Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

31 de Janeiro de 2017, 16:02

Por

Salvé, Fernando Assis Pacheco

O livro “Tenho Cinco Minutos pra Contar uma História” é uma memória daquele jornalista, ou poeta, ou prosador, que faria 80 anos e que anda a gozar com toda a gente. É por gozo que nos manda estas crónicas repescadas em papéis, que as gravações são escassas, e que deram em voz de rádio entre 1977 e 1978, na RDP.

O homem, “coimbrinha de nascimento e alfacinha pelo local de trabalho”, ficou famoso pela participação num concurso de TV, a Cornélia, com um empreendimento familiar que fizera dele um pop star. “Aqui há quatro meses as mães aproximavam-se de mim e diziam aos meninos pequenos: ‘Vá, dá lá um beijinho ao senhor da Cornélia!’,”explica-nos ele, envergonhado por, depois de tanto beijo, ainda ter sido transformado em cromo da caderneta do concurso. O certo é que ficou famoso, mas o merecimento era maior do que a pilhéria de umas noites de TV.

Assis Pacheco vem de uma história de galeguices, de um avô que atravessou para Portugal para vender panos pelas feiras e que era pesado com o cajado nos lombos de quem lhe agourasse. Por cá instalados, os Pachecos arribaram a Coimbra e o Fernando à universidade. Fez tropa e rimas e deu em jornalista.

Como Dinis Machado, um escritor de que tanto gostava, ele dava em flanar. “Fica-se por aí, homem de poucas falas, desconfiado talvez de que a glória (ah, a glória…) não passa de um engodo das Parcas, as cabras das Parcas, dissimulando a tesoura na dobra véstia. Do que ele parece que gosta é de flanar, mais flanar do que falar, de flanar claro, diria eu.” Só que Assis Pacheco era mesmo de flanar, de falar e sobretudo de escrever.

As crónicas são o registo em papel daquelas falas. Nelas nos conta como viajou a cobrir jogos de futebol na Alemanha, ou a acompanhar um escritor, José, não se deite a adivinhar, era o Cardoso Pires, desembarcando ambos na Dinamarca para receberem toda a hospitalidade, incluindo “saborear um amável peixe de coloração encarnada, em português ‘rodovalho’, cozido na altura, como deve ser, cercado de batatas novas e, ó José, que bem me lembro, suicidado num molho branco e doce, com leite, açúcar, etc., que ia agonizando toda a história da Literatura Portuguesa dos últimos 40 anos.” O viajante gosta de Cesário Verde, vendedor de ferragens, dono de poesia ao balcão, que morreu tísico aos trinta e muito pouco, lembra o Joaquim Agostinho e antes dele o Alves Barbosa e os ciclistas perdidos por esse mundo, regista as conversas entre passageiros de eléctrico, manda recado ao Arnaut que entrou para o governo, para os assuntos sociais, é um rapaz da minha geração lá de Coimbra e dará conta do recado, conta matreiro como chegou à Conservatória para o casamento, na bicicleta do cabo enfermeiro Barra e com um grãozito na asa, para ser solenemente admoestado pelo chefe de balcão – este Assis Pacheco é uma torrente, qual flanar.

É saboroso: e não é que o oficial da censura continuou a insistir com o jornal, pela tarde de 25 de abril, que as provas estavam atrasadas, até o telefone ficar a tocar sozinho? É pícaro: revela a “sociedade aldrabófona nacional”, como aquele homem que lhe pediu duas vezes um contributo para o funeral da mesma esposa estimada com poucos anos de intervalo. É jornalista: “Sento-me na bancada, acendo um cigarro e vejo calmamente os 90 minutos de chuto na bola, divertindo-me imenso com a paranóia ambiente. No meu tempo dizíamos ‘fora o árbitro’ e a boca escaldava com tanta enormidade; hoje um estudioso poderia aproveitar os sábados e domingos para se por à la page com o calão mais recente e sofisticado, e sobrar-lhe-ia tempo para admirar como o português, esse brando de costumes, enriquece a língua por dá cá aquela finta.” Este Assis Pacheco era tudo.

Salvé, Fernando.

Comentários

  1. F.Assis Pacheco rivalizou cordialmente com outro grande jornalista-escrirtor, Eduardo Guerra Carneiro. Eram sublimes apaixonados e requintados gourmets. FAP e EGC tinham um refinado amor por tudo o que era português, sem lamechices ou prosápias diletantes.EGC foi vizinho de Agostinho da Silva depoir deste ter regressado do exilio. A epopeia de Maio 68 radicalizou EGC e moderou FAP. O MEC mais do que Dinis Machado vem na sequência a introduzir anos depois a tentaçao libertária- aristocrática e metafisica no Jornalismo luso. Niet

  2. Grande prosador, bom vivant. Deixou boas recordações e deixou-nos cedo.

    Um livro “Trabalhos e Paixões de Benito Prada”, galego da província de Ourense que veio a Portugal ganhar a vida. Trabalhou, penso, no “Sete”, “Diário de Lisboa” e “Jornal de Letras”. Prosa corrosiva.

    Acabou por ficar mais conhecido pela participação na “Cornélia”.

    Tinha grandes amigos, entre eles Dinis Machado e José Cardoso Pires. De Dinis Machado o fabuloso “O que diz Molero”, para além de crítico de cinema e criador de romances policiais(pseudónimo Dick Hastings).

    Professor, duas sugestões: aborde José Cardoso Pires. Não escreveu muito, mas tudo o que escrevia demorava tempo, muito tempo. Lemos “A Balada da Praia dos Cães”, “O Delfim”, “Alexandra Alpha” e imaginamos: o que isto não deve ter custado a fazer, a palavra a ser partida, dobrada e, finalmente, domada. Sou um grande admirador de Cardoso Pires, de tudo o que nos deixou. A outra sugestão vai no sentido de procurarmos que alguém faça uma curta sobre a crónica “O Grande Barrigana”, de António Lobo Antunes. Aconteceu-me ter lido “Memória de Elefante” e “Os Cus de Judas”. Após ler a crónica referida prossegui com a leitura de outros livros de Lobo Antunes. A crónica funcionou como um incentivo. Creio que seria uma “curta” de sucesso. Releio esta crónica de vez em quando e acho-a prodigiosa. Uma opinião: Antunes é grande em crónica, enorme mesmo.

    Saudações Literárias.

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