Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

27 de Janeiro de 2017, 10:33

Por

Eleições já pelos 7 euricos e pela Padaria Portuguesa

É sempre assim com as minicrises: à medida que nos afastamos delas, e por vezes basta um par de dias, o que era muito dramático vai cheirando cada vez mais a comédia. Mas, de tudo, a zanga das associações patronais, os avisos insistentes do Presidente, a surpresa das casas de apostas sobre as votações do PSD, as críticas de barões e dos antigos dirigentes laranjas, os apelos comoventes ao respeito pela concertação social, de tudo isso o mais engraçado foi mesmo o apelo a eleições antecipadas.

O protagonista foi Francisco Assis, que de vez em quando dá prova de vida com um augúrio aterrador sobre riscos criados pela maioria parlamentar ou lembrando que a “Europa” está aborrecida e preferia voltar ao caminho seguro de um bloco central e que, como bons alunos, melhor faríamos em seguir o manual de instruções da austeridade. Desta vez, a situação assim o exigia, foi um pouco mais longe, exigindo eleições antecipadas. Portanto, a cumprir Assis, o PS declararia que estava chocado com a rejeição da redução da TSU dos patrões e que a Pátria precisaria de clarificação sobre tão augusto assunto, demitindo-se o Primeiro-Ministro, levando o Presidente a convocar o Conselho de Estado e, num frenesim assustado, a marcar eleições, que seriam lá para Abril, dado que a questão da perda dos sete euros pagos pelo Estado ao patrão por cada trabalhador em Salário Mínimo seria fatal para a credibilidade de Portugal e o povo teria que dar maioria absoluta aos tais dos sete euros.

A coisa em si não precisa de grande dialéctica para se definir como é, uma brincadeira. Não é pensamento político, não é estratégia, não é condução governamental, não é ofensiva, não é defensiva, é só brincadeira. Eleições em Portugal, e bem colocadas entre as eleições francesas e as alemãs para animar um pouco mais a Europa, mas as nossas por causa de esplêndidos sete euros, essa seria a escolha mais delirante de quarenta anos de democracia.

Assis pode pensar que a fronda que se ergueu em sua defesa é sinal de impacto ou até de respeito. Desengane-se. Se Paulo Rangel, do PSD, rasga as vestes para proteger a liberdade de expressão de Assis, ou outros no mesmo diapasão, que coitado do homem que é minoritário no PS, que fez uma proposta ao governo para se demitir e convocar uma crise e o governo, vejam só o atrevimento anti-democrático, cheio de tiques autoritários, respondeu que não estava interessado, então se esta é a defesa de Assis, é mesmo por não ter defesa alguma. Como ele saberá muito bem, os que choram a ofensa que foi feita à sua opinião por alguém dela discordar nada têm a dizer em abono da sua tese e só pretendem aproveitar a oportunidade para elogiar uma crise que temem mais do que ao demo.

O facto simples é que o PSD não quer eleições, seria o pior dos mundos possíveis. Marcelo não quer eleições, seria um desastre para a sua estratégia de médio prazo para recompor a termo um bloco central. A esquerda não quer, porque sabe que uma crise leviana seria prova de irresponsabilidade. E o PS não quer nem pode, porque transformaria uma promessa de seriedade para resolver problemas de fundo num jogo imediatista, e nem sequer um bom jogador se pode apresentar ao povo como querendo usá-lo para um jogo. Uma farsa, portanto.

Ora, há um problema a bordo e não é pequeno. Chama-se Eurogrupo e Schauble, que nos lembraram esta semana que são precisas mais “reformas estruturais”. Era por causa do défice? Têm o défice mas afinal era por outra coisa, as tais das “reformas estruturais”. Convém mesmo ouvir o senhor da Padaria Portuguesa, porque ele sabe o que é isso: despedir à vontade, fazer trabalhar 60 horas e pagar o mínimo possível. Finalmente, temos alguém que sabe falar com Dijsselbloem. E não é Assis, é o da Padaria.

Comentários

  1. Prof. Louçã, esqueci mais uma vez de finalizar o post, que serve de lição para quem mistura negócios com política, e que no caso deu origem ao seguinte Slogan:

    Padaria Portuguesa – O Pão que ‘O Trabalho Liberta’.

  2. Esta crónica hoje está muito gastronómica… vai desde Francisco Assis, também conhecido como o “Assis dos Leitões” (ou o “Assis Pasok”), até á Padaria Portuguesa (mais frequentado pelas ‘tias’ da linha e ‘tias’ lisboetas, mas também pelos outros lisboetas)…

    Pois é. Misturar negócios com política não é bom para os negócios (nem para a política, e muito menos com filmagens de fundo com os funcionários a trabalhar com o salário mínimo – uma imagem tipo ‘feira do gado’, portanto).
    Não é por acaso que os filhos de Alexandre Soares dos Santos telefonam todos os dias ao pai para ele não falar onde estiverem aparelhos que gravem voz e imagem. Como sabem Alexandre SS é o dono do Pingo Doce, um fascista de berço que piorou com a idade e que tem fundações e ‘think tanks’ neoliberais pré-fascistas, que paga ligeiramente acima do salário mínimo, mas que gosta de mandar bitaites sobre a política portuguesa, para depois ir pagar impostos á Holanda, em vez de pagar em Portugal, como fazem o resto dos portugueses…

    Misturar negócios com política, jamé!!!

    1. Em contra partida o teu comentário é um exemplo de tudo de bom que a direita “tuga” já fez pelo país.
      Educação e capacidade argumentativa. Que comentário mais “Urgh!” (Onomatopeia que significa vómito ou enjoo).

  3. O que é certo é que ninguém tem a obrigação de arranjar emprego para ninguém, assim sendo quem não tem meio próprios de sustento só tem um caminho e uma defesa não fazer filhos, como é fácil de ver o país não tem lugar para eles, quem não tem os meios próprios de sustento e teima em constituir família sujeita-se aos patrões tipo o da padaria, a realidade é que é, ou as pessoas adquirem meios próprios de vida ou sujeitam-se aos ditames de quem tem esses meios, é claro que todas estas dificuldades que os países e povos enfrentam advêm principalmente da livre circulação de capitais e de mercadorias, que permite que o capital ganho num país salte para outro país deixando traz de si todo um rasto de miséria, então quando essas duas leis foram aprovadas os povos estavam á espera de quê? é claro e era claro que os donos do capital iriam saltar de país em pais á procura dos mais altos rendimentos,o objectivo dessa gente é utilizar o dinheiro para açambarcarem mais dinheiro sem fazerem a ponta de um corno, servindo-se da miséria dos povos dos países mais miseráveis, é assim que o mundo actualmente está a funcionar, é o salve-se quem puder, então sobretudo os jovens pobres têm que aprender a defender-se e já estão a fazê-lo, não fazendo filhos, não têm outra saída.

    1. E para que servem os governos, não é para mediar os diferentes interesses, defendendo os mais desprotegidos? Pelo menos deveria ser, mas se não é, a culpa é desses que não têm meios próprios e continuam a votar em ladrões…

  4. As eleições estão próximas e , embora ainda não estejam marcadas, vão realizar-se em 2017, para as escolhas autárquicas. A precipitação do Assis, ao não ter este simples facto em conta, acaba por dar razão às declarações do ministro de estado e da presidência, ao referir que nem o PSD ou o CDS apresentam esta reivindicação, inventada pelo distinto tribuno.E não o fazem, porque não sabem que, mau grado a falibilidade das sondagens, a sua perspectiva de uma vitória eleitoral reconfortante é uma miragem, quando nem candidatos de prestígio e valia social conseguem cativar.Assis, está há demasiado tempo no parlamento europeu, para ser incapaz de reflectir na realidade da absoluta clivagem permanente na sociedade portuguesa, em que os eleitorados e a massa repudiadora dos abstencionistas , não permitem a constituição de qualquer maioria parlamentar, ou governativa ,estável, que não seja a centralidade da charneira do PS com a centralidade arrogante e saudosista do domínio elitista do PSD ou, pior, rendeu-se por completo à ideia de capitulação perante os representantes dos mercados.Quanto às declarações do sócio do senhor José Diogo Quintela, não representam qualquer novidade e respeitam a apologia da flexidesregulação como garantia da maximização do lucro empresarial, com a minimização dos custos, com a miragem de que os proventos são distribuídos a contento entre todos.É por declarações destas, que prefiro abastecer-me no mercado local e quanto ao pão, só o compro na padaria tradicional, essa sim, portuguesa.

  5. É incrível que se fale à toa, de uma forma perfeitamente desabrida, como Assis falou. Os políticos eleitos e pagos acima da média devem ter noção das suas responsabilidades e do trabalho que se lhes exige.

    É risível tão grossa e interminável discussão por sete euros, que, de resto, nem sequer deveriam ser pensados como hipótese de utilização num contexto de criação de emprego, por se tratar de recursos da Segurança Social. É preciso esclarecer, de uma vez por todas, que as contribuições, pagas por patrões e trabalhadores, servem exclusivamente para a cobertura dos seguintes riscos, associados às contingências da vida humana: morte, invalidez, doença, desemprego, natalidade, nupcialidade, velhice e sobrevivência. Isto faz parte do chamado Contrato Social. O património gerado, para cobertura das responsabilidades futuras, deveria ser intocável. E quando existem saldos negativos nas contas da Segurança Social o que funciona são as transferências do Orçamento de Estado, ou seja, dinheiro dos contribuintes.

    Já a questão do colete-de-forças externo encabeçado por Herr Schauble e a clique do Eurogrupo, é de outra ordem. Muito sério. Dever-se-ia, antes, reflectir sobre a construção do Euro, que arruinou tudo e todos, com a excepção da influente Alemanha. Alemanha que construiu o Euro, com a conivência gaulesa, para se defender das complicações económico-financeiras que resultaram da reunificação(anexação da antiga RDA), após a Queda do Muro de Berlim. Todos os políticos são culpados por esta tragédia. Como eu me lembro: Constâncio a papaguear nas suas aulas as delícias das Zonas Monetárias Óptimas. É o que se vê. Como prova, tenho a ampla bibliografia que Constâncio distribuiu.

    Portugal precisa de mais Protecção Social, com 18% da população abaixo do limiar de pobreza. Enfraquecer a Segurança Social com retirada de dinheiros para a criação de empregos de rendimentos baixos) não parece adequado.

    Alguns Indicadores: 2016

    País PIB/Hab. Cresc,PIB(%) Indice de Gini
    (em milhares dólares)

    Portugal 19.759 1,0 36
    Espanha 27.012 3,1 36
    Itália 30.294 0,8 35
    França 38.537 1,3 33
    Alemanha 42.326 1,7 30
    Dinamarca 53.243 1,0 29
    Suécia 51.604 3,6 27
    Noruega 71.497 0,8 26

    Fonte: “Le Bilan du Monde”, Ed. Le Monde, Janeiro 2017

    O Indice de Gini quantifica a desigualdade: 0(igualdade); 100(desigualdade total).

    Portugal tem um rendimento per capita de 19.759 dólares que conjugado com um índice de Gini de 36 e 18% da população abaixo do limiar de pobreza, abre espaço para que se justifiquem os desequilíbrios e as assimetrias sócio-económicas que no dia-a-dia observamos.

    1. Clarifico os dados apresentados:

      País; PIB /Habit./; Cresc.PIB(%); Índice de Gini

      Portugal; 19.759; 1,0; 36
      Espanha; 27.012; 3,1; 36
      Itália; 30.294; 0,8; 35
      França; 38.537; 1,3; 33
      Alemanha; 42.326; 1,7; 30
      Dinamarca; 53.243; 1,0; 29
      Suécia; 51.604; 3,6;27
      Noruega; 71.497; 0,8; 26

      O PIB/Habitante é, mais exactamente, em dólares.

      As minhas desculpas.

    2. Caro Professor:

      Pretendo fazer a seguinte emenda: onde se lê “Portugal tem um rendimento per capita de 19.759 dólares …” deve ler-se “Portugal tem um PIB per capita de 19.759 dólares…”.

      As minhas desculpas.

  6. Eu nunca viveria com o salário mínimo. Se fossem essas as condições preferia antes dedicar-me ao crime. É uma área segura e promete retorno como se pode verificar com os banqueiros e políticos.

  7. Porquê tanta preocupação com a direita? Por onde andam as solenes proclamações de que o “PSD é irrelevante” ou de que “a direita já não é precisa para nada”, as quais acompanharam a aurora da gloriosa geringonça? Que interessam as declarações do Eurogrupo e de Schauble, agora que a geringonça restaurou a independência nacional?

    Ou será que, afinal, Portugal está novamente à beira do precipício da bancarrota para onde já caiu a Grécia conduzida pela geringonça grega e pelo inefável Varoufakis?

    É claro que não se devem realizar eleições antecipadas. Os mandatos são para cumprir. Quando a geringonça precipitar Portugal na bancarrota, competir-lhe-á gerir as consequências. A menos que os partidos da geringonça declarem o falecimento da coligação, por já não haver dinheiro para compar votos.

    1. “para onde já caiu a Grécia conduzida pela geringonça grega e pelo inefável Varoufakis”….e sempre admiravel como em pouco tempo a historia ja comecou a ser re-escrita….a Grecia estava na bancarrota antes da geringonça grega e continua na bancarrota depois de Varoufakis, nada mudou. O dinheiro que os gregos receberam pela mao generosa europeia ja chegou a Grecia e ja voltou para a Alemanha, Franca e Italia….

    2. O psd tem dados alguns tiros no pé o último veio do Montenegro ao afirmar q o aumento do salário mínimo foi excessivo. Vergonhoso. Fiquei em choque!

  8. Dois pontos (para o CIF):
    O Filósofo Assis tem todo o direito a escrever o que pensa e é bom que o faça para nos recordar, de tempos a tempos, as suas ideias.
    O Sr. Padeiro é um jovem dinâmico inovador e lançou uma start-up moderníssima numa área de negócio disruptora para a qual as leis laborais (feitas no século passado quando ainda não se sonhava com negócios destes) não servem. Talvez se possa criar algo idêntico à Uber e os Senhores Colaboradores da Padaria do Sr. Padeiro terem acesso à Plataforma Digital através da qual se disponibilizam, quando lhes der jeito, para virem servir uma bica ou pôr uns pastéis no microondas.

  9. A ironia dos comentarios do patrao da Padaria Portuguesa e que indavertidamente, brade-se-lhe a sinceridade, poem a nu qual e a verdadeira intencao do protesto: o senhor nao estava preocupado com o aumento do salario minimo, afinal parte desse aumento sera consumido nas mesas da Padaria Portuguesa; a mesma caridade seria menos garantida caso o patrao de uma industria exportadora estivesse a falar. O verdadeiro tormento do Senhor era nao ter uma linha de desempregados a porta, prontos a trabalhar por menos e mais horas. Ele esta numa longa linha de continuidade com representantes bastante mais ilustres: Alan Greenspan quando interrogado sobre as razoes do sucesso da economia americana durante a era Clinton, explicou ao Congresso, sem reservas, que a precariedade do trabalho era a principal; desempregados, sobreviventes e dependentes sao sempre mais humildes, trabalhadores e disciplinados.
    O salario minimo nacional deve reflectir o que uma sociedade toma como o padrao minimo aceitavel para um individuo poder viver e contribuir para a familia e sociedade. Um cidadao como agente moral so tem que responder a uma pergunta: seria digno para mim viver com 575 euros? Nao sendo entao deve questionar se e justificavel o suposto constrangimento economico e fiscal que lhe esta subjacente. Infelizmente este constrangimento e bastante real em Portugal com a entrada no Euro. Mas desde os anos 70 e principalmente a partir anos 80 que os salarios deixaram de crescer em proporcao ao aumento da produtividade da economia. Em contraparida os lucros do capital aumentaram substancialmente. Caso alguns se tenham esquecido, esta mudanca nao foi ocasional mas organizada de forma sistematica na promessa de que esses lucros seriam re-investidos na economia e dessa forma se criaria mais emprego e riqueza. Trinta anos depois onde e que estao os empregos e a riqueza? Os empregos sao poucos e precarios e a riqueza e vasta mas estacionada em produtos financeiros que nao tem qualquer relacao com a economia real.

  10. O homem da padaria prestou um grande serviço a Portugal,a saber:é mesmo assim ,nos hipermercados,por exemplo,horas a mais que não são pagas ,nem em tempo ,nem em dinheiro,e no fim o gerente ameaça sempre com o “se não gostas,existem mais 200 lá fora á espera”,tudo isto para pagar o salario minimo,pois claro.Por outro lado,o PSD agora,já não se importa que a malta diga mal dos patrões,que pagam mal e abusam do trabalhador,e quem sabe se o PSD não virá a convocar uma greve contra o patronato…mas prontos,não se pode falar do Trump porque ainda não fez nada,e tambem não se pode falar da direita tuga,talvez porque nunca tenha feito nada de jeito por este país.

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