Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

30 de Dezembro de 2016, 08:55

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Mas é mesmo tipo uma feira, não é?

Provocou alguma comoção a transmissão de uma conversa pessoal sussurrada entre dois ministros num jantar de Natal. Disse um para o outro que a concertação social seria assim como uma “feira de gado” e deu-lhe os parabéns pela conclusão de um acordo nessa “feira”. Não consta resposta muito conclusiva do homenageado, mas a expressão já foi suficiente para incendiar redes sociais, que aliás ardem por pouco, para levar os partidos de direita a exigir solenemente explicações, para impor ao ministro umas desculpas apressadas, ele que valoriza a concertação social estratégica mais do que tudo, e para dar às associações patronais a oportunidade de manifestarem uma fria condescendência natalícia. Em resumo, uma crise. Uma pequena crise, mas ainda assim uma crise.

Começaram depois as interpretações. Devem os jornalistas transmitir conversas privadas? Já agora, devem gravá-las, à socapa como é bom de ver, já que levam microfones direcionais de grande capacidade? Quem é que julga o que tem interesse informativo e o que é de âmbito privado? Tudo questões dos tempos modernos e da sociedade de hiper-comunicação, mas razoavelmente inescapáveis. De facto, sobre isso não há nada a fazer: tudo será sempre publicado, tenha interesse jornalístico ou não, e será divulgado antes de mais nas televisões, que conduzem este processo de produção de entretenimento em modo contínuo e que, por isso, precisam de captar a atenção e jogar no imediato, pois temem a escolha do concorrente que as possam ultrapassar e, na dúvida, usarão mesmo a mais irrelevante das imagens. Para os ministros, fica o conselho de António Costa: mesmo no café cuidem do que dizem.

Creio no entanto que o comedido conselho do primeiro-ministro à sua gente é tão útil quanto inaplicável. Haverá sempre uma câmara de televisão na sala de jantar de Natal do grupo parlamentar, haverá sempre uma inconfidência, haverá sempre uma intriga.

Só que condenar o procedimento microfónico é cómodo demais. A questão é outra, ou também é outra: a concertação social é assim como uma “feira de gado”? O ministro tinha razão? Conhecendo mal a “feira de gado”, presumo que ele se referia à analogia com a negociação entre o comprador e o vendedor de um boi, ou de um burro, ou de uma ovelha, em que ambos puxam o negócio para a sua vantagem, alardeiam virtudes ou defeitos, mas querem ajustar um preço. Se é essa a comparação, não vejo onde está a ofensa ou sequer o erro. Sim, a concertação social deve parecer essa “feira” e Santos Silva terá razão, tanto na constatação (é como se fosse uma feira) quanto no desabafo (será uma feira em que os feirantes usam a sua estratégia e força para conseguirem o preço conveniente).

Ao longo das semanas anteriores ao acordo sobre o Salário Mínimo, as associações patronais negociaram os dinheiros com uma avidez que só comprova que se sentiam na feira. Saraiva chegou a dizer que os 557 euros “ameaçam” a concertação social, depois que 1% de aumento do Salário Mínimo seria adequado, logo 535, depois que nunca devia passar dos 540. Disse depois que podia ser mais, mas “depende das contrapartidas”. Acrescentou finalmente que o SMN pode subir, desde que as leis laborais não desçam.

No fim das contas, o patronato conseguiu que o governo pague cerca de 7 dos 17 euros que fazem a diferença entre o que declarava aceitar e o que veio a ser decidido. Tudo na TSU é provisório, esclarece o ministro, mas o certo é que a parte do salário paga pelo Estado aumenta pelo segundo ano. E o governo, que se comprometeu em programa jurado que haveria 580 em 2018 e 600 euros em 2019, preferiu deixar agora esses valores em suspenso.

Portanto, uma feira.

Mas a feira tem outro aspecto, que é a prosápia. A concertação social é a ficção de um universo paralelo à decisão democraticamente controlada: ali respeitam-se os beneméritos que são os donos da economia nacional, ali entende-se que o empresário é que move a terra, ali compensam-se os patrões se tiverem que pagar salários mínimos ou impostos mínimos, ali aceita-se um direito de veto pela força do dinheiro. Ali não vigora o peso das eleições ou os governos constituídos, ali há uma ordem suprema, que é a da propriedade. Exactamente como na feira, o comprador e o vendedor têm que parecer o que não são para conseguirem o preço que não merecem. Santos Silva tinha razão, essa é que é essa.

Comentários

  1. O Maravilhoso Novo Mundo mediático é um nojo! Se ASS ou qualquer outro cidadão anónimo tivesse confessadoo homicídio da vizinha da frente e tal confissão tivesse sido gravada ”à socapa’ nada lhe aconteceria por conta da ilegitimidade da prova, já s comentar, presumivelmente, com alguém da sua confiança, de forma mais ou menos jocosa, uma realidade que todos arrasam consoante as suas preferências, tem de vir de orelhas caídas titubear umas desculpas! Depois admiram-se de a política ser o que é; um bando de lacaios que não sabem a quem devem agradar mais…

    1. Quem faz da política o que ela é e Maria Couto tão bem descreve não são os jornalistas que não fazem mais do que o dever deles informando mas gente com ASS.

  2. Uma coisa é certa. Tal conversa nunca teria acontecido entre dois ministros da “direita”. É uma questão de respeito pela democracia.

  3. O que me dá verdadeiros arrepios, é ver a ala direita do velho PS dos negócios tão animada, como não a víamos desde Outubro de 2015. Mas tão animada, tão animada, que só faltou o tal jantar de leitão…

    Toda agente sabia que António Costa iria convidar para o governo alguém da ala direita, para não desanimar os Pasoks. Mas quando se soube que era Augusto SS, um desbocado já com longo cadastro, toda agente sabia que iria dar problemas, mais cedo ou mais tarde.

    E ainda mais num assunto tão delicado, como a TSU e o Salário Mínimo, com aquela concertação de fachada marcelista, que envergonha os próprios empresários (pelo menos aqueles adultos com filhos e netos, mas que ainda vivem á sombra da fortuna dos pais), o Governo, e o país.

    Até o governo dos Açores já vai nos 584 euros, e nós ainda aqui no reme-reme das velhas cassetes jardinistas-UGT-Patrões… vergonhoso.

  4. porque nao assumiu as palavras e veio logo atras pedir desculpas com medinho de perder o tacho
    entao e o arabes que deram porrado no moço como está?
    a feira de gado está generalizada

  5. Santos Silva não saberá que o rigor negocial nas feiras de gado tem a ética que está ausente no negócio viciado da “concertação social”. Ali, na feira, o gado é mesmo gado e os negociantes são mesmo negociantes. Na “concertação social” o “gado” são os trabalhadores por conta de outrem e os negociantes são figurantes que vendem o “gado” alheio e pagam com dinheiro alheio.

  6. A TVI grava uma conversa privada,e o ministro é que tem de pedir desculpa.Sendo assim,depreende-se que o poder politico tem medo do poder mediatico,e quem manda em Portugal é a TVI.Com os meus impostos em dia,sinto-me profundamente envergonhado e humilhado pela TVI.

    1. Vergonha e humildade ficam-lhe muito bem. A razão pela qual se sente envergonhado e humilhado é que está errada.

  7. Santos Silva foi lesto demais a apresentar desculpas: as circunstâncias mostravam que o melhor seria não dar troco (palavra de feira) à vozearia. As condições, os desvios, e a falta de autenticidade nas discussões – que o tal patronato deveria estimar – mostram claramente que “aquilo” foi uma Feira Grande.

  8. Santos Silva só tem razão por ser do partido que é… Houvesse alguém, oriundo da direita, em cargo similar, e logo seria esquartejado pelos partidos da esquerda e por toda a comunicação sedenta de sangue…. É que a esquerda adora Santos Silva… Ele é o tal que gosta e malhar na direita (outra expressão infeliz)…

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