Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

3 de Janeiro de 2017, 17:42

Por

Flibusteiros à abordagem do Novo Banco

Parece que o Banco de Portugal, ou Sérgio Monteiro, ou comentadores que transportam o recado, estariam decididos a tentar forçar a mão do governo para a impor a venda imediata do Novo Banco. Os felizes contemplados poderiam ser a Lone Star ou, se um golpe de teatro ainda o permitisse, o consórcio Apollo-Centerbridge, agora reforçado pelo carinho da família Violas, que anda de candeias às avessas com o BPI. Já hoje, não pode passar de 4ªfeira, escreve-se também em jornais económicos, sob a ameaça tremenda de os fundos norte-americanos se zangarem.

Se bem conheço o governo e outros decisores nesta matéria, esta chantagem não tem condições para triunfar e impor a entrega do Novo Banco como se não houvesse alternativas consistentes. De facto, até hoje as propostas de Monteiro para o banco têm sido todas perigosas e estas não o são menos.

A solução Monteiro só tem uma virtude clarificadora, a anuência do PSD e CDS. Monteiro, despachado por Passos Coelho para esta função e sempre próximo de Maria Luís Albuquerque, tem cumprido o que dele se esperava, generosamente pago para tanto. Embrulhou as contas do banco, prospectou compradores, ofereceu condições e agora proclama a solução que lhe sobrou.

Mas a solução é má, por três razões. A primeira é que os potenciais compradores são flibusteiros, ou aventureiros provados no mar alto da finança mundial. O fundo texano Lone Star nasceu na crise dos anos 1990 e lançou-se com o crash dos tigres asiáticos, comprando propriedade imobiliária e empresas em dificuldades. O seu negócio é a dívida e a destruição de empresas ou a sua venda a curto prazo. O fundo Apollo, como o Centerbridge, gerem em conjunto o triplo dos valores mas seguem o mesmo caminho: juntar fundos de pensões ou outros investidores para comprar dívida e conseguirem rentabilidades de curto prazo. Esta Apollo foi fundada por Leon Black, o braço direito de Michael Milken, o rei dos junk bonds, que veio a ser condenado à prisão em 1989 por crimes vários. Se um governo entregasse o terceiro banco do país em termos de activos líquidos a uma operação financeira desta natureza, só se poderia queixar de si próprio.

A segunda razão que assinala o perigo destes fundos é a sua forma de actuação, que decorre da sua natureza, ou do investimento de curto prazo que deve ser imediatamente ressarcido. Ao comprarem o Novo Banco, visto que lhes pode ser difícil distribuir desde logo dividendos para recuperarem o capital, estes fundos procurarão utilizar as garantias do Estado e os créditos fiscais (e já lá estarão cinco mil milhões), pedir novos empréstimos e retirar capitais do banco, espremendo também os créditos em curso na economia nacional para aumentarem as taxas de retorno. Em resumo, ameaçarão o banco, atacarão os clientes, arriscarão os depositantes.

A terceira razão é que este procedimento tem ainda um outro custo, o défice: o imediato, a contabilidade das contra-garantias, e o mediato, a perda fiscal ao longo dos anos. Se lhe dissessem que o Novo Banco foi vendido nestas condições, poderia ter a certeza que a sua carteira foi arrombada, mas não vejo o governo a alinhar nesta aventura.

A solução Monteiro tem que ser evitada, tanto mais que há alternativas a este caríssimo ultimato quarta-feirista. Primeiro, é melhor fazer as contas do Novo Banco com rigor. Segundo, o banco não pode continuar a viver arrastado para o fundo pelas operações não-bancárias do tempo passado e deve livrar-se delas. Terceiro, deve ser mantido como entidade separada e não incluída na CGD, mas deve integrar a banca pública para uma recapitalização ponderada ao longo do tempo e para uma gestão virada para o crédito que estimule a economia. Sobre os detalhes desse plano voltarei a escrever em breve.

Comentários

  1. Excelente. Como advertência não podia ser mais claro. Espera-se agora que seja bem ouvido; a tempo de evitar mais um golpe dos respectivos gangs predadores.

    1. “a tempo de evitar mais um golpe dos respectivos gangs predadores.” Está a falar dos golpes que o gang predador deu na CGD? A melhor maneira de evitar isso é vender o NOVOBANCO. Por falar nisso, alguém sabe porque a auditoria à CGD está com um parto tão difícil? Estarão todos com medo do que lá vão encontrar?

  2. Aos olhos de todos Portugal está em processo de insolvência. Nesse contexto vender ativos é dá-los ao desbarato senão com muitas notas gordas dentro. Todas as vendas feitas por esse Sérgio tiveram essa matriz. Não será diferente com o NB.

    A insolvência de Portugal tem um interessado principal que é o BCE. Se não tivesse interesse algum não comprava dívida e muito menos à taxa de juro que torna possível manter a insolvência deslizante no tempo à custa da perda do bem-estar dos portugueses.

    A estrutura supranacional que impõe regras no eurogrupo e demais “instituições da ue” não se vai auto-implodir, vai arrastar-se à espera de melhores dias. Quero dizer que nem vão decidir o fim ordenado e planeado do Euro em todas as economias onde opera nem abrandarão a chantagem que mantém sobre essas economias.

    Neste contexto a nacionalização da banca encurta a linha da subordinação do Estado português em relação ao BCE e até lhe facilita o controlo da insolvência deslizante até à anexação económica e política.

    A escolha não é fácil. Talvez a liquidação cortasse o mal pela raiz.

  3. 99,999999999999% dos bancos em Portugal não tem a mínima utilidade e quanto mais depressa forem liquidados e fechados menor será a catástrofe para os contribuintes.
    O cidadão comum não tem a mais ténue necessidade de interagir com essas empresas privadas a que se dá o nome de bancos.
    Quer comprar um carro e não tem dinheiro ? Ande de autocarro e poupe até ter dinheiro para comprar.
    O único credito que o cidadão comum precisa na sua vida é para aquisição de casa e esse devia ser concedido pelo governo através de um fundo de custos controlados para evitar a especulação imobiliária
    (que é no fundo o que está a acontecer mas de forma descontrolada e com custos pesadíssimos para quem paga impostos)

  4. Não é uma questão de filibusteiros,mas do mundo da Finança não acreditar neste governo ,dirigido por um perdedor e suportado por comunistas e radicais ignorantes.O NB era o “fillet mignon” da burla BES,mas basta fazer projecções sobre a economia e ver o desastre aí à frente.Mas ,isto é economia.tema que os ignorantes não querem ver

    1. Agradeço a cortesia, Victor Guerra. Quando quiser conversar a sério, esteja à vontade.

  5. Os flibusteiros à abordagem do meu bolso. 5 mil milhões de euros para a CGD não lhes chegam? Imaginem que era mais 5 mil milhões de euros para outro banco publico? E o BES foi muito bem resolvido. Nem quero pensar na quantidade de dinheiro que os piratas do BES nors teriam sacado se o PPC tem caído na asneira de resgatar esse buraco negro. Não se esqueçam que o Ricardo Salgado, com a cumplicidade do Sócrates (ou vice versa) deu cabo da PT e que foi a tentativa de fazer o mesmo com a Portucel que despoletou este processo.

  6. Não rejeito – de todo – que toda esta operação de venda do Novo Banco cheira a azedo e que todo o processo conduz à desvalorização e à venda a desbarato de algo que muito possivelmente poderá ser bastante rentável.
    Mas… se a “gestão pública” deu-nos um buraco de 6 mil milhões na CGD… então, porquê essa fé que a gestão pública nos irá dar melhores resultados que a venda?
    Um dos grandes problemas de Louçã e de outros pensadores de esquerda é, ao mesmo tempo que acham que o capital e a iniciativa privada estão fatalmente feridas dos maiores pecados, acreditam na santidade de quem trabalha no sector público… isto apesar dos inúmeros exemplos em contrário.
    O problema aqui, parece-me, é que o processo de venda não é sério e que por esse motivo não aparecem candidatos sérios e credíveis.

    1. E quanto desse buraquinho era buraco da CGD? É que me consta que o BPN foi nacionalizado para a sua gestão ser entregue à CGD que dessa forma poderia aliviar uma parte do seu passivo.

    2. O BPN é um caso muito típico nacional em que um banco privado era na realidade um banco dos políticos do sistema (BPN – PSD, EFISA – PS) e, por esse motivo… A tal gestão privada era “privada” apenas no nome, dado que operava num ambiente de acobertamento “público”, que permitiu a sua sobrevivência muito para lá do que um ambiente de mercado concorrencial “limpo” lhe permitiria.
      Releva aqui relembrar que, tal como no BES, falhou olimpicamente a intervenção pública, nomeadamente, do regulador.
      Tal apenas reforça tudo o que penso: só uma fé cega numa utópica pureza monástica de quem exerce funções públicas é que pode colocar o “público” num pedestal e o “privado” no inferno.

  7. O país está claramente exposto e sem proteção da depredação financeira, económica, ambiental, social etc desta pirataria quem as “regras” da Comissão Europeia promovem. Eu fico sem saber exatamente que ladroagens faltam acontecer para convencer as pessoas que o regresso da auto-determinação soberana já tarda, e muito! Quanto mais tempo deixarem os interesses nacionais expostos desta forma, mais danosas e irreversíveis serão as delapidações e mais severa terá de ser a correcção se quisermos devolver o futuro aos nossos filhos. Dizem os mais sábios que não herdamos de nossos pais, somos apenas confiados com a custódia do futuro dos nossos filhos. Olhem bem para o serviço que estamos a fazer, não aprenderam absolutamente nada com o Alcaide de Castelo Fraia pois não? É difícil respeitar esta geração apostada em cobrar uns tostões pela escravização dos seus filhos. Podem ter a certeza que um dia, provavelmente a caminho da emigração, vão ser confrontados por eles com essa acusação no momento da despedida. Que a terra então nos seja leve, porque a consciência será certamente pesadíssima.

    1. A maior depredação financeira, económica, ambiental, social etc que conheço em Portugal foi este caso do BES/GES/ESCOM/ETC. Não há caso nenhum malcheiroso da corrupção política onde não apareça o dedo dos Espírito Santo.

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