Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

23 de Fevereiro de 2017, 10:16

Por

Engarrafamento aéreo

240620130131-117-DSC_1144Era uma vez um investimento público. Uma iniciativa de deslumbramento, de vaidade política e de insensatez económica. Refiro-me ao aeroporto de Beja. O seu custo foi anunciado como atingindo os 33 milhões de euros, embora, segundo um relatório do Tribunal de Contas de 2010, possa ter chegado a 79 milhões de euros, depois de derrapagens e de erros de construção. Uma ninharia socialista para um “país rico” como o nosso! Como de costume, argumentou-se que o esforço dos contribuintes era respaldado pelo co-financiamento através de fundos estruturais europeus.

De quando em vez, podemos ler uma breve notícia ou um envergonhado rodapé sobre o ainda novel Aeroporto de Beja. Inaugurado há pouco menos de seis anos (Abril de 2011), a ideia era apostar em taxas aeroportuárias competitivas e na utilização intensiva por operadores de baixo custo. Como sempre convém, os estudos prévios – certamente bem pagos e sempre estimulantes para sustentar ideias mirabolantes ou megalómanas, com um optimismo tão irrealista que foi de bradar aos céus – previu uma média de 178 mil passageiros em 2009, 1 milhão em 2015 e 1,8 milhões em 2020!

Até percebo o natural lobbying das entidades autárquicas, empresariais, turísticas e associativas do Alentejo que, depois de Alqueva e do significativo aumento das actividades ligadas ao turismo, viram no aeroporto uma oportunidade para dar mais sustentação à economia da região.

Entretanto, a empresa pública que desenvolveu o projecto já saiu do mapa e a gestão foi transferida para a ANA, por sua vez privatizada.

E o que aconteceu, durante estes anos? Nos primeiros, houve, no total, 245 movimentos de aeronaves, ou seja, uma descolagem ou aterragem de 5 em 5 dias. Quanto ao número de passageiros, alcançou tão-só 6.624, o mesmo que dizer uma média diária de 6 pessoas. É menos do que o movimento do aeródromo do Corvo (2000 passageiros no primeiro semestre de 2013), a mais pequena ilha dos Açores!

Segundo o último relatório publicado da ANA, o movimento em 2015 no Terminal Civil de Beja (assim é designada formalmente a infra-estrutura) foi de 233 passageiros (não chega a um passageiro por dia), ridiculamente longe da previsão dos estudos (1 milhão de passageiros…) e 38 aeronaves (média de 3 por mês), o que significa um decréscimo acentuado em relação ao ano anterior, já de si insignificante.

Segundo notícia do passado domingo no PÚBLICO, “os inúmeros empreendimentos turísticos que durante o Governo de José Sócrates, foram anunciados para Alqueva, ficaram pelo caminho e a ANA Aeroportos de Portugal foi obrigada, em meados de 2016, a repensar a actividade no aeroporto de Beja, confrontada com “diminuta procura” da aviação comercial. A infra-estrutura teria de ser dimensionada para operações como o desmantelamento, manutenção e estacionamento de aviões, alternativa que não se está a revelar promissora”.

Aliás, segundo a ANA, o aeroporto de Beja deve ser entendido como um ‘sunk cost’ (custo irrecuperável), tendo assentado em “critérios políticos e não financeiros”.

Eis um tão expressivo, quanto infeliz exemplo de mau investimento público. Ou seja, com dinheiro dos outros e sem “accountability” dos efeitos da decisão política. E como seria interessante saber quanto custou o famoso estudo de viabilidade! A todos lhes vale que, no meio do engarrafamento de notícias, depressa se dissipou o engarrafamento aéreo no Baixo Alentejo. Sem escândalo. Afinal, nada de anormal. Não há culpas. Tudo numa boa. À portuguesa!

Comentários

  1. Como começou o texto com “era uma vez” pensei que no final fosse encontrar um “e foram felizes para sempre!”.
    Mas afinal parece que no final temos tão só mais um infeliz exemplo de mau investimento público e de mais uma, para uma já bem longa lista, das astronómicas derrapagens nas obras públicas portuguesas.
    A lista é longa… Casa da Música no Porto, ponte Rainha Santa Isabel (Ponte Europa) em Coimbra, túnel do Terreiro do Paço em Lisboa, ampliação do aeroporto Sá Carneiro no Porto, reabilitação do túnel do Rossio em Lisboa, túnel do Marquês de Pombal em Lisboa, Centro Cultural de Belém (CCB) em Lisboa, ponte Vasco da Gama em Lisboa, linha Amarela do Metro de Lisboa, linha do metro do Porto, estádios de futebol do Euro 2004, etc, etc. A lista é longa, e desde miúdo que me lembro de ouvir falar de tais derrapagens astronómicas nas obras públicas em Portugal. Um caso sério.
    Como diz, “Sem escândalo. Afinal, nada de anormal. Não há culpas. Tudo numa boa. À portuguesa!”. E é pena! Devia ser feita alguma coisa bastante séria para impedir tal ligeireza e descalabro. Deviam ser apuradas responsabilidades e deviam haver sérias consequências para os seus responsáveis. Mas infelizmente, isso não acontece. A mentalidade parece continuar a ser essa, como são empreitadas de obras, já se está a ver que vai haver derrapagem. Até o Eng. José Sócrates, que em tantas outras coisas admiro, se compraz com esse facto como o demonstra a conversa telefónica recentemente divulgada nos “média”, em que afirmava isso mesmo: “Obras são obras, já se sabe que é assim, nunca custam o valor previsto!”. É pena, que seja essa a nossa mentalidade. O engenheiro José Sócrates tem certamente muitas virtudes, mas nesse ponto esperava-se um pouco mais de rigor e pudor nas palavras pela parte de um engenheiro com tantas responsabilidades quanto as que ele acatava. Mas pelos vistos não é essa a norma e a nossa mentalidade vigente é mesmo: se são obras públicas, irá haver derrapagens. É pena. Devia a coisa ser mais séria.

    Quanto às previsões e estudos prévios, sou mais condescendente. Sei que planeamento de uma zona aeroportuária e perspetivação para o futuro é sempre bem difícil e não é de modo algum pera doce. É mais fácil para mim aceitar que se errem previsões para o futuro e que o planeamento e estudo prévio tenha algumas falhas do que aceitar as derrapagens propriamente ditas. Isso é mais difícil para mim de aceitar. Soa muito mais ao conluio e à corrupção instaurada pelos que procuram amiúde instalar-se às custas do estado e de todos nós.

    O progresso é importante e o investimento em obras como o TGV e a construção de novos aeroportos é em grande medida compreensível e desejável. Não acho que devamos ser tacanhos no que toca a visões largas a perspetivar o futuro. Mas dada a difícil situação económica que temos vindo a atravessar, impunha-se muito mais rigor, contenção e cautela nos nossos grandes investimentos em obras públicas.

    Devia ser mais como Carlos Cunha no ‘Maré Alta’: “Beep! beep! Parou. Apitou, parou!”

  2. Mais assustador caro Sr. Bagão é o facto de a ANA já estar a afiar os dentes para o novo aeroporto de lx ficar também sobre a sua asa.
    Afinal quem já tem o MONOPOLIO total em lisboa podendo cobrar aquilo que bem entender a quem tem de se deslocar de avião precisa agora de ter mais este miminho do governo para continuar a explorar.
    Eu sinceramente não entendo porque é que a ANA não cobre 100 mil euros por cada taxa de aeroporto… era o que EU fazia se tivesse o monopólio e a conivência dos meus amigos políticos.
    Está a ver Sr. Félix os portuguese comuns como eu estão atentos a estas situações e têm um ASCO fulminante a políticos como o sr. por permitirem que estas atrocidades aconteçam. UM MONOPOLIO DE AEROPORTOS PRIVADO ????
    Eu quero lá saber que o papel higiénico do aeroporto cheire a rosas… eu quero é entrar no avião o MAIS BARATO POSSÍVEL !!!!

    1. Além de profundamente deselegante e malcriado, o Senhor Johnny (como é fácil insultar sem dar a cara) não acertou. Nada tenho a ver com a privatização dos Aeroportos. Mas, isso é certamente um pormenor para um espírito tão exigente como o seu.

  3. Os mesmos artistas conseguiram transferir para o aeroporto da Portela muitos voos internacionais que partiam do Porto, com o único objectivo de pressionar à construção de um novo aeroporto em Lisboa. Gabam-se de nunca terem sido transportados tantos passageiros como agora entre Porto-Lisboa. Omitem que são pessoas que não vão para Lisboa. Vão para outro lado, mas são obrigadas a ir picar o ponto. O novo aeroporto de Lisboa só tem um objectivo: pedir dinheiro emprestado aos banqueiros amigos do engenheiro. Devolvam os voos que tiraram ao Porto. Aliviem o aeroporto da Portela. Quanto ao de Beja, tragam à justiça os corruptos que o aprovaram e obriguem-nos a pagar o prejuízo.

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