Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

31 de Março de 2017, 18:16

Por

Oferecer o Novo Banco é um erro

O Novo Banco, o antigo BES, foi oferecido à Lone Star, um fundo imobiliário norte-americano, num negócio que é a todos os títulos histórico.

É histórico por consumir o principal banco privado português. O BES foi “o banco de todos os regimes”, lembrava o seu presidente: 140 anos a navegar entre a Monarquia, a República, Salazar, a Revolução e o nosso tempo. Foi o banco que indicava e depois acolhia os ministros, como o fez magnanimamente com Durão Barroso. Foi poderoso e, quando faliu (a resolução foi no verão de 2014) declarava mais de 70 mil milhões em depósitos. Era – e é – uma peça essencial do sistema bancário nacional. Acabou: agora é de promotores imobiliários cuja preocupação na negociação, além de garantirem os seus dinheiros contra todos os riscos, era ficarem com as propriedades nas Amoreiras e no Marquês de Pombal.

A oferta do Novo Banco é ainda histórica por ser o epílogo de um processo desastrado e sempre incompetente. A resolução, que é o nome para uma falência protegida por uma nacionalização, custou 4900 milhões em 2014 e mais 2000 milhões em 2015. Os accionistas perderam tudo, alguns credores perderam muito, o Estado pagou o resto e anuncia que cobrará aos outros bancos (um procedimento que significa pagar o justo pelo pecador, mas os bancos têm ficado calados, certamente confortados por pagarem em 30 anos o que lhes tinha sido imposto em dois anos e a juros desvanecentes). Todos perdemos. Nenhum banco europeu de dimensão média tinha passado por esta forma de actuação e nunca mais houve outro exemplo. Não podia ter sido pior.

Finalmente, a entrega do banco é histórica por mostrar como se comportam os dirigentes políticos que puderam tomar decisões. Sérgio Monteiro, o braço direito de Maria Luís Albuquerque e contratado pelo Banco de Portugal no cair do pano do governo das direitas, apalavrou o beneficiário e, generosamente pago, desapareceu pela porta baixa. Mal saiu a sombra de Monteiro, a fronda PSD-CDS passou logo a criticar o negócio imposto pelos governantes do PSD-CDS. Já sabíamos, ter o PSD e o CDS a tratar de assuntos bancários é um susto, foi assim no BPN, o banco dos favores do cavaquismo, foi assim com a crise do BES.

Mas a decisão final tem a chancela do governo Costa, que preferiu não contrariar a Comissão Europeia no seu plano de fazer absorver a banca portuguesa pela finança internacional. Quando chegar ao fim do seu mandato, o governo terá por isso a duvidosa medalha de ter permitido que se chegasse a dois terços da banca em mãos estrangeiras, um caso único na Europa. O Estado fez tudo mal, uma resolução do banco sem contas feitas e agora aceitar o controlo externo do seu sistema bancário, o que nenhum país que se respeite jamais permitiria.

As consequências são gigantes: o Estado não poderá agir no sistema bancário sem se arriscar a um tribunal em Londres ou no Luxemburgo e passará a ter meios reduzidos para colocar as emissões de dívida pública, o que tem devastadoras consequências estratégicas. Ficamos na mão de flibusteiros.

A única decisão racional, a nacionalização, ficou fora da mesa por motivos ideológicos e nada mais. Nenhuma trapalhada de justificação de contas oculta isto: o custo da nacionalização era menor, porque pagar a recapitalização e obter os resultados ao longo do tempo é absolutamente melhor do que vender a zero e perder depois tudo o mais. Noves fora zero, o governo optou pelo pior comprador que se poderia imaginar e por um mau negócio que não pode justificar. E já se sabe o que vem a seguir: a Lone Star vai espremer o Novo Banco, vai jogar no imobiliário, vai usar as garantias indirectas do Estado através do Fundo de Resolução – para que lhe corra bem, precisa de registar prejuízos, imparidades e outros desvios. Vai ser um fartote.

Portugal ficou esta 6ªf um pouco menor.

Comentários

  1. O Estado faz agora um perdão descarado à Banca através do fundo de resolução, isto quando os bancos não demonstram qualquer complacência perante pessoas que deixam de poder pagar a casa, ora vede o número de casas penhoradas pelos bancos durante a crise. Mas como os “camaradas” estão no Poder, está tudo bem. O pior lobo é o que se veste de ovelha. E ainda mais, há a questão do spread. Quando um banco, ao pedir dinheiro ao BCE a uma determinada taxa de juro, empresta esse mesmo dinheiro às empresas, aplica um spread, que representa a sua margem ou que cobre o risco da operação para o seu lado. Ora, o que o estado está aqui a fazer, nem é aplicar um spread zero, de facto, tecnicamente, é aplicar um spread negativo.

  2. E no entanto, ninguém está na cadeia. Estes bancos fazem desaparecer o dinheiro, seguros que os contribuintes vão ser obrigados a pagar. Ora, se o monte das notas não ardeu, o dinheiro tem que estar em algum lado. E está. E toda a gente sabe onde. E se houvesse justiça e autoridade em Portugal, os responsáveis estariam na prisão enquanto o dinheiro não aparecesse. Mas não há. Há amigalhaços na política, bem pagos, que tratam das leis como os patrões lhes indicam.

  3. Vá lá, não custa nada, é só mais um sapo. E muitos ainda haverá pelo caminho. Se servir de consolo, pode-se sempre dizer que a culpa é de Cavaco e de Coelho.

  4. Gostava de perceber o que acontece a estes 2/3 da banca privada “portuguesa” abocanhada por capitais e instituições estrangeiras quando/se Portugal sai do euro? Apropriam-se dos depósitos dos nacionais, convertem-nos na nova moeda, ou honram o valor depositado em euros para lá da sua existência como moeda oficial em Portugal?

    1. Não, são instituições subordinadas à lei nacional. O problema é muito antes de eventual saída do euro: podem favorecer empresas que lhes interessem, podem reduzir a compra de dívida pública e podem promover praticas predatórias estrategicamente orientadas.

    2. Podem fazer (farão mesmo) se isso acontecer como no curralito na Argentina. Os bancos de concluio com o governo (ou o governo de concluio com os bancos) roubam os euros aos depositantes e substituem-nos por moeda sem valor.

  5. Concordo com o bloguista no essencial, esta operação é lesiva do interesse nacional, como já o foi a destruição musculada do Grupo Espírito Santo. Era óbvio que o capital injectado no BES em 2014 nunca iria ser recuperado, porque essa mesma operação minou a confiança na instituição, chamem-lhe Novibanco ou outra coisa qualquer. Vítor Bento percebeu a tempo qual era o futuro do BES, e atirou-se logo de paraquedas pela janela – homem avisado. A julgar por todos estes casos que se acumulam na banca portuguesa, parece desenhar-se uma conclusão, a de que as vítimas em primeira linha do persistente e doloso incumprimento português das regras do euro foram os bancos, que Portugal perdeu na sua totalidade. Podem-me dizer que “ainda temos a Caixa”, mas isso não é verdade, porque o seu accionista faz aquilo que os credores lhe mandarem fazer. Tudo isto era necessário? Não, tudo isto era perfeitamente evitável, mas para isso era mesmo indispensável ter posto o socialismo na gaveta. As coisas vão melhorar a partir de agora? Não, o que se seguirá mais dia menos dia será a Grécia. Será o dia de felicidade para aqueles que anseiam pelo calote português. Tal não passará de uma fraca consolação, de uma vitória de Pirro. Mas tê-la-ão, e será bem merecida para todos aqueles que andaram a emprestar dinheiro a Portugal depois da golpada Kostas-comunistas. O povo? O povo que se lixe, desde quando é que socialistas como os nossos se preocupam com o povo? É que uma coisa é preocuparem-se com o povo, outra bem distinta é mostrarem que se preocupam com o povo, enquanto compram os votos com dinheiro emprestado. Está a ficar é difícil realizar esse prodígio, muitos credores já perceberam a marosca… Que pena!

  6. Algumas questões:

    (1) É uma decisão contra a riqueza pública. Vender ao desbarato enriquece os patrimónios individuais em detrimento do património estatal. Isto é prejudicial. Enfraquecer o Estado, proteger os interesses privados e estrangeiros. É pouco avisado. O futuro dirá. É uma má notícia. A decisão do Governo é altamente condicionada por Bruxelas. O colete-de-forças não acaba.É uma never ending story. Cada vez mais vendemos; vão-se os anéis, ficam os dedos. Compramos a alto preço(vide negócio da recapitalização da CGD); vendemos ao preço da uva mijona. Os Governos assemelham-se cada vez mais a Comissões Liquidatárias. Vender os Açores? Os alemães não estiveram interessados em ilhas gregas? Tempos difíceis…;

    (2)Por todo o lado, na Europa, existem reacções. A execração de Bruxelas é geral.
    Em Itália, Grillo credita 30% das intenções de voto. O que pensa Grillo de Bruxelas? “É o 4º. Reich”, perante o atónito Renzi, um euroseguidor até ver. Grillo, o apoiante da democracia directa e inimigo da ordem estabelecida por Bruxelas, a mando de Berlim. Bem sabemos que os dez anos de Barroso na Comissão Europeia foram tempo perdido para todos. Juncker, apesar de tudo melhor aposta, ficou logo de entrada chamuscado pelo “Luxleaks”, sentindo ao mesmo tempo a falta do seu compagnon de route Schulz, que voou para outro destino;
    Do Reino Unido, o Brexit. O “leave” de Johnson com 51,6% dos votos.
    A leste, são conhecidas as derivas da Hungria(dirigidas por Orban, um antigo estudante de Oxford, ex-advogado e um revivalista da cruzada anti-soviética de 1956 e hoje visita de Putin) e da Polónia;

    (3)Seja, agora, o exemplo da Grécia. A Grécia, em seis anos, viu a sua Dívida Pública crescer de 120% para 180% do PIB. Se a Grécia, aquando do resgate, em 2011, saísse do Euro e desvalorizasse a sua moeda nacional, o dracma, em 30-40%, não restauraria rapidamente a sua competitividade?
    Vejamos o que faz Portugal: faz desvalorizações internas, comprimindo salários, ganhando assim competitividade, à custa da vida e do sacrifício dos trabalhadores. Daí a indignação dos patrões e a pedinchice à
    Segurança Social via TSU na questão dos sete euritos, aquando do aumento do salário mínimo nacional para 557 euros, e perante o protesto do filósofo e deputado Francisco Assis. Com esta política estamos a liquidar o futuro e hipotecar a vida das novas gerações. A fecundidade é menor porque a vida é pior para as pessoas, logo, o equilíbrio demográfico está em causa e, inclusivamente, a perda de população e o enfraquecimento do País. A economia não cresce, o descontentamento social aumenta e o País está em estagnação. A quem serve esta situação?

    (4) Esperemos que Abril(em França) e, principalmente, Setembro(na Alemanha) nos permita começar a respirar de novo. Se a situação se mantiver, com Merkel nos comandos, devemos equacionar a reestruturação da Dívida Pública e, simultaneamente, continuar a analisar, conjuntamente com outros países, a saída do Euro. O “Frexit” já é falado, sem se pensar em Le Pen. Os tempos que correm são decisivos.
    A desvalorização interna, note-se bem, não é desconhecida dos alemães: eles praticaram-na no princípio deste século, embora hoje sublinhem o comportamento despesista dos países do Sul. Ou seja, a Alemanha decidiu, tornando os seus produtos mais competitivos, perante a oportunidade de mercado. É uma lição a reter. É claro que, se toda a gente fizer o mesmo, a estratégia sai furada. Temos que observar o que fazem os nossos países vizinhos…Sem ofensa, claro.

  7. O BES representava o ideal de banca num país socialista. Coloca liquidez nas empresas, faz as vontades á oligarquia reinante. Só que sem controle da moeda circulante isso não funciona. Sem desvalorização de moeda, as perdas da economia refletem- se na desvalorização (empobrecimento) da sociedade o que é politicamante insustentavel. Sem necessidade de ganhar dinheiro, o tecido empresarial acomoda-se.

    1. Só faltava essa. O Espírito Santo foi secretário de EStado e amigo íntimo de Salazar. QUe seja o “ideal da banca num país socialista” é nova.

  8. isto e tudo muito lindo mas o SR. Louçä quando estava na assembleia e agora que entrou para o Banco de Portugal o que faz ou o que fez no passado como deputado??? e so bla bla escrever nos jornais e muito facil , è como fazer o comentador nas televisoes , quando fizeram parte do gang nao fazem nada agora com tempo de antena säo todos os maiores a resolver os problemas . Que vamos todos pagar é mais que certo porque o povo que tem o poder deixa se ser comido e nao faz nada e ainda batem palmas… e triste dizer mas o futuro nao penso que sera muito rosa

  9. Desde o Cavaco passando pelo Sócrates até agora, como alguém já disse, para os meter na choça não seriam preciso longos processos e o circo que os acompanha: bastaria ler o Diário da Republica

    1. Não compare Cavaco com Sócrates. Quando Cavaco chegou ao governo tínhamos 30 km de auto estrada, não tínhamos hospitais, nem centros de saúde, nem escolas secundárias e a economia estava de rastos foi graças ao dinheiro da união europeia e uma excelente equipa governativa que Portugal se desenvolveu aliás o único período de desenvolvimento por parte do estado. Passos Coelho veio dar alguma esperança à economia privada que logo se decepcionou assim que entrou a geringonça, já para não falar em todas as trafulhice a e ladroagem que se está a revelar através da operação Marquês, o socateiro Manuel Godinho, Freeport, etc

  10. Trata-se de evitar nova catástrofe através de uma liquidação diferida.
    Alguem quer contribuir novamente para o enriquecimento de meia dúzia a custa do empobrecimento do pais?
    RIP

  11. Trata-se tao so de uma liquidação diferida.
    A melhor solução.
    Se ficasse em maos nacionais daqui por uns anos teríamos novamente que o resgatar.
    RIP

    1. Compreendo o seu ponto de vista. Suponho que estará muito preocupado pelo facto escandaloso e ameaçador de uma parte dos hospitais ainda ser gerido por “mãos nacionais”. E a polícia, senhores? Em “mãos nacionais”, credo. Daqui por uns anos…

    2. Concordo, as empresas públicas só servem para negociatas com os amigos e no fim milhões de euros para o Povinho pagar. Gosto de ver o bloco de esquerda preocupado com os lucros que os privados vão ter com a compra das empresas públicas e sua exploração, digam-me uma que não tenha milhões de prejuízo se der lucro com os privados ainda bem menos milhões temos que pagar sobra mais dinheiro dos nossos impostos para aquilo em que deve ser aplicado

  12. É o admirável mundo novo do futuro. Agora devemos começar já a tratar de despachar os Açores a bom preço aos Usa. Um bom encaixe dará para abater a astronómica dívida . Uma venda tipo Alasca ; trazia algum conforto e realizaria certamente a nossa industriosa classe política no seu afã patriótico.

    1. Oh Toquevilen, então acha mesmo que depois de vender os Açores o capital obtido iria servir para reduzir a dívida portuguesa? Mas QUANDO, QUANDO, é que uma receita do nosso Estado serviu para reduzir a sua dívida? Nunca viu os gráficos que Medina Carreira mostrava noutros tempos? A dívida pública portuguesa é uma função crescente desde antes de 1974!

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