Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

26 de Janeiro de 2017, 08:22

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Deus e os silêncios

transferirAs algemas da circunstância, da aparência, da poeira, desvanecem a inquietude da busca. O fascínio e a ambivalência idolátrica dos meios e das técnicas esbatem a nossa centralidade de pessoas com identidade e espírito. Hoje é mais apelativo não crer do que crer. Não apenas em Deus, mas em nós próprios.

Neste tempo, o tempo do filme “Silêncio”, de Martin Scorsese, desassossega. Porque a fé é uma disposição livre, indissociável da dúvida. Se não houvesse dúvida não haveria qualquer mérito em crer. Só através da razão se pode alcançar a passagem da crença para a fé compreendida como regra de vida e de moral, raiz de esperança e, acima de tudo, relação viva com Deus enquanto causa incausada e sentido teleológico ou finalista para o Mundo.

O filme é triste, belo e singular, no cruzamento da religião e transcendência, do espaço e tempo, da dúvida e questionamento, da (in)tolerância e sacrifício.

Fala-nos do silêncio de Deus. E da liberdade (ou falta dela). O Criador deu à criatura a maior das liberdades: a de O negar. Perante Ele, pode-se acreditar, duvidar, abjurar, abandonar.

O realizador mostra-nos, em toda a sua magnitude, um dos mais radicais dilemas morais e espirituais da intermediação entre Deus e o Homem: negá-Lo para que o outro viva. Um dilema dramático entre a ética da convicção (diante de Deus) e a ética da responsabilidade (diante do outro). Neste filme, os apóstatas são seres encarcerados por descomunal medo, falta de coragem, incapacidade de suportar sofrimento atroz. Sem autonomia moral. Nada de novo, na história das religiões e do cristianismo. São Pedro negou três vezes Cristo perante o medo. Judas renegou-O, envenenado pelo dinheiro. A apostasia (negação pública de Deus, que não necessariamente íntima) foi um dos preços da falta de liberdade religiosa no Japão do século XVII, como, hoje, e por outros meios, há quem morra e sofra por ter uma fé diferente da de outros, ou mesmo de não a ter.

O filme também evidencia, in illo tempore, a diferença entre tradição e tradicionalismo, que o historiador Jaroslav Pelikan (1923-2006) assim definiu: “a tradição é a fé viva dos mortos, o tradicionalismo é a fé morta dos vivos”.

A liberdade e o livre-arbítrio são valores essenciais do bem supremo que é a vida. Não somos autómatos, nem pré-determinados. Há o bem porque há o mal e o mal existe porque há o bem. Como a luz e o escuro que é a inexistência daquela. Como o som e o silêncio que é a ausência daquele.

O silêncio de Deus perante o mal e o sofrimento levados ao extremo é um enigma que faz vacilar. Onde estão o murmúrio e os sinais de Deus envolvidos no silêncio? Como interpretar o grito humano de Cristo Divino na Cruz: “Meu Deus, Meu Deus porque Me abandonaste?” (Mt, 27-46). E a inquietação de Bento XVI em Auschwitz-Birkenau: “Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal?

Não li o livro de Shusaku Endo, no qual se baseou o cineasta (li, há anos, um outro, “Uma vida de Jesus”). Não sei o que lá está sobre a parte mais insuficiente do filme. É que se a perseguição aos cristãos (“kirishitan”) e a apostasia são a essência do filme, o chamamento da minoria cristã é secundarizado. No meio de tantas provações e devastação de vidas, o que levou homens e mulheres a crerem? Como se alcançou uma tão inalienável fé por Deus, com Deus e em Deus? Como viram no seu Cristo o farol da conversão, o esplendor da compaixão, o ícone quase uterino da absolvição e da purificação? Como se explica o martírio como a mais gloriosa morte a que aspiravam?

Comentários

  1. “Meu Deus”, que confusão caro BagãoFélix. A fé é efectivamente uma disposição livre, mas ela não está associada à dúvida, quando muito à crença, o que é bem diferente. A dúvida está associada ao conhecimento, crer associa-se ao desconhecido, logo é desconhecimento.
    E porque estava Bento XVI inquietado em Auschwitz-Birkenau quando, à época, apenas se aproximava de deus em silêncio?
    Não deixa de ser introspectiva essa forma de alimentar a fé com palavras ocas, é aliás uma prática centenária na instituição igreja; a missa em Latim, até há bem pouco tempo, alimentava bem o medo a deus pela incompreensão do que se ouvia, bela forma de proclamar uma disposição livre. O que levou tantos homens e mulheres a crerem em deus talvez seja uma matéria a remeter para a leitura de alguns dados históricos, não pela mão de Eusébio, mas antes por uma análise das condições em que pagãos, fossem eles Augustos, senadores ou simples cidadãos do império, se entregaram aos abutres escatológicos numa época de catástrofes naturais, entre outras guerras e atrocidades que, pela mão do homem e com o consentimento de deus, aconteceram no século III. O tempo das cruzadas já vai longe e não fosse esta podre democracia, bem nos passávamos desta evangelização reformulada e “pertinente”. Afinal Trump está aí, acenando a bandeira do fim do mundo.

    1. A sua ideia do que foi a queda do Império Romano do Ocidente está desactualizada. Desde Gibbons aprendeu-se algumas coisas. Actualize-se.

    2. Parece-me bastante estóica essa sua visão da realidade, já que 1776 parece-lhe ser o fim da história. Tudo o que Edward Gibbon escreveu já foi mais que mastigado, muito desmentido e muito investigado e redescoberto por novos documentos e vestígios arqueológicos, senão mesmo antropológicos, coisa que na época em que Gibbon escreveu nem sequer era tido em conta. A maioria dos escritos sobre o período romano baseia-se quase exclusivamente em documentos literários, muitos deles escritos por quem tinha secretos interesses na sua interpretação desvirtuada, como os cristãos, e outros por simples compilação, sem verificação da fonte. Hoje, pela confrontação desses documentos com outros documentos encontrados em escavações, papiros, lápides, etc. e confrontados mesmo com a situação geográfica dessas escavações, muitas das certezas históricas foram e estão a ser verificadas e esclarecidas, ou pura e simplesmente desmentidas. Deixo-lhe nomes sugestivos para que se inteire da sua paragem no tempo: Mikhael Rostovtseff, com uma visão socializante do declínio; Peter Brown, talvez o mais confesso detractor de Gibbon; Paul Veyne, sem papas na língua; Jean-Michel Carrié e Aline Rousselle, que sugerem mesmo não ter havido declínio nenhum, mas apenas sequências de altos e baixos com problemas novos e novas fórmulas de adaptação às situações, tal como as tetrarquias foram uma solução às frentes diversas de conflito que exigiam a presença do soberano. É que todas as coisas têm um fim, sem que tenham necessariamente que enfrentar o declínio. Cumprimentos.

    3. O analfabetismo foi o resultado do encerramento forçado da escola pública romana, na última década do século IV, imposto pelos cristãos. O império romano e a cultura greco-romana não são compatível com analfabetos, são a sua antítese. Com analfabetos toda a estrutura do império deixou de ter as condições elementares para existir. (Lex (lei) é uma norma escrita)

      Os cristãos cortaram o acesso à herança cultural da civilização europeia, através do analfabetismo – os analfabetos não têm capacidade de ler a sua herança escrita. Os cristãos foram os destruidores efectivos da civilização europeia.

      O analfabetismo não foi um declínio da civilização, foi o factor destruidor da civilização. Quando a barbárie do norte chegou encontrou já os restos de uma civilização desaparecida. Desaparecida com o analfabetismo imposto pelo cristianismo.

      A idade das trevas nasceu do cristianismo e vai durar enquanto o cristianismo existir.

      Caro Bagão Félix é uma chatice a realidade não se submeter às fantasias delirantes dos crentes.

    4. Podia ter começado por aí. Já agora pagãos (paganus) eram os rurais que viviam no pagus (termos rurais da civitas). Como designação religiosa foi criado já muito depois da queda do império para designar os rurais que viviam em torno das cidades onde se praticava o cristianismo mas que ainda adoravam os deuses antigos.

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