Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

15 de Janeiro de 2017, 18:45

Por

A tomada de posse de Donald Trump

As cerimónias de tomada de posse do 45º presidente dos Estados Unidos da América, na próxima sexta-feira, constituirão o principal evento da semana que se avizinha. Tudo nesta presidência é incomum e tem sido bastante problemático, começando por um processo eleitoral baseado nos ataques ad hominem, nas polémicas envolvendo Donald Trump e Hillary Clinton, nas suspeitas de envolvimento da Rússia na campanha eleitoral e seguido de um processo de transição da actual 44ª presidência de Obama para a nova presidência, marcados por o que eu interpretaria como um clima de grande instabilidade e divisão nos EUA.

Os tweets constantes de Donald Trump, que já somam mais 300 desde a eleição a 8 de Novembro, com mensagens que parecem ser ataques:

– de “persuasão moral” (“jawboning”) a empresas americanas, quase chantageando-as para investir nos EUA;

– à “China”, “México” e “Irão” (1 tweet);

– a interesses do complexo industrial-militar dos EUA;

– a agências dos serviços secretos dos EUA;

– ao Obamacare;

– a decisões da administração Obama durante o período de transição;

As nomeações de Trump para as principais posições seguem a persona: não convencionais e chocantes até, ao nomear três generais, dois dos quais considerados como “falcões”  algo afastados do consenso, para as chefias, tradicionalmente ocupadas por civis, da defesa, da “Homeland Security” e como conselheiro da defesa nacional; ao nomear para Secretário de Estado – considerada a segunda posição mais importante dos EUA e responsável pela política externa dos EUA – o antigo presidente executivo da Exxon, pessoa com boas relações pessoais com Putin e com a Rússia; ao pretender nomear para seu gabinete, o seu genro e (também multi-milionário), possivelmente em incumprimento de leis contra o nepotismo; ao nomear para agências do Estado que considera “redundantes”, como a Agência de Energia, a Agência de Protecção do Ambiente e o Departamento da Educação, anunciados nemesis das respectivas agências; os conflitos de interesse por resolver, em relação aos negócios do multi-milionário.

Tudo isto, acompanhado por decisões da Administração Obama, dos próprios serviços secretos e da imprensa “mainstream”, no período de transição do poder, altamente polémicas e que, em certa medida, parecem procurar condicionar já o mandato de Donald Trump. Em particular:

– a declaração oficial, com base numa avaliação dos serviços secretos americanos que, com “elevada confiança” (i.e., não têm a certeza que assim tenha sido), a Rússia interferiu (“hacked”) com o processo eleitoral americano;

– a votação (o primeiro não veto) de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU contra Israel;

– a expulsão entre Natal e Ano Novo de 35 diplomatas russos e o encerramento compulsório de instalações da Rússia nos EUA;

– o envio de uma brigada mecanizada dos EUA para próximo do enclave russo de Kaliningrado (prevista desde o verão);

– e a divulgação na imprensa, nomeadamente na CNN, de um relatório alegadamente secreto, altamente polémico e aparentemente, pelo menos em parte, falso, que essencialmente sugere que Trump seria um presidente fantoche, condicionado e controlado pela Rússia.

Pré-anuncia-se um primeiro ano de administração Trump conflituoso. O objectivo anunciado será “drain-the-swamp”, i.e., “secar o pântano” que seria Washington, D.C., desferindo golpes muito duros logo no primeiro ano, na expectativa que o “grid-lock” que se instala após o primeiro ano não impeça a administração Trump de mudar, “para sempre”, o Governo dos EUA para melhor, julgam “os novos jovens turcos”…

Estas polémicas sem precedentes no período de transição de presidências são sinais de que o “establishment” em Washington se está a preparar para o embate do primeiro ano, atacando, por antecipação…

Os resultados da eleição que levou Trump ao poder não foram aceites por um segmento importante da população e, particularmente, por uma grande maioria da intelligentsia. O partido republicano e os conservadores parecem divididos, entre os que apoiam Trump e os que o desprezam. Os democratas também parecem divididos. Os neocons, que agregam democratas e republicanos na sua visão de que a Rússia é uma ameaça aos EUA, sentem-se ameaçados por uma presidência Trump.

Enfim, não há memória de uma transição como esta nos EUA, com forças internas tão arregimentadas e tão arreigadas umas contra as outras. E também não há registo de um presidente tão afoito em afrontar tantos e tão poderosos interesses instalados nos EUA de forma tão publicamente visível, que parece quase despreocupada. O último que afrontou a CIA e o complexo-industrial dos EUA, tendo guiado os EUA e o mundo para a paz durante a crise dos mísseis de Cuba, foi John F. Kennedy, que foi, recorde-se, assassinado a meio do seu mandato. Trump não é comparável a Kennedy e, por conseguinte, parece que os EUA e o mundo podem esperar um mandato controverso e instável.

Comentários

  1. O “jackpot” seria uma guerra civil nos USA. O “regime change policy” aplicado aos USA, com a respectiva guerra civil, seria o melhor que poderia acontecer nos USA e no mundo. Era, aliás, coerente com a atitude e comportamento dos USA. Se é bom para os outros seria ainda melhor para os USA.

    Se o maior produtor de guerras, armas e genocídios tiver uma guerra civil a humanidade fica livre, por uns tempos, desse cancro produtor de conflitos, mortes, refugiados, destruição e desgraça geral no mundo.

    A destruição total dos USA e o genocídio da maioria dos rednecks, com armas “made in USA with pride” daria um sarcasmo extra a essa sorte para a humanidade.

    O mundo sem os rednecks a impor o seu atraso cultural milenar, sem esse produtor de delinquência e miséria constantes, daria hipótese a uma nova era para a humanidade: o mundo do século XXI sem o estorvo que sobrou do século XX.

    1. Eppicuro já esqueceu que esse cancro produtor de conflitos, mortes, refugiados, destruição e desgraça geral no mundo já livrou a Europa de sarilhos por duas vezes no passado? Ingrato.

    2. Sousa da Ponte não sabe história, a propaganda dos USA sobre a sua acção nas guerras mundiais têm a mesma validade que os filmes de Hollywood. É coisa de ignorantes para ignorantes.

      As guerras mundiais (europa) livraram os USA da banca rota, duas vezes, o plano Marshall serviu para impor o dollar como moeda de transacção internacional e com ele instalar a base do poder dos USA no mundo. Os USA apropriaram-se do poder dos europeus no mundo. Os USA devem o seu poder e a sua existência à europa ocidental.

      A realidade é o contrário do que diz a propaganda dos USA. Sem guerras nos países dos outros, os USA voltam ao estado natural deles, como mostraram os anos 30.

      A europa ocidental deve à américa do norte a higiene de a limpar dos rednecks, e desculpas aos índios pelos genocídios e crimes ambientais que as hordas germânicas para lá foram fazer.

    3. Desta vez quem se intoxicou com a sua própria propaganda é Eppicuro.
      A WWI não aconteceu por vontade dos USA e foi por insistentes pedidos das nações europeias em luta contra a Alemanha que os USA entraram na guerra.
      Se dependesse dos USA não teria havido WWII. Bastava os aliados irem desfilar na Porta de Brandeburgo, como queria o General Pershing, para os alemães se convencerem de que perderam mesmo a guerra, retirando argumentos aos hitleres que estavam por aparecer.

    4. “Bastava os aliados irem desfilar na Porta de Brandeburgo, como queria o General Pershing, para os alemães se convencerem de que perderam mesmo a guerra”… tal como os USA invadiram, destruíram, massacraram e roubaram o Iraque para salvar o mundo das armas de destruição massiva, não foi?

      O mundo está em dívida com os USA porque eles erradicaram as armas de destruição massiva existentes no Iraque. Tal como venceram os nazis na segunda guerra mundial. Não é Sousa da Ponte?

      Sousa da Ponte continue a repetir propaganda para ignorantes, ver filmes de Hollywood e a comer hambúrgueres. Continue a seguir a máxima redneck: “mente néscia em corpo obeso” e a papaguear propaganda redneck, vai ver que ainda lhe dão o Óscar de lambe botas.

  2. Ricardo, não perca de vista nos próximos dias a emergência de contrapoderes também eles novos. Por exemplo, no dia da inauguração há um ajuntamento marcado em frente da Trump Tower onde ele vive em Manhatan que conta com a presença do governador do estado (Andrew Cuomo). Isto é inusitado! Eu preferi ir a D.C. fazer o mesmo dia 20, diz-se que pode superar um milhão de pessoas, juntas, inevitavelmente a falarem umas com as outras. Às vezes a emergência de um novo poder ter como fruto mais precioso a experimentação com contrapoderes ainda mais novos. Não seria a primeira vez que este país dá um salto em frente dessa forma. O facto de os USA largarem o policiamento do mundo não significa que tenham abandonado o seu próprio futuro. Talvez muito pelo contrário.

    1. de nada :-). Correcção – é o Mayor de NY Bill de Blasio que vai estar no protesto em Manhatan, não o governador. Inusitado de qq forma, seria como se Fernando Medina não só faltasse à tomada de posse de Marcelo como liderasse uma manif de protesto no Terreiro do Passo na mesma altura.

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