Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

2 de Janeiro de 2017, 11:28

Por

O sonho. E a madrugada.

miguel-torga Vergilio_Ferreiramachado-de-assis-1398195815361_200x285 O sonho, esse enigma dentro de nós. Outra vez. Sempre. Tendo dado aulas por mais tempo do que o tempo em que as recebi, é como aluno que sonho diante de professores que não tive. Em défice, como se diz. Ou “por defeito”, estranha tradução anglófila que se propagou da máquina para o homem. Quero dizer, constrangido sem tempo para o tempo que não me pertence, com essa doença incorrigível do oxímoro do imperfeito perfeccionismo, com o pessimismo do antes e o inconformismo do depois.

Acordado do sonho que me deu cabo do sono, fico aliviado perante o sonho que já não é, mas que, teimosamente, vai voltar. Com o professor que nunca tive – se é que ele se me mostra no sonho – com a disciplina que nunca estudei – se é que ela existe no mar infinito do que não sei – com o tempo contado em passado e incontido no futuro – se é que ele é mensurável e apropriável. Quando será que, no meu sonho, o aluno que lá sou acorda serenamente no banco da escola? Da minha. Onde gosto de ser aluno. De estudar, de aprender, de domar a inquietude da curiosidade e a devastação da infinitude. Neste meu sonho, já despedaçado pelo acordar antes do exame do sonho no sonho, só me lembro do que lá me pertenceu: o que não sei, por detrás do que jamais saberei se cheguei a saber. Ou seja, no Trás-os-Sonhos.

Desta vez, porém, acho que tenho uma explicação para o que me restou (acordado) do sonho. Porque nos últimos dois dias houve um sonho que em mim aconteceu. Aconteceu, quer dizer foi real, se é que isso da realidade existe. Andei pelos roteiros de Miguel Torga e de Vergílio Ferreira, lá nas suas terras de Trás-os-Montes e Beira Alta a sentir as suas canetas, os seus hemogramas de letras, os seus espaços, as suas vivências, as suas dúvidas e dessossegos manuscritos. Emocionei-me de forma genuína, não liofilizada pela apoplexia de afectos.

Depois, chegado à cidade, onde – para citar Torga – somos compungidos a ser mais ficções do que criaturas, reli páginas de “Para sempre” onde Vergílio nos fala da casa de amarelo desbotado na sua terra natal de Melo: “Aqui estou. Na casa amarela e deserta. Para sempre”. Que agora pude ver e não apenas olhar. Para o meu sempre. Um sempre que também se alcança no que jaz do ulmeiro (negrilho) que Torga poetizou no seu Diário VII, com a sensibilidade do respeito pela mãe natureza e pela austera dignidade da cultura do simples que ela oferece à humanidade. “Terra de Deus e dos deuses que nenhuma imaginação descreve”, era assim que ele se referia ao seu amado Trás-os-Montes, a partir do qual cinzelava graniticamente o seu estado de espírito, ao mesmo tempo questionante e rejubilante.

Não poderia ter terminado melhor o meu 2016. Oportunidade para revisitar lugares, vistas, sóis e sombras, atmosferas e hábitos que havia desenhado na minha imaginação de leitor. Tempo para repristinar, com mais idade e vida, o pensamento do transmontano teluricamente inquietado e do beirão inquietadamente reflexivo. Convite para voltar a ler todas as suas obras que me abraçam na minha biblioteca. A que juntarei a releitura dos romances de Machado de Assis, terceiro escritor do meu pódio da literatura de língua portuguesa, agora nas 1549 páginas da notável edição completa da Glaciar (2014). Um novo ano com esta tríade relida será do que melhor poderia usufruir.

Escrevo na madrugada do ano começado e do sonho interrompido.  “Tudo menos economia”. “O meu corpo não se adapta a nenhum colchão, nem o meu espírito a nenhum sono” (Miguel Torga, Diário XI) “Não é bem a vida que faz falta – só aquilo que a faz viver” (Vergílio Ferreira, “Para sempre”).

 

Comentários

  1. Já António Aleixo, cauteleiro, pastor, polícia e emigrante, dizia:

    O HOMEM SONHA ACORDADO
    SONHANDO A VIDA PERCORRE
    E DESSE SONHO ENCANTADO
    SÓ ACORDA QUANDO MORRE.

  2. Notável. Gosto de viver numa terra onde ainda se escreve assim, fora de tudo, das crenças, das polémicas e dos “ministérios”.
    Parabéns caro senhor.

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