Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

22 de Fevereiro de 2017, 10:34

Por

Merkel & Companhia

Angela Merkel, numa intervenção na passada sexta-feira no âmbito da 53ª Conferência de Segurança de Munique, veio secundar a opinião de Wolfgang Schäuble, ao reconhecer que a baixa cotação do euro ajuda as exportações alemães, mas argumentando, tal como o seu ministro das finanças, que o governo alemão não interfere na definição da política monetária da zona euro.

É no mínimo decepcionante que Angela Merkel adopte esta estratégia de defesa aos ataques da nova administração Trump. É uma resposta baseada no que vulgarmente se designa por “chico-espertice” sugerindo que a liderança alemã não acredita que a administração Trump consiga alterar as relações comerciais actuais e que o melhor é, por conseguinte, continuar a assobiar para o lado na expectativa de que as ameaças verbais (“jawboning”) da administração Trump não passem disso mesmo.

Afigura-se uma estratégia arriscada. Se é verdade que uma guerra comercial é pouco provável, este tipo de atitude, de julgar que os parceiros económicos nos EUA são passivos, destrói capital político e pode levar a que a reacção dos EUA, se se vier a concretizar, possa ser desproporcionada e grave.

Acresce que, além de constituir um ataque à administração Trump, é também um ataque a Mario Draghi e aos países membros da zona euro que actualmente beneficiam da política monetária e do programa alargado de compras de activos do BCE. Nada como dois ataques simultâneos num só discurso…

Ora, essa necessidade de verbalizar “estaladas” a destinatários estrangeiros, nos discursos políticos dirigidos sobretudo a audiências domésticas, é populista e perigosa e não é a primeira vez que Angela Merkel recorre a tal estratégia.

Estratégia essa que, aliás, se afigura contraproducente porque:

Primeiro, fora da Alemanha, ninguém “compra” a argumentação Schäuble/Merkel;

Segundo, esta estratégia nacionalista e populista de culpar estrangeiros por problemas, e de desculpar ou ignorar a responsabilidade dos próprios, é divisionista e não contribui em nada para a continuidade do projecto europeu. Contribui sim para a ideia de que os alemães se estão, novamente, a sacrificar em prol da União Europeia e que, por conseguinte, o melhor mesmo é que esta deixe de existir;

Terceiro, sugere que o governo alemão não está disposto a alterar uma vírgula da sua política económica quando a simples prudência aconselharia começar a implementar medidas agressivas de política económica para reduzir o seu elevado excedente da balança corrente (de 9,6% do PIB no 3T2016). E deveria levar a sério as ameaças da Administração Trump porque, na realidade, a balança comercial entre os EUA e a UE e, em particular, entre os EUA e a Alemanha é altamente deficitária para os EUA (défices da balança de bens de €115 e €61 mil milhões, respectivamente, em 2016).

O longo “reinado” no poder (desde Novembro 2005, para Merkel e Schäuble, sendo Merkel líder da CDU desde Abril de 2000) “ossificou” a política (económica) alemã numa política de autocontentamento e de falta de abertura para ideias e estratégias diferentes.

A Europa precisa de uma Alemanha mais visionária, mais ambiciosa e mais generosa. Com as recentes declarações, a actual liderança política alemã parece não estar à altura desse desígnio.

Comentários

  1. Tenho como ideia firme que esta União Monetária foi mal construída:Não existência de uma língua comum;Percursos históricos diferenciados;Estádios diferenciados de desenvolvimento nos diferentes países.

    Os EUA preenchem todos os requisitos julgados por ajustados(o inglês como língua comum; percurso comum histórico; convergência económica dos 50 estados).

    A criação da União Monetária apareceu num momento de grande significado histórico – a queda dos regimes do antigo Pacto de Varsóvia, nomeadamente a queda do regime existente na antiga República Democrática Alemã, que fez desencadear a reunificação.alemã.

    São, porém, de salientar as seguintes questões:

    – O PIB alemão cresceu 1,9% em 2016, com grande influência do consumo público e privado. Este aumento de consumo foi até acelerado pela integração de refugiados. O comércio exterior decaiu, tendo as importações aumentado um pouco mais do que as exportações.

    – O nervosismo dos dirigentes alemães talvez se explique pelas seguintes questões:

    (a) Questões de segurança e de integração de refugiados;

    (b) Preocupações quanto à vitalidade do aparelho industrial, nomeadamente a indústria automóvel, a indústria química e a maquinaria;

    (c) A indústria permanece o motor da economia alemã. Em 2015, o peso da indústria no PIB era de 25,9%, ao passo que era de 19,9% na UE e somente de 14% em França. O peso dos produtos industriais acabados no total das exportações foi de 88,4%. Porém, os ganhos de produtividade per capita na Alemanha têm vindo a decrescer e os custos unitários salariais têm vindo a aumentar. As transformações tecnológicas têm sido implementadas de forma insuficiente. A presença do capital chinês é cada vez mais expressiva: 2015(526 milhões de dólares); 2016(10,8 milhares de milhões no 1º, semestre). (FONTE: LE MONDE, 7/2/2017).

  2. Desde a criação do euro que a taxa de cambio real Alemanha/Paises do Sul da Europa se depreciou, em parte pelo grande influxo de capitais para os Paises do Sul acompanhado de uma inflação acelerada.A recessão do periodo da Troika foi incapaz de reverter este desiquilibrio pois os salários cairam a pique e a Alemanha impediu inicialmente uma expansão monetária e tem-se recusado a uma expansão orçamental e revalorização interna de salários, que reduziria assimetrias e elevaria a inflação global da área do euro. Ou seja, o sistema do euro, tal como está, tem mantido uma Alemanha numa posição de beggar-my-neighbour.
    (Nota: basta pensar como, antes do euro, o marco e o franco suiço se valorizavam a par e ao longo do tempo em relação às moedas do sul, para perceber quão diferente seria o excedente de exportações alemão com uma moeda com a valorização do franco suiço que se valorizou cerca de 45% em 10 anos).

  3. O Ricardo tem razão qdo diz “fora da Alemanha, ninguém “compra” a argumentação Schäuble/Merkel”. Compramos os carros alemães porque se tornaram estranhamente mais baratos nos últimos anos, mas todos cheiram o esturrado …

  4. É importante sabermos bem o que entendemos quando dizemos que cotação de uma moeda é baixa ou é alta.
    O que entendemos quando dizemos que a cotação do euro é baixa? Baixa em relação a quê? Baixa em relação a si mesma, num tempo anterior?
    Ou baixa em relação a outra moeda, num tempo anterior?
    Não se pode dizer que qualquer taxa de câmbio nominal específica seja baixa ou alta, exceto em comparação com valores anteriores ou posteriores.

    Se tivermos o dinheiro correspondente a um milhão de dólares na mão não faz qualquer diferença que moeda usamos, num determinado momento, para reter esse valor. A moeda que usamos só se irá revelar forte ou fraca, se esta ao longo do tempo tiver apreciação ou depreciação. Em si mesma, uma moeda, numa dada altura, não é forte nem é fraca. Só ao longo do tempo é que ela se pode revelar forte/fraca: se mostrar tendência para a sua apreciação/depreciação ao longo do tempo face a outras moedas. Se estivermos bem cientes do que entendemos por cotação baixa de uma moeda, tudo bem. Mas, salva esta clarificação, convém sabermos exatamente o que entendemos e significamos com as palavras, termos e expressões que usamos.

    A economia da Alemanha depende muito das suas exportações e portanto a depreciação do euro durante um certo intervalo de tempo, pode muito temporariamente tornar as exportações mais apetecíveis, estimulando-as e empurrando para cima o seu volume, mas na verdade é muito discutível o efeito que a depreciação de uma moeda tem no aumento das exportações e na economia correspondente pois esse efeito direto ignora muitos outros efeitos diretos e indiretos, como sejam as malhas de retroalimentação dos preços e da inflação.

    A escola austríaca de economia há muito que aponta para tais equívocos e falsos pressupostos no que toca ao efeito que a depreciação de uma moeda tem nas exportações.
    É portanto no mínimo muito discutível se a depreciação do euro, que tem ocorrido, aumenta de facto as exportações da Alemanha e melhora a sua economia.

    Já as políticas monetárias de Mario Draghi e as baixas taxas de juro que o BCE tem proporcionado, certamente têm favorecido países endividados como o nosso, que vêm assim os juros das suas dívidas aliviados.

    Mas o problema de Portugal (e de outros países endividados da zona euro como a Grécia e a Itália) é, a meu ver, essencialmente estrutural e não se prende assim tanto com as políticas monetárias do BCE.

    A luta pelo trono de Angela Merkel com o ex-presidente do Parlamento Europeu Martin Schulz nas eleições marcadas para 24 de setembro será certamente renhida.

    Oxalá, as eleições tragam consigo a tal Alemanha mais visionária, mais ambiciosa e mais generosa.

    Sem deixarmos com isso de assumir as nossas responsabilidades, no que nos diz respeito e compete.

    Mais do que nunca, o nosso papel deve ser continuar a apostar no conhecimento e no desenvolvimento tecnológico que ele proporciona.

    Hoje em dia é esse o petróleo das nações.
    Até Marcelo o tem dito, amiúde.

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