Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

22 de Dezembro de 2016, 07:46

Por

A cultura da não-violência

A Síria, o Afeganistão, o Iraque, o Iémen ou a Somália ou o que resta de todos eles, entre outros cantos do Mundo, estão longe de nós e, por isso, “convivemos” injustamente com a devastação humana que por lá vai acontecendo a cada dia. Mas acordamos sobressaltados quando a violência nos chega à beira da nossa casa. Neste ano de 2016, senti isso profundamente na porta da minha consciência: estive 10 minutos antes no exacto local da devastação terrorista em Nice. Estive horas antes a calcorrear a feira de Natal, depois local de morte, em Berlim. Também por esta circunstância, li e absorvi, com redobrada atenção, um dos documentos que sempre me suscitaram reflexão, como pessoa e como cristão.

Refiro-me à Mensagem papal para a celebração do Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro), instituído pelo Papa Paulo VI, a partir de 1968.

Para a Mensagem de 2017 – curiosamente a 50ª – Francisco escolheu o tema “A não violência: estilo de uma política para a paz”.

Trata-se de um documento que merece ser lido e difundido e, sobretudo, praticado quanto ao que nele está expresso. Pena é que passe quase despercebido, no meio do sensacionalismo e do factualismo excessivo que dominam as notícias que nos são dadas a conhecer.

O Papa escreve o seu texto na constatação de um mundo dilacerado e sujeito a um conflito mundial “aos pedaços”. “Pedaços” que deterioram a consciência global da necessidade de paz duradoura e “pedaços” nos modos diferentes de violência e de guerra: terrorismo, imprevisibilidade de ataques soezes e cobardes, tráfico humano, abusos sobre os mais vulneráveis entre os vulneráveis desde os nascituros aos abandonados e descartados, criminosa pobreza punitiva, conflitos dos monopólios dos “senhores da guerra”, devastação ambiental.

Francisco alerta para a necessidade de uma cultura activa de não-violência. Lembra os exemplos edificantes e polinizadores de Gandhi, Luther King e Leymah Gbowee. Adverte que “jamais o nome de Deus pode justificar a violência” e reafirma “que só a paz é santa, não a guerra”.

Um dos pontos mais significativas do texto papal, refere-se à “raiz doméstica de uma política de não-violência”, a partir de uma ética de fraternidade e de uma ecologia humana integral.  Por isso, diz o Papa, “as políticas de não-violência devem começar dentro das paredes de casa para, depois, se difundirem por toda a família humana”. Por outras palavras, só edificando os valores da paz na única sociedade natural que é a família se criam condições para a paz na “casa comum”. A eliminação da violência doméstica, em particular vitimando a mulher, as crianças e os idosos, da primazia injusta e corrosiva do egoísmo e do utilitarismo sem freios e do indiferentismo que conduz a um individualismo predador serão os primeiros passos para que “façamos da não-violência activa o nosso estilo de vida”.

Trata-se de edificar uma cultura de não-violência dentro de cada um, não entendida como um modo de ser e de estar negligente, acomodado, passivo, apático, mas praticada com determinação, coerência, sentido profundo do respeito pelo bem soberano da vida. O Papa Francisco recorda a magna carta dos cristãos, as Bem-aventuranças dos mansos, dos misericordiosos, dos pacificadores, dos puros de coração, dos que têm fome e sede de justiça.

Onde estão eles? poderemos perguntarmo-nos perante a insegurança, a ameaça indiscriminada, a destruição, a violência como forma de vida (ou morte).

Francisco termina a sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, dando a resposta, tão bela quanto desafiante:  todos podemos (devemos) ser “artesãos de paz”.

Comentários

  1. Apenas pegando no topico da Devastação Ambiental,destaco pela negativa,a noticia bem divulgada pelo Publico,e melhor pensada pelo Miguel Esteves Cardoso,da matança/assassinato da 10 milhafres,uma aguia imperial e uma raposa,tudo isto,numa semana,na zona da Castro Verde.E não me venham dizer,os caçadores e agricultores que apenas uma aguia imperial,matou todas as ovelhas e coelhos ,da zona referida.A convivencia do homem com o seu proprio ambiente,foi sempre problematica,mas é Sempre O Homem o primeiro e ultimo a ser prejudicado pelo seu mau feitio(e às vezes,basta um individuo para fazer Tra/umpa)

  2. Por mera coincidência as criaturas dessas guerras são todas elas crentes na teologia Abraâmica (judaísmo, cristianismo, islão). Obviamente que não há nenhuma relação entre essa base cultural e a violência. O facto de estarmos já há mais de quinze séculos a ver o mesmo comportamento por parte desses crentes é, naturalmente, pura coincidência.

    Não há causa efeito quando se observa o efeito das teologia Abraâmica na história, pois não?

    Foi só por mero, e santo, acaso que os crentes dessa teologia – do deus sozinho, anti social que não reconhece a existência de iguais, sociopata que fez um inferno (onde a violência é mostrada como algo útil e necessário) para os que não lhe obedecerem – são propensos às mais abjectas atrocidades.

    A teologia Abraâmica não resulta em guerras e mau viver? A história dos judeus, cristãos e islâmicos mostra o quê? Paz?

    Mil e seiscentos anos não são suficientes para se concluir o efeito do cristianismo na realidade? Claro que não. O cristianismo não têm efeitos, a história desde o século IV – a idade das trevas cristãs – é mera coincidência. A culpa é das pessoas. Os comportamentos sociopatas não são resultado da teologia do deus sociopata.

    Felizes os pobres de espírito que desleixam o pensamento, acomodam-se a imundice cultural e praticam crimes contra a humanidade. Viva a idade média – a idade das trevas cristãs – não é caro cristão?

    1. O seu elaborado texto cai por terra quando junta cristãos e islâmicos na mesma frase. É daqueles que diz que o clube é o maior porque ganhou uma taça em 1836.

    2. Sou ateu, mas entrevejo nas suas linhas uma certa militância anti-religiosa que me parece inconsequente, se não contra-producente. Falar da história da «teologia abraâmica» como prova da sua propensão para a violência não cola minimamente, ou não fossem as «religiões do Livro» claramente maioritárias.
      Ou seja, se o universo é maior, maior a probabilidade de encontrar lá de tudo, inclusivo sociopatas e tiranetes de todos os tamanhos e feitios.

      E sobretudo esquece que já havia guerra antes do cristianismo e do judaísmo, e continuará a haver depois deles. As religiões são uma mera manifestação de uma necessidade humana. Elas podem ser destrutivas porque o Homem é destrutivo. Não condene a obra da imaginação do bicho, porque é no bicho que está o problema.

    3. Os analfabetos repetem sons, os outros sabem ler as palavras.

      Religião, do latim religio: re (repetir) + ligare (ligar) = religar. A física religa a realidade a si mesma, isto é, a física liga as causas e consequências a si mesmas. Religa a realidade à própria realidade.

      Superstição, do latim superstitio: super (acima, sobre) + stare (estar) = acima do que está. Deus é o exemplo da superstição, algo que está acima da realidade.

      Uma teologia é uma superstição por definição, e não uma religião. Não me parece que o caro Martins tenha habilitações para ser ateu. A religião exige conhecimentos, a superstição é que é essa demonstração de ignorância, de ignorantes para ignorantes.

      A barbárie cristã caracteriza-se pelo analfabetismo cristão (passo as redundâncias). Esse analfabetismo que não sabe ler as palavras, apenas repetir os sons. Não religa sequer a realidade com a própria realidade, tal é o atraso cultural.

      O analfabetismo Abraâmico, como qualquer outro analfabetismo, resulta em desgraça. Neste caso resulta numa cultura da violência, como a anamnese dessa patologia cultural revela.

      A espécie humana é muito anterior ao aparecimento desta teologia. Esta teologia não tinha meios para existir antes da agricultura, por exemplo. Só que o caro Martins também não tem habilitações para abordar este domínio.

    4. Eppicuro parece ser antes de tudo um sofista. Essa da religião religar a realidade à própria realidade é uma tautologia tautológica. Não existe teologia Abraâmica e é errado por o Islão junto na linhagem de Judaísmo e Cristianismo. “O facto de estarmos já há mais de quinze séculos a ver o mesmo comportamento por parte desses crentes é, naturalmente, pura coincidência.” O argumento cai por si quando vemos o mesmo comportamento em povos que não conheciam essas religiões: os aztecas deve bastar como exemplo. Os analfabetos não sabem ler, a palavra escrita é silêncio para eles. Eppicuro devia saber separar a origem das palavras, e o seu significado original, do seu significado actual e não devia utilizar palavras dando-lhes significados diversos, por vezes opostos, dentro da mesma frase. Nem o mais sofista dos sofistas gregos se atreveria a tanto. A sua expressão ” a história desde o século IV – a idade das trevas cristãs – é mera coincidência” revela um conhecimento das circunstâncias do desmoronamento do Império Romano do Ocidente ao nível da vulgata. A Idade Média é uma invenção (Foi inventada em circunstâncias particulares que não lhe vou esclarecer) que sobreviveu à circunstâncias da sua invenção. É uma invenção totalmente artificial desde o que se convencionou ser o seu princípio, a queda de Roma, quando o Império Romano do Ocidente já se tinha desmoronado há quase um século, até ao que se convencionou ser o seu fim, a queda de Constantinopla. A queda de Constantinopla nada teve a ver com a Europa, que é do que falamos quando se fala de Idade Média. O mais perto que a Europa esteve de uma idade das trevas foi nos séculos IX e X, quando estava a ser atacada em todos os lados por viquingues, húngaros, e piratas turcos e do norte de África.

    5. @Eppicuro,
      Afinal você é apenas um bom-e-velho fanático. E nenhum bom-e-velho fanático que se preze se incomoda com factos.
      Que interessa que as convulsões humanas fossem as mesmas antes da «Teologia Abraâmica» ou que sejam as mesmas onde o Abraão não risca nada?!
      O que interessa é que o Eppicuro diz que as palavras mantêm o sentido e o uso desde a Antiguidade, e que quem não vê isso é analfabeto.
      Apenas um triste típico fanático.

    6. Sousa da Ponte revela a ignorância típica da universidade.

      Uma palavra é uma expressão, tal como uma expressão matemática. Quando alguém diz que 325 muda de valor ao longo do tempo percebemos que se trata de um ignorante. O mesmo se passa quando alguém diz que uma palavra muda de significado ao longo do tempo.

      Sousa da Ponte não sabe ler os significados das palavras. Não sabe sequer que se tratam de expressões definidas. Percebe-se, por isso, de onde vem a sua formação.

      O centro de analfabetismo medieval (a universidade) não tem cultura para saber a causa basilar que levou à crise do século III e respectivo fim da civilização.

      “Idade média” é um eufemismo, inventado para não chamarem pré-história retardada à plebe pré-histórica que passou a ter acesso aos restos da civilização, sem, no entanto, ter capacidade para a praticar ou sair do estado pré-histórico. O atraso cultural milenar da barbárie não desapareceu por “milagres de progresso científico”.

      Ainda hoje essa plebe – a barbárie ocidental – não tem capacidade sequer de saber ler (sair da pré-história). Para a barbárie ocidental saber ler consta de saber repetir os sons, que é o mesmo que dizer que saber matemática é saber os sons dos algarismos. É essa ignorância que o Sousa da Ponte apresenta.

      Não tente o medieval passar do chinelo do seu analfabetismo universitário.

    7. Não houve nenhum fim de nenhuma civilização no século III. A palavra escrita são símbolos num suporte material que só diz alguma coisa a quem os souber ler (transformar em sons) e interpretar (dar um sentido a esses sons). Já a fala é uma vocalização que pode não ter significado numas línguas e diferentes significados noutras línguas. “Uma palavra é uma expressão, tal como uma expressão matemática.” Tal como já lhe disse é feio utilizar a mesma palavra com significados diferentes na mesma frase. “uma expressão matemática” é um conjunto de símbolos matemáticos e quem define quais os símbolos que podem ser utilizados numa expressão é a comunidade dos matemáticos para comunicar entre si. (De nada servirá ao Eppicuro inventar símbolos matemáticos que só ele utiliza e de que só ele conhece o significado) ” palavra é uma expressão” (presumo que por palavra se esteja a referir a uma vocalização) quer dizer que essa vocalização tem um sentido, quer para quem a emite quer para aqueles a quem se destina. Eppicuro quando diz ignorante está a praticar um monólogo. “Idade Média” foi um conceito criado pelo Iluminismo no seu combate contra a Igreja Cristã. (O mesmo combate que o de Eppicuro só que ele não sabe) A civilização não desapareceu no século III. Continuou incólume na parte oriental do Império e foi definhando lentamente até ao século VIII na parte ocidental. Os séculos IX e X foram de crise e do XI ao XIV foram de ressurreição. A queda de Constantinopla para marcar o fim da Idade Média é absurdo. Eu conheço quatro acontecimentos candidatos ao lugar: As teses de Martinho Lutero na porta da Igreja de Wittenberg. A conquista de Ceuta que inaugura o ciclo das descobertas. A invenção da prensa de tipo móvel por Gutemberg. A criação do Estado Moderno em França (Coisa tão espantosa para a época que até a Sereníssima Republica mandatou um enviado ver que coisa maravilhosa era aquela que até levava os súbditos a serem espoliados de boa vontade pelos enviados do rei))

    8. Uma língua é uma ferramenta de percepção da realidade, que também serve para comunicar (transmitir percepções). Um matemático sozinho consegue calcular e chegar a conclusões certas, não necessita de terceiros. Os terceiros podem ter acesso a essas conclusões se souberem ler os cálculos efectuados. A linguagem escrita é uma ferramenta de percepção, sem ela deixa de haver a capacidade do “logos”.

      A língua revela o grau de percepção de uma cultura. Essa de ser apenas uma convenção é uma ignorância típica dos pré-históricos que não dominam a escrita. O inglês é uma lixeira linguística, por exemplo. O que revela o grau de percepção dessa barbárie tosca.

      O império Bizantino era cristão, não pertence à civilização, uma vez que apresenta uma cultura diametralmente oposta à cultura da civilização. O deus sozinho, anti-social e individualista, é a antítese dos deuses familiares, que vivem em sociedade com os valores dessa cultura de sociedade (civismo, civitas, civilização). Considerar os cristãos como parte da civilização é uma ignorância típica da cristandade.

      Observa-se o grau de atraso cultural e de ignorância, da barbárie ocidental, na forma tosca e ignara como a universidade vê os factos.

      O império Bizantino pertence à civilização, o renascimento marca o início da idade moderna, e a revolução francesa o início da idade contemporânea, não é?

      O facto de termos hoje o mesmo sistema feudo vassálico – onde servo troca a sua serventia (como trabalhador) pela segurança financeira do feudo (empresa) do senhor do mercado – é apenas uma coincidência. Não revela a continuidade da mesma idade, do mesmo atraso, nem das mesmas práticas, vindas dos mesmos valores culturais, decorrentes da mesma estrutura cultural. Pois não?

      Claro que não. Não podemos admitir que a universidade é um centro de imbecis, com as suas teorias erradas, de profunda ignorância, por mais que a história o revele repetidamente. Não é?

    9. E o mais irónico disto tudo é que o computador que Eppicuro usa, a electricidade que o faz funcionar, a Internet e a WWW são produdos dessa barbaridade cristã e dessa universidade agnara que Eppicuro tamto odeia e despreza. Não tem medo de ser contagiado?

    10. Não sabe o quer dizer logos?

      Biologia : bio + logos + ia.
      Cardiologia: kardia + logos + ia
      Tecnologia: tekhne + logos + ia

      Caro Sousa da Ponte não seja tão pródigo a demonstrar o seu analfabetismo.

  3. Boa posta,
    Não me diga que também esteve na feira em Berlim antes desta nova atrocidade? É melhor ir-nos contando aqui por onde anda para ver se escolho outro lado qualquer. Isto há coincidências…

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