Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

17 de Março de 2017, 14:41

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A Presidência a patrocinar um partido?

Quando li a notícia, a minha interpretação foi que se trataria de engano. Escreveu o PÚBLICO que uma nova tendência do CDS (tudo normal) começou a fazer uma volta pelo partido para promover as suas ideias (tudo normal) e que organiza uma conferência com três ex-presidentes do partido (sempre tudo normal). Foi aí que cheguei à surpresa: o Presidente da República teria aceite patrocinar esta conferência – de uma tendência de um partido.

Antes de continuar, admita-se que nem seja verdade. Ou que os serviços da Presidência não tenham sido correctamente informados sobre a iniciativa. Pode ser. E que alguém na Presidência tenha pensado que seria um debate como os que ocorrem na Gulbenkian ou numa faculdade ou sei lá onde. Também pode ser. E que, se lhe tivessem dito que se tratava de um acto de uma tendência de um partido, teria naturalmente respondido que o Presidente não se envolve em iniciativas partidárias. Pois, brevemente se saberá se se trata ou não de um engano. Mas o simples facto de poder ter surgido a dúvida sublinha uma outra questão: em Belém talvez se tomem decisões demais e depressa demais, por vezes parecendo que ao sabor da emoção imediata.

Um Prémio Nobel da Economia, o psicólogo Daniel Kahneman, publicou há poucos anos um livro notável, “Pensar, Depressa e Devagar”, que, por estranho que possa parecer, nos pode ajudar a reflectir sobre este problema de decisão. “Pensar depressa”, nos termos de Kanheman, refere-se ao conjunto de decisões simples que tomamos no dia a dia, quase por instinto ou por hábito: tomo café em casa antes de sair ou tomo no café da esquina? Levo o guarda-chuva? Ligo já o telemóvel? Respondo ao SMS da Maria? Ponho um “like” no post do Zé? Talvez então atribuir o patrocínio presidencial à tal iniciativa, só por ter sido pedido por conhecido, seria “pensar depressa”.

Em contrapartida, “pensar devagar” corresponde a outro tipo de decisões, que exigem ponderação, em que nos confrontamos com o mais difícil: analisar os cinco cenários de Juncker para a União Europeia; calcular o valor real dos pagamentos futuros da dívida soberana; apreciar a constitucionalidade da divulgação não-judicial de SMS entre pessoas. Em questões dessa natureza, é preciso uma reflexão fora do domínio da emoção imediata, é preciso informação, é preciso considerar opiniões, alternativas e efeitos. Assim, neste contexto, condicionar o patrocínio de uma iniciativa, mesmo que proposta por conhecido, ao significado institucional da escolha e ao precedente que cria, seria “pensar devagar”.

Ora, um Presidente, como um Primeiro-Ministro, deve “pensar devagar”, o que em nada prejudica a sua afirmação afectiva e a sua proximidade das pessoas, antes sublinha que cuida da decisão quando se trata de decidir.

Bem sei que nem sempre é fácil. Exemplo: o Presidente, perguntado a quente sobre o incidente com a conferência de Nogueira Pinto, pediu “consequências” (pensar depressa), o que foi interpretado como pedir a punição do director da faculdade, que aliás actuou com prudência; perguntado então sobre o que iria fazer, o Presidente respondeu que se iria informar (pensar devagar).

Poderemos considerar que os media interpretaram à sua maneira as “consequências” não-definidas: de facto, o Presidente, conhecedor do princípio da autonomia universitária e que o director é eleito pelos pares e não nomeado pelo ministério, nunca poderia exigir uma demissão. E, como assinalou que se iria informar, seria por não estar informado, ou seja, saberia que só “pensando devagar” produziria a atitude forte que era desejada, defender a liberdade de opinião. Pela mesma razão, porque virá o momento de “pensar devagar”, não tenho dúvidas de que a Presidência notificará os organizadores do evento do CDS de que não patrocina iniciativas partidárias.

Comentários

  1. Os portugueses já sabiam que Marcelo é um sobredotado hiperactivo, quando votaram nele… mas para nossa consolação ele tem-se mantido á distância de kms daqueles extremistas neoliberais que tomaram conta do seu partido de origem, na continuação de igual distância durante a campanha.

    Mas de vez em quando mete foice em seara alheia, com excesso de iniciativa à mistura constitucional. Como os seus conselheiros do palácio não acompanham o ritmo, eles devem fazer turnos, senão ficam para trás,e vem depois alguém de fora chamar a atenção, o que é sempre mau, e depois faz marcha atrás estilo bala, quase sem ninguém perceber, ufa, é mesmo rápido…

    Fica um bocadinho mais caro, mas com mais turnos e mais conselheiros para acompanhar o ritmo do Presidente, seria a melhor solução…

    1. Prof. Louçã, mais uma vez esqueci-me de um pormenor importante, e por isso peço mais uma vez desculpa pelo espaço, mas que pode ser importante para a Presidência, mesmo em tempos conturbados do nosso eterno fado, e da importância de uma direita em Portugal que nunca precisou se esconder, mas que (esperemos temporariamente) tem desiludido crispadamente o nosso Presidente:

      Portugal não é conhecido pelas corridas de Fórmula 1, super rápidas, embora as tenha havido importantes amiúde no passado.
      Portugal é principalmente conhecido pelo Rali de Portugal, muito mais sinuoso, resistente, poeirento, e ás vezes com lama da grossa…

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