Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

27 de Fevereiro de 2017, 09:49

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Tolerância de Carnaval

transferirCarnaval. “Tolerância de ponto”, um curioso e laborista eufemismo para “feriado não obrigatório”. Aliás, esta “tolerância de ponto” carnavalesca ficou também marcada por um ano (1993) em que o então Primeiro-ministro Cavaco Silva decidiu não haver tolerância para a habitual tolerância. Diz-se que foi uma decisão que fez diminuir bastante a popularidade do seu Governo. Daí que o melhor é mesmo tolerar o ponto, coisa em que a esquerda é bem pródiga. Este ano o despacho do Governo justifica a tolerância por ser “uma tradição consolidada de organização de festas neste período”. Ou seja, um feriado não previsto na lei, mas consuetudinário.

Já ouvi muito boa gente dizer “tolerância de ponte” em vez de “tolerância de ponto”. Faz-me lembrar a diferença entre “Orçamento do Estado” (que pode não ser de Estado) e “Orçamento de Estado” (não necessariamente do Estado), como muita gente teima em dizer. Mas, no caso da tolerância no Carnaval, sendo a terça-feira gorda feriado por benemérita decisão governamental, há quem aproveite a generosidade política e ligue o ponto (tolerado) à ponte (desejada). Uma verdadeira “obra de arte” de engenharia laboral e linguística.

Ainda sobre esta costumada expressão, já é ocasião para actualizar o instrumento da tolerância. O tempo de “picar o ponto” cedeu lugar a sofisticadas tecnologias de controlo da assiduidade e do absentismo. Talvez se possa acrescentar o “e” de electrónico, ficando escorreitamente “e-tolerância” …

Confesso que jamais gostei do Carnaval, até porque não gosto de me sentir obrigado a estar feliz e contente por razões de calendário ou administrativas, ou de tolerância de um qualquer ponto.

A origem da palavra “carnaval” continua a ser objecto de controvérsia. Há muitas tentativas de explicação. Há quem ache que provém da expressão latina “carne vale”, com o significado de “adeus carne“. Outra explicação radica na adopção por via francesa, do italiano “carnevale”, procedente (por metátese) de “carnelevare” (“rejeitar a carne“), formada do latim “carne(m) levare” (suprimir ou tirar a carne). Há uma terceira teoria que refere que Carnaval vem de “Carrus Navalis”, por influência das festas em honra de Dionísio, onde uma carroça, com um enorme tonel, distribuía vinho ao povo na Roma antiga. Seja qual for a mais acertada origem, tratava-se de assinalar o dia de dizer adeus à carne (comida, festas, luxúria, lascívia…), para se entrar num tempo de abstinência, ou seja, na Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma.

Na minha terra e quando era criança, dizia-se menos Carnaval e mais Entrudo, expressão que provém do latim “introitus “(entrada, acesso, introdução, começo). O Entrudo começou por designar a noite de terça-feira, que era a entrada da Quaresma, depois a própria terça-feira e, finalmente, os três dias que precedem imediatamente a entrada da Quaresma.

Mesmo no Brasil, o Carnaval já não é o que foi. Primeiro, porque não há dia sem Carnaval, ainda que, quase sempre, mais para chorar do que para rir. Depois, porque não há tolerância de ponto para tantos “pontos” políticos em Brasília e não só.

Por falar em máscaras – as do Carnaval, entenda-se – este ano está a ser uma “trumparia”. De tal sorte, que uma das máscaras eleitas é a do presidente americano, nas suas diversas poses.

Mas, no fim do dia, acaba a tolerância. E surge-me na memória uma frase cada vez mais actual do escritor Vergílio Ferreira: “Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se”. Três dias de Carnaval ou 362 com Carnaval?

Comentários

  1. A ponte é mais por causa de quem tem filhos Sr. Bagão Felix
    eu (e a grande maioria) também se está a marimbar para o carnaval, mas há aí interesses (económicos) que insistem em puxar o tema… as festarolas com mulheres semi-nuas e as fanfarrices dão de comer a alguém…
    E nas escolas insistem também em vender o “tema” às crianças com bailes e desfiles e depois os papás têm de estar disponíveis.
    Por muito que acho bárbaro os seus amigos da PaF terem tirado 4 feriados só para agradar aos alemães este é um “feriado” que eu viva bem sem.

  2. Já tinha ouvido dizer “fazer ponte” (antes de um feriado a uma terça-feira ou a seguir a um a uma quinta) mas “tolerância de ponto”, confesso que não. Há que tolerar. Quem não precisa de um bom dia de descanso e de puro lazer? Eu cá, vou fazer o mesmo. Vou tirar a bela da gravata azul de lelé da cuca, com juízo, e ver mais um excelente episódio de “Ministério do Tempo”, que felizmente posso ver hoje no RTP Play, aqui em Inglaterra.

    Até o nosso André Silva, deputado do PAN, irá descansar um pouco neste CARNAVAL que passa, tenho a certeza.

    Depois… Há Prós e Contras… Claro.

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