Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

19 de Dezembro de 2016, 08:34

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Optimismo e pessimismo. E Alepo…

transferirNeste tempo de apressada e simplista etiquetagem por tudo e por nada, há uma bem velha, mas sempre presente classificação: optimismo versus pessimismo. E com uma tal dose de dualismo absolutista, que não há lugar intermédio para o optimista-pessimista e para o pessimista-optimista. William George Ward chamava sabedoria a esta equidistância, quando escreveu que “o pessimista reclama do vento, o optimista espera que ele mude, 0 sábio ajusta as velas”.

Por norma, o poder é o ponto de acumulação do optimismo (ou na sua versão mais pueril, da fantasia e na mais superlativa, do êxtase). E a carência do poder é o ponto de acumulação do pessimismo (ou na sua versão mais cínica, do cepticismo e na mais patológica, do fatalismo). Na política, basta fazer o teste de um qualquer dado social ou económico para esta evidência: uma maravilha para os primeiros, um desastre para os segundos.

Muitas vezes, falta-nos a dose certa. Quando se é pessimista, logo alguém “autorizado” ou “credenciado” chama a atenção para a necessidade de optimismo. Quando se está optimista, é-se olhado de soslaio e apelidado de lunático ou lírico.

Temos uma coabitação tumultuosa com estes dois estados de alma aparentemente opostos. Dentro de cada um e de cada um com o outro.

Mas serão mesmo opostos? Antónimos parece que sim. Antagónicos nem tanto.

O pessimismo alimenta-se da razão. O optimismo precisa da vontade. De certo modo, o optimismo precisa do sentido da esperança que o preserve dos excessos da razão. Vergílio Ferreira exortava: “Sê pessimista e age como optimista e terás sempre razão”.

Por vezes, é quase imperceptível a fronteira entre o optimismo e o pessimismo. O optimismo vive do futuro, o pessimismo pode consumir o futuro. Mas, o futuro do optimista pode ser pessimista, enquanto o passado do pessimista até pode ser optimista (daí a saudade).

Um pessimista – sói dizer-se – é um optimista bem informado, como que deixando antever a hegemonia da razão e do conhecimento sobre a vontade e a expectativa. Ao invés, poderemos dizer que um optimista é um pessimista bem formado, que ultrapassa a aspereza racional através do seu espírito, da sua vontade.

Um pessimista vê uma dificuldade em cada oportunidade; um optimista vê uma oportunidade em cada dificuldade”, sentenciou e praticou Winston Churchill.

Ser pessimista não é o mesmo que ser derrotista, como ser optimista não se identifica com ser ficcionista.

O pessimismo não é um estado de paralisia, como o optimismo não é uma vacuidade.

O optimismo é um desafio. Mas, o pessimismo pode não ser uma ameaça.

O pessimismo não pode ser uma prisão (“o pessimista é uma pessoa que, podendo escolher entre dois males, prefere ambos”, Oscar Wilde), como o optimismo não pode ser um logro (“optimista é um proponente da doutrina segundo a qual a cor preta é branca”, Ambrose Bierce).

O pessimismo assenta no mau, que não necessariamente no mal. O optimismo vive de braço dado com o bom, mas nem sempre com o bem.  São categorias filosóficas, mas não necessariamente éticas.

O pessimismo não se confunde com tristeza, como o optimismo não se miscigena com alegria.

O optimista para o ser com inteligência tem de ser, em parte, pessimista.

O pessimista para o ser com equilíbrio tem de ser, em parte, optimista.

E há quem nem sequer tenha direito ao mais empedernido pessimismo ou onírico optimismo. Por exemplo, em Alepo, onde só há morte, ódio, hipocrisia hedionda, banalização do mal, indiferença letal. Onde não há sequer o mais ténue tempo de vida para o discernimento do pessimismo ou para o voluntarismo do optimismo.

 

 

Comentários

  1. O optimista é tolo. É um sentimento nacional essencial. Qualquer português sabe isso. A única vantagem do optimismo é que de facto se “misegena com a alegria” o que é sempre sage. São mutuamente exclusivos. Não estará a confundir optimismo e fé?

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