Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

5 de Abril de 2017, 17:05

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Mudam-se as pessoas, mudam-se as vontades?

Como esperado, o Partido do Trabalho (PvdA) da Holanda, da família da social democracia europeia, sofreu uma pesada derrota, pondo em causa a continuação de Jeroen Dijsselbloem como Ministro das Finanças da Holanda e, por conseguinte, como membro e Presidente do Eurogrupo.

Jeroen Dijsselbloem seguiu, logo desde o início das suas funções, uma estratégia clara de colagem ao Ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble da CSU, intrometendo-se numa reunião paralela para a qual não tinha sido convidado. A estratégia teve “sucesso” – Dijsselbloem foi nomeado para Presidente do Eurogrupo.

Ao sentir que estaria prestes a perder o cargo actual, Dijsselbloem deu uma entrevista a um jornal alemão, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, em que utiliza a já conhecida frase ”Não se pode gastar todo o dinheiro em álcool e mulheres e depois pedir ajuda”, para granjear a simpatia de parte da opinião pública alemã.

Mas, todo o teatro de mau gosto de Dijsselbloem não nos deve distrair de um aspecto importante: o governo (económico) da zona euro é, fundamentalmente, um “governo de homens e não um governo de leis”. Com efeito, temos protagonistas individuais com elevado poder para definir as políticas concretas, para decidir ajudar, para fechar os olhos ou aplicar sanções, como, por exemplo, Dijsselbloem, Schäuble, Vestager, Danièle Nouy e mesmo Mario Draghi para referir alguns, que são capazes de governar e decidir com base nas respectivas percepções da realidade.

Wolfgang Schäuble, porém, Ministro das Finanças, desde 2005, da maior economia da zona euro, influenciou determinantemente não só a política económica na Alemanha, como também a da zona euro. A estratégia de austeridade e a estratégia de resposta à crise da zona euro (e.g., via troika imposta a países como Grécia, Irlanda e Portugal) é, em larga medida, sua filha.

Se o governo da zona euro é de homens e não de leis, então, mudando os homens deveria mudar o governo. Assim, após a previsível queda de Dijsselbloem (um dos mais acérrimos defensores da austeridade e visto como braço direito de Schäuble no Eurogrupo), talvez as eleições na Alemanha resultem igualmente na queda de Schaüble, o que poderia imprimir, finalmente, uma nova direcção à política económica da zona euro. Será com isso que o governo de António Costa conta, apostando nesse cenário?

Até isso acontecer, Mario Draghi, cujo mandato termina em 2020, continua sob enorme pressão para “normalizar” a política monetária. Seria um grave erro, porque somente em 2016 a zona euro atingiu o nível do PIB registado em 2007, continuando a taxa de inflação na zona euro inferior aos 2%. Acabar com o programa de expansão quantitativa e aumentar as taxas de juro poderia pôr causa esta retoma incipiente.

As expectativas de que das eleições de 2017 surjam novos responsáveis políticos e, também em resultado da pressão gerada pela nova administração Trump e pelo Brexit, permitem esperar uma inflexão da política económica da zona euro, em prol de políticas expansionistas. É para aí que parece pender o pêndulo …

Comentários

  1. Com efeito, e acho que valeria uma continuação do artigo sublinhando as relações do “governo de homens” com a Goldman Sachs. Uma boa parte dos responsáveis “europeus” mais em vista ultimamente são ex ou recém responsáveis desse império americano, no cerne do Casino da finança mundial. Primeiros Ministros não eleitos e mais ou menos impostos pelo Banco Central Europeu, como Papademos e Monti, o próprio Draghi, o funesto Durão Barroso, para não falar nos americanos Robert E. Rubin, ou Henry M. Paulson Jr., William Dudley da reserva federal de NY, assim como Mark Barney do Banco de Inglaterra, entre muitos outros. Podemos aliás nos perguntar se a relutância do BCE em aceitar que a Grécia esteja completamente falida não vem daí. Será que depois de encher os bolsos com o SWAP cambial que fez a Grécia entrar no Euro o Goldman Sachs e o Deutsche Bank não estariam preocupados em perder dinheiro, depois de terem apostado fortemente via derivados vários que o BCE não aceitaria isso? Aliás que é feito do Sr Papademos ex VP do BCE, ex Goldman Sachs, ex-PM grego? Desde 2012 não se ouve falar dele. Será que quando Draghi sair do BCE em 2020 vamos ter acesso finalmente aos relatórios do BCE sobre a finança grega antes da criação do euro, a que o Tribunal Europeu vedou o acesso, considerando que seriam “nocivos” às finanças europeias? Ah, quanta coragem moral não é necessária para resistir aos apelos do Sr Farage e Mme Le Pen! Que máfia escolher? Essa a questão.

  2. Acho que a reflexão deve ser mais profunda e nos questionarmos a que interesses servem estas leis, se elas servem o interesse geral ou ao contrario servem uma minoria. E neste sentido as políticas do BCE expansionistas ou recessivas em nada alteram ou metem em causa o problema que nos trazem aqui. O mais que poderão fazer é prolongar ou diminuir os ciclos económicos sem resolver a génese das crises económicas e financeiras.

    Este artigo traz alguma reflexão: http://www.lesechos.fr/idees-debats/cercle/0211829466451-comment-sortir-limpasse-monetaire-2068108.php

  3. Que atrevimento. Quer enganar quem? Há poder no mundo mais personalista que o dos yankes? Veja-se p.ex. o que está a acontecer…Sim, escrevem uma coisa mas depois fazem outra, e os exemplos dessa duplicidade abundam aos milhares; ou não fossem desde a génese o resultado da acção desbragada de el dorados e pistoleiros e à ‘lei’ da bala. Idealismo e belas proclamações também por cá temos que baste. A filosofia política idealista vieram cá bebê-la, mais à Revolução Francesa que à Magna Carta do RU de quem aliás se quiseram ver livres. Mas a construção de uma união europeia nem histórica nem economicamente tem qualquer paralelo com a americana, e, a despeito dos erros e dificuldades, ainda assim como modelo civilizacional apresenta-se superior. A tal ponto incapazes de suportar o confronto que tudo têm feito para a desestabilizar.

  4. Não sei se todos apanham a sua expressão de que a UE é um “governo de homens e não um governo de leis” de forma que deixo aqui a nota. Os EUA fora especificamente desenhados como o exato oposto, “a republic of laws, not men!”, citação literal de John Adams, um dos mais influentes “founding fathers”. Como ele diz no tal famoso discurso, esse desenho da União que vai no seu terceiro século, deriva e aperfeiçoa ideas que vêm da magna carta que tinham estabelecido no RU uma tradição de “império de leis, não de homens” (cito do mesmo discurso). Os tais impérios de homens, não de leis, como vemos outra vez na europa continental, acabam em ditaduras. Obrigado por mais um excelente artigo caro Ricardo Cabral! Não conhecia o episódio palaciano do Dijsselbloem se inserir na panelinha mafiosa que lhe convinha, muito interessante este exemplo de como os golpistas emergem naturalmente nos “governos de homens”

    1. Caro, Jonas. Aqui o sentido de “governo de homens” refere-se à interpretação racional das leis e à sua adequação à realidade. Mesmo nos EUA fundados no conceito como refere houve emendas à Constituição e existe um Supremo Tribunal de homens para fazer a adequada interpretação.

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