Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

14 de Dezembro de 2016, 22:21

Por

O Natal dos consumidos (e um pedido)



shutterstock_312463934-810x540Estamos a breves dias do Natal. O que sobra em consumismo desenfreado (seja-se crente, agnóstico, ateu ou de um sincretismo de tudo e nada), falta em espiritualidade adventista. É assim cada vez mais, perante a primazia do (de)ter, do comprar, do usar, do trocar. Uma correria sem nexo, acorrentada pela obrigação, mais do que alimentada pelo coração. Uma permuta instrumental que transforma o prazer de dar em desprazer de despachar. Pessoas sujeitas à pressa, à quantidade, à turbulência cheia de vazio, num vaivém freneticamente estúpido.  Atafulham-se com listas e preçários, numa contabilidade que releva o presenteado em euros e compara as prendas natalícias com o custo do recíproco. Agora, até o Natal é antecedido por uma nova mercearia com nome inglês, pois claro: “Black Friday”. Nisso somos imparáveis, importamos tudo o que seja consumismo. É aproveitar a ilusão (e, às vezes, a trafulhice) dos preços em regime ioió, quer dizer subindo para depois descer e descendo para depois subir.

No fim, a exaustão do corpo, a carência do espírito, a inutilidade do gasto, a velocidade uniformemente acelerada da compra precipitada, o excesso das trocas e baldrocas, o vácuo depois da apoplexia. E lá se foi o Natal. Mais um. Com inutilidades de prendas (perdão, presentes, segundo os cânones socialmente correctos) condenadas ao esquecimento ou – quem sabe – a girar no próximo Natal.

Agora que vivemos no tempo dos smartphones e das redes sociais, outro martírio se nos depara. A enxurrada de “Boas Festas” e outras expressões do momento cai, em inusitada abundância, nas nossas maquinetas mais ou menos “smart”. Confesso que tenho saudades do tempo em que, por esta época festiva, se falava com a família e amigos. Agora é sempre a andar em jeito de poluição de afectos: centenas de SMS (e mails) de conhecidos, desconhecidos, ignotos, chatos e insinuantes. Sem selecção, sem critério, ao dispor de um dedilhar de um botãozinho. Abomino, sobretudo, os que logo percebo que foram enviados para um vasto conjunto de “amigos”, com “beijos ou abraços” ou, na linguagem cifrada e com correcção de género por via de um @, “abreijos” para todos “car@s amig@s”. E, também, os que, na obsessiva preocupação de não cair nas palavras simples e mais usadas, escrevem bizantinices florentinas, em prosa ou falso verso, que, de tão kitsch, me fazem perder o apetite mesmo diante de um bolo-rei.

Que saudades tenho do dia 24 de Dezembro sem esta parafernália de termos e desenhos tontos que, de tanta inflação de uso e de abuso, nada significam. Por isso, procuro preservar o Natal de família e de amizade. Das pessoas que me estão próximas no coração, não naquele dia, mas sempre.

Gosto do gosto de um Natal com a magia que advém (e não desaparece) do imaginário infantil. De um Natal que seja capaz de, por uns instantes, tornar os adultos mais crianças e as crianças mais meninos e meninas.  De um Natal em que o melhor não é tanto a data, mas a atmosfera dos dias que o antecedem, porque o melhor não é o chegar, mas o ir ao encontro de, não é o possuir, mas o viver.

Aproveito este “tudo menos economia” de hoje para clamar por uns dias natalícios de “tudo menos um tsunami de SMS e quejandos”. Depois de falar com quem quero, o meu telemóvel vai tirar uns dias de férias de e no Natal e transformar-se numa parede inexpugnável. Por favor, poupem os euros de mensagens que as operadoras vos facturam com tanto zelo! Assim, terei tempo para parar, contemplar, falar, pensar diante do aniversário do nascimento d’Aquele em que acredito. Com esperança e alegria.

Comentários

  1. Gosto do seu artigo.Pois eu sem grandes possibilidades, durante uns anos sempre tive uma lembrança para os mais pequeninos e os mais idosos.Porém hoje o Natal é para mim diferente alguns que muito amo estão doentes e ausentes da nossa casinha no Alentejo ,da nossa lareira pobrezinhos mas com muito amor ternura e união.Os nossos coraçoes estavam alegres cantávamos e comíamos uma filhó,fazendo intervalos para uma rizada das nossas vidas. Sempre a nossa música nessa noite era ao Deus Menino como os meus pais diziam,tenho muitas saudades desses Natais!Com todos os ausentes nos nossos corações será mais um Natal.Desejo-lhe um Santo e Feliz Natal.

  2. Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que se veja à mesa o meu lugar vazio

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que só uma voz me evoque a sós consigo

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que não viva já ninguém meu conhecido

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que nem vivo esteja um verso deste livro

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que terei de novo o Nada a sós comigo

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que nem o Natal terá qualquer sentido

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que o Nada retome a cor do Infinito

    David Mourão-Ferreira
    in Obra Poética II

  3. Já eu sou um Ditador da livralhada.E como metade da familia é catolica,e a outra metade é esquerdista,aos católicos,ofereço o Jorge Amado,e aos esquerdistas,ofereço o Nelson Rodrigues.E após a consoada,isto é,depois do bacalhau,lá se ha de chegar às virtudes destes dois excelentes escritores brasileiros.Boas leituras,de qualquer forma.

  4. Durante gerações insuspeitas, o ovo foi moldando as consciências e os gestos de pessoas com convicções empedernidas, ou se é cristão ou se é ateu. O ovo é suspeito de conter sempre algo no interior, ou o pinto ou a gema. Mas os tempos são de imaginação e como a inventiva corre mundo, surgiu por magia o ovo kinder, dando heterogeneidade à surpresa mas mantendo empedernida a convicção de que há sempre algo no interior. A questão é sensível, pois não há nada que mais perturbe o sistema nervoso do que quebrar-se o ovo e não haver nada dentro. É portanto isto que perturba certos seres habituados a colocar tudo em galhos inofensivos, onde tudo é previsível e manipulável, perceptível pela tragédia tecnológica. O nada é algo que dói nas entranhas, algo que nos faz ferver de impotência, algo que enerva a razão dos mais fortes e torna transparentes os inteligentes. Revejo-me nesse “sincretismo de tudo e nada” porque me sinto bem mais confortável num invólucro sem nada dentro, aí podemos avaliar o valor de cada coisa e de cada gesto, sem termos que dar cabimento aos cobradores de toda a espécie. O natal só não é consumista se o ignorarmos. Mesmo se oferecendo ovos sem nada dentro (a inutilidade do gasto ou a carência de espirito), estaremos a acreditar nas virtudes de algo como a caridade cristã ou a espiritualidade adventista, o que é sempre alguma coisa. A ausência de ovo é que é insuportável.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo