e os seus comentadores, de verem Marcelo a rasgar as vestes, neste mandato ou no próximo, revelando por baixo das roupas uma t-shirt com a frase “I Love Coelho”, ou a frase “I Love Cavaco”, ou até a frase “I Love Chile 1980”, isto pode significar a extinção de mais um partido socialista europeu…

  3. Os deuses conservem a geringonça por muitos anos. Ninguém quer mais maiorias absolutas para nada. Neste país isso só conduz a abusos e a desastres. A critica como elemento corrector e reorientador deve pré-existir, momento a momento, caso a caso, nas soluções de governação. Aliás, isso significa mais democracia.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo