Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

27 de Março de 2017, 10:38

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A propósito de Jacinta e Francisco

transferirNo meio das pequenas, médias e grandes notícias sobre quase tudo e quase nada, foi com júbilo – como católico e português –  que soube da canonização dos pastorinhos de Fátima, Jacinta e Francisco, que o povo cristão, já há muito, havia consagrado como memórias vivas de santidade.

Nestas ocasiões é frequente ouvirem-se vozes desvalorizando ou troçando da ideia cristã da santidade. Bem sei, também, que os santos estão “fora de moda” na sociedade hedonista, relativista, de curto-circuito entre dinheiro e consciência, subjugada à “ditadura das banalidades”, carente de exemplaridade, fóbica em relação ao transcendente. Oscar Wilde haveria de, com sarcasmo, antecipar, no seu tempo, esta ideia, ao dizer que a diferença entre um santo e um pecador, é que o santo tem sempre um passado e o pecador tem sempre um futuro…

Ser santo é a versão com fé da exemplaridade laica. Uma expressão da Graça Divina, mas também da condição livre de se ser pessoa e da convicção de que só a partir do nosso interior se pode transformar o que nos é exterior. Ser santo é, também, uma forma de subversão vivida na ausência de qualquer forma de poder, que é onde se deve revelar toda a presença de Deus. Escreveu D. José Saraiva Martins que a santidade não consiste em fazer nada de extraordinário ou de “exótico”, longe do alcance do homem comum, mas sim fazer sempre e bem as coisas ordinárias, na família, no trabalho, na sociedade, na educação, na vida pública, na vocação.

A santidade assenta na fé vivida e no serviço testemunhado, como também em regras de vida que estão ao alcance de todos, com ou sem fé. No fundo, sabendo-se que o mais difícil de alcançar é o simples, que o mais possível de alcançar é o que mais impossível parece, que o maior alimento do direito é o dever, que o mais aparentemente insignificante sacrifício pode ser o mais virtuoso, que a mais radical sinceridade é irmã gémea da verdade, que a mais austera perseverança é irmã gémea da bondade, que o heroísmo é a persistência paciente na luta de cada dia, que a fraternidade é o coração da inteligência e a inteligência do coração, que na autenticidade está o coração do comportamento, que a mais minúscula verdade supera as mais poderosas mentiras, que a mais insignificante das perfeições é preferível à mais sonante das imperfeições, que o exemplo é o caminho mais curto para o bem e o mais contagiante para os outros, e que o optimismo radica na esperança, na virtude, no trabalho e que o pessimismo radica na indiferença.

No caso dos dois mais jovens beatos não-mártires Jacinta e Francisco, enquanto intercessores e como modelos de santidade, a sua canonização é também um encorajamento para fortalecer uma Igreja que pugne, cada dia, pela opção preferencial pelos pobres, pelos últimos, pelas crianças.

Nestas alturas, é recorrente apelar-se à separação completa entre o Estado e a Igreja. Porém, a laicidade do Estado não implica a laicidade da sociedade. A sociedade é plural e livre no sentido religioso e é errado confundir, neste plano, Estado e Sociedade. A louvável e imperativa neutralidade religiosa do Estado não significa neutralidade por omissão, indiferença, abstenção, ignorância ou desconhecimento dos fenómenos religiosos e muito menos hostilidade.

Não entendo, por isso, a omissão de alguns órgãos de soberania, sempre tão pródigos e rápidos em felicitar outras personagens e destacar outros acontecimentos e em formular votos de congratulação por dá cá aquela palha.

Esta simbólica distinção honra a portugalidade no Mundo, mesmo se vista fora do contexto estritamente religioso

Comentários

  1. Tanto palavreado para defender o indefensável… A ICAR parece um contorcionista de circo para encaixar as suas mentiras na era da ciência e tecnologia…

    1. Tanto quanto imagino, o meu palavreado não vale menos do que o seu. Mas, obviamente, submeto-me à sua infalível opinião…

  2. Infelizmente repete-se neste artigo um erro muito comum quando se refere ao cardeal, escreve D. Saraiva Martins. Ora o dom, em abreviatura precede o nome próprio (D. José) e nunca o apelido. Este erro é muito comum em relação ao bispo timorense D. Carlos Ximenes Belo tantas vezes referido D. Ximenes Belo!

  3. Pessoalmente, eu nunca gostei da sugestao de que uma sociedade sem valores cristaos e imediatamente hedonista (ou ate eticamente niilista). Nao tem que o ser. A confusao parece-me vir da interpretacao de fe e da sua costume associacao ao religiosismo, que nao tem que existir. Fe e uma adesao absoluta a algo que se considera verdadeiro, e um estado de alma crente, confiante em algo, mas num contexto extremamente generalisado. Por exemplo, eu acredito que o ser humano e inerentemente bom, que se felicita por ver o bem e a felicidade e que os quer a sua volta, ao que eu chamava, talvez abusivamente, a natureza humana. E uma fe, porque nao e facil encontrar, talvez porque nao exista, uma construcao logica, matematica para este argumento. Mas ao mesmo tempo nao e um religiosismo, nao e um culto a uma entidade sagrada, sobrenatural. E uma fe, a que eu tenho pelo ser humano, que e palpavel, material, observavel; e substanciada pelas minhas interaccoes diarias. E facil ver o bem, no camionista que diz ola quando se entra para o autocarro, nas reaccoes que se apresentam a mais uma noticia de mortes no mediterraneo, de guerra na siria, de exclusao social, na face que olha em choque para um acidente rodoviario, preocupada com um ser humano que nunca conheceu, que nem sabia existir. Dai, “Ser santo é a versão com fé da exemplaridade laica.” parece-me confuso e eu sugiro que se retire o termo. Pode existir fe na exemplaridade laica, porque da laicidade nao cresce necessariamente o hedonismo para o actor que tem fe nos seus muitos irmaos e irmas.

  4. Também não deixa de ser curioso que o Francisco o mais honesto dos pastorinhos que nunca viu nem ouviu nada tenha sido canonizado também. Recomenda-se a leitura do livro “na cova dos leões” do Tomás da Fonseca que explica bem quem foi o “santo” nesta estória toda. Esse sim fez o milagre do aparecimento do dinheiro em Fátima e parece que nem beato ficou.

  5. Dada a quantidade e deversidade de santos, não são estes com certeza os piores. Mas não me parece muito católico canonizar crianças mentirosas mesmo que tais mentiras encham com muito proveito os cofres da igreja. São este tipo de canonizações que diminuem a vida de outros santos. Quando misturamos morangos com lama no mesmo saco não é a lama que fica com pior aspecto.

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