Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

20 de Dezembro de 2016, 08:59

Por

Em Alepo está uma fronteira da humanidade

Em Alepo, a devastação da cidade lembra outros crimes desta dimensão e talvez por isso suscite estes momentos de emoção: isto é o que já vimos ou de que nos lembramos. Alepo é Faluja, ou os campos palestinianos de Sabra e Chatila, ou Grozni, ou Srebrenica, ou Gaza, ou também Varsóvia ou Guernica, os lugares onde um manto de bombas destroçou a vida das populações, alvos e reféns da guerra mais suja. Mas Alepo é também a nossa contemporânea Mosul, depois da chacina dos Yazidis pelo Daesh e onde os civis continuam aprisionados. Alepo é uma das vergonhas do século XXI e não é única.

Por isso, contra qualquer calculismo de alinhamento político nestes campos internacionais em que naufraga a razão, uma palavra de aviso: a única questão decisiva que está em causa é saber se a ONU consegue ajudar a proteger a população civil, ou se os vencedores da batalha, Al-Assad e Putin, permitem a salvação destas pessoas, ou se as milícias que governaram a cidade aceitam as garantias essenciais para a retirada das pessoas. A população é a única parte da guerra civil que não é guerra. Salvá-la é uma fronteira para a humanidade.

De resto, prudência. Nenhum jornalista independente conseguiu ter acesso a Alepo e não se sabe o que lá se passa. Prudência ainda, pois na Síria nada é o que parece. As mais improváveis alianças fazem-se e desfazem-se numa guerra em que a selvajaria é sempre maior do que o que conseguimos imaginar. Portanto, os únicos heróis são a população civil, ou o pessoal médico que resistiu aos bombardeamentos de Alepo, ou os que protegeram as vítimas. Nos dois campos militares, só o horror se confronta com o horror.

As milícias rebeldes são uma cornucópia de grupos políticos e de chefes militares cujo projecto é a destruição da Síria e a sua partição em protectorados. Será certo que, em 2014, o Daesh foi expulso da província, mas é um grupo que foi próximo da Al Qaeda, que tomou o nome de Al-Nusra e depois Jabhat Fateh Al-Sham, que dirige as operações militares em Alepo ao lado de milícias pró-turcas e outras. Portanto, ver os Estados Unidos a apoiar uma força militar do tipo da Al Qaeda só será surpreendente para quem não se lembre da história do apoio de Washington aos Talibans no Afeganistão (e portanto à Al Qaeda nas suas origens), durante a ocupação russa. E depois temos a Arábia Saudita, o Qatar, o Egipto, a França e a Turquia, e, sem pasmo, Israel, a apoiar estas milícias. Alguns dos piores inimigos juntam-se nesta empresa.

Do outro lado, a Rússia e o Irão, as duas potências emergentes no Médio Oriente, mas também a extrema-direita europeia com Le Pen à cabeça, ou Fillon, a garantirem a sobrevivência do regime de Bashar-al-Assad. Mas, como lembra um jornalista veterano da região, Washington já utilizou os préstimos de Al-Assad enviando-lhe prisioneiros da guerra iraquiana, para serem torturados nas prisões que agora a diplomacia norte-americana denuncia. O homem de Damasco era até há pouco um parceiro fiável. A política nem sempre é o que diz ser.

E depois, para confundir ainda um pouco mais o cenário, temos Trump, amigo de Putin, a tomar posse dentro de poucas semanas, razão para a precipitação da ofensiva militar do regime sírio, que quer conquistar a zona ainda antes da cerimónia de Washington. De todos os pontos de vista, Al-Assad, Putin e os governantes de Teerão são portanto os vencedores da batalha de Alepo, onde tinham toda a superioridade militar (as milícias não têm tanques, nem aviões, nem mísseis anti-aéreos). Foram eles que salvaram a família Al-Assad quando em 2011 multidões de jovens invadiram as praças, reclamaram a queda do regime e foram massacrados.

Assim sendo, prudência. Os campos desta guerra são tenebrosos. Salvem-se as vítimas de Alepo, agora é o que importa.

Comentários

  1. O poder não é humanista. É opressor, violento, interesseiro… Dele se diz: “Machado grande se não mata corta.”
    Poderes de vários territórios do mundo atiram-se aos sírios há anos e todos querem “molhar a sopa”, matam, violam, roubam, prendem, usam para tudo: escudo humano, imagem de compaixão, escravo para todo o serviço. É tudo isso a que tem sido sujeitos os sírios na sua pátria que tantos querem retalhar, ocupar, usufruir.
    É isso que continuaremos a contemplar servido ao jeito dos interesses que fazem notícias e opinião. O mundo não é melhor que isto.

  2. A Síria não tem uma guerra civil, uma vez que os grupos terroristas são maioritariamente compostos por estrangeiros, armados e financiados por estrangeiros. Estamos perante mais uma invasão de um país, perpetrada por um modelo de invasão diferente da do Iraque.

    O “exército” invasor é composto por grupos terroristas (“oposição moderada” e afins) bem equipado e armado. Não lhe faltam tanques (uma parte capturados ao exército sírio) nem os demais veículos blindados, nem equipamento anti-tanque (TOW norte americanos), artilharia e afins. Estão bem equipados e abastecidos regularmente.

    A população civil é usada como arma, pelas duas partes como é normal em todas as guerras. Agora está a ser usada como arma mediática pela parte que perdeu Alepo. A população não é tida nem achada pelos grupos de poder. O poder nunca quis nem quer saber da população, para o poder a população é apenas mais um meio a ser usado e abusado.

    Deveria saber que o poder (todas as figurinhas do poder em todos os tempos) considera-se a si mesmo como acima da população, e reserva-se o direito de usar, abusar, massacrar e matar a população.

    O poder é uma patologia social grave, cujos efeitos são as guerras, mercados e afins putrefacções comportamentais. Mas como vivemos na idade média dão mais importância aos parasitas (poder) do que à população e consideram as putrefacções comportamentais como algo normal.

    Enquanto derem mais importância aos agentes patogénicos (poderosos, os jogos e os “interesses” dos poderosos), do que ao corpo social o resultado são as patologias (guerras, mercados…). Como de resto é óbvio e patente durante toda a nossa querida idade média.

    1. Pela primeira vez, concordo em absoluto consigo. Não há, nem devia haver, outra forma de ver a “coisa”! A população é, e será sempre, um instrumento de quem faz a guerra, o poder. Já agora, sempre pelos mesmos motivos, “poder”!!!

      Triste mundo, o que vivemos!

    2. Muito boa reflexão. Discordo, contudo, pelo menos parcialmente.
      Com a ideia de que estamos na Idade Média não me custa concordar; mas custa-me muito admitir sequer que algum dia tenha havido outra Idade ou até que venha a haver outra que não essa.

      O problema não está nos poderosos. O problema está no próprio bicho. Ou não se contassem aos milhões os de entre a população que poderiam trocar de posto com os poderosos sem que se notasse a diferença.

      Pessimista? Não. Acontece que o único caminho que vejo para chegarmos a uma Idade melhor é aceitarmos o feio bicho que somos. E só depois de o reconhecer-mos poderemos melhorar.

      Cumprimentos.

    3. A idade média é a idade do cristianismo, começou com o cristianismo e vai acabar quando o cristianismo passar à história, como a patologia cultural que determina os comportamentos medievais. Estamos, por isso, ainda longe do fim da idade média.

      O poder actual é decorrente da insalubridade cultural vigente. A base cultural da barbárie ocidental é o deus sociopata e respectivo endeusamento dos sociopatas (poderosos). Enquanto existir esta base cultural Abraâmica – que valoriza o delinquente que faz um inferno para se impor a todos – vamos ter os efeitos dessa insalubridade cultural: a putrefacção social que dá as condições à formação do poder.

      A ausência de poder (a ordem) exige uma maturidade que a barbárie ocidental não tem e está longe de ter.

    4. @Eppicuro,
      Noto que tem uma opinião muito vincada; tão vincada que nem a tenta fundamentar.
      Por exemplo, eu adorava de saber que Idade de Ouro foi essa que precedeu o Cristianismo. Com os meus medíocres conhecimentos de História não chego lá. (Terá sido a Atlântida?)

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