Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

30 de Janeiro de 2017, 07:54

Por

Balanços e desequilíbrios, um ano depois.

1. O debate  com o Primeiro-ministro (PM) na Assembleia da República foi deplorável. Não se ganha nada em procurar encontrar engulhos em assuntos que correram bem, nem em procurar desculpas e escapatórias quando o desfecho é negativo. No fim, perdem todos. Eles e nós.

O Governo – goste-se ou não dele – teve um registo positivo no défice orçamental, desemprego e distensão social. E negativo no crescimento, investimento e dívida.

Claro que sempre se podem (e devem) escrutinar politicamente os valores do défice orçamental, por enquanto apenas conhecidos em contabilidade pública (óptica de caixa). Evidentemente que parte do valor alcançado se deve a um quase desaparecimento do investimento público que foi um sempre reclamado objectivo central da esquerda (agora, estranhamente, conformada), bem como a uma pressão fiscal insuportável e que é tudo menos amiga da economia. Quanto às receitas extraordinárias, o costume: todos anos as há, vistas com bonomia e naturalidade por quem governa, vistas como maléficas por quem é oposição.

A evolução do desemprego tem sido consistente nos últimos anos e um factor importante para melhores contas da Segurança Social e mais receita fiscal.

A distensão social é, sobretudo, devido à posição dos sindicatos afectos à CGTP que, para os mesmos assuntos, tem dois pesos e duas medidas consoante a cor do Executivo.

Do lado deficitário, assistimos a um crescimento que tendo sido inicialmente previsto de 2,4% ficará, mais ou menos, por metade disso e – imagine-se! – abaixo de 2015 (1,6%). Um quase fiasco, que a comparação com outros países parceiros ainda torna mais evidente.

Não há crescimento sustentado sem investimento acima do necessário para repor o stock de capital. E o que vemos? O investimento público está moribundo, o privado contraído e o estrangeiro desconfiado.

Finalmente a dívida pública. Em 31 de Dezembro de 2015 era de 226,3 mil milhões de euros. Um ano após, é de 236,3 mil milhões € (dados do IGCP), ou seja, um aumento nominal de 10 mil milhões. Não foram ainda publicados os valores líquidos dos depósitos do Estado, mas o regozijo do PM no debate foi um devaneio de quem quer crer e fazer crer que a situação melhorou. E o valor das yields no mercado subiu bem acima do que aconteceu em Espanha, Itália, Irlanda…

2. Mas, o pior do debate parlamentar foi a forma como o PM esteve nas suas respostas às questões levantadas pelo líder do PSD (e também do CDS). Descontando já o “calor” próprio destes debates, António Costa ultrapassou a linha vermelha da decência democrática e manifestou uma inesperada impreparação nas questões a que jamais respondeu. Frases como “terá a resposta quando o diabo cá chegar” e, mais acintosamente, “O PSD é irrelevante e não conta para nada relativamente ao país” revelam um descontrolo que não lhe é habitual. Com esta frase jamais ouvida da boca de um PM relativamente ao maior partido da oposição (e que até, neste caso, tem mais deputados do que o seu próprio, é bom não esquecer), enterra-se definitivamente a possibilidade de qualquer entendimento em matérias fundamentais para Portugal e o PS torna-se mais refém das motivações e caprichos dos partidos à sua esquerda.

O PM, encadeado pela euforia afrodisíaca do poder, contribuiu deste modo para rigidificar o ambiente político, precisamente numa altura em que pairam no Mundo e na Europa sombras e ameaças que exigiriam a obtenção de compromissos em questões-chave que, à sua esquerda, nunca conseguirá.

Tudo menos … descrispação, a palavra de 2016, segundo o Presidente da República.

Comentários

  1. … mais um excelente artigo de opinião a que Francisco Louçã nos presenteia, mas discordo pelo seguinte, e digo-o com todas as letras:

    Como se deve um PM dirigir a um facínora que mentiu ao Povo, a uma criança (deve ainda estar traumatizada ! ), que está a destruír a obra de SÁ CARNEIRO , que nunca fez nada de bom na vida, que roubou reformados, que nada de bom tem para apresentar ao País , para quem o ordenado mínimo deve baixar, que só criou miséria , que cá dentro dizia uma coisa e o contrário lá fora, etc. etc. Devo ter esquecido muita coisa . . . mas mesmo um PM não é de ferro e quem não sente não é filho de boa gente !
    Não é Francisco Louçã ?

  2. Eu achei a resposta do Costa boa. Pertinente até, tendo em conta que se dirigia a um indivíduo sem palavra, sem estofo, sem memória, sem currículo e sem vergonha. Um indivíduo sem nada.

    O PSD assumiu que vai portar-se como o PCP ou a CGTP quando a direita tem mais fichas: ser contra tudo e ser contra todos. E o Bagão Félix não faz caso.

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