Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

12 de Dezembro de 2016, 08:26

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O lápis já não é o que era

homem empurra lápis pbVolto ao excelente filme “Eu, Daniel Blake”. A propósito de um pormenor (será?) na cena final da despedida do carpinteiro. Lá estavam os fiéis amigos, os jovens vizinhos que representavam a nova geração com novos sonhos e novos pesadelos, a funcionária da Segurança Social que, ali, simbolizava a coragem e o afecto de ter coração e de se ser solidário, desafiando as normas e os regulamentos (e, por isso, é repreendida pela chefe). E a mãe solteira – com os seus dois filhos tão iguais e tão diferentes no modo de serem crianças – que acompanhara Daniel na sua última tentativa para ver o seu processo de invalidez deferido. É ela que abre um papel amarrotado escrito por Blake e no qual exprimiu a sua paradoxalmente serena e inconformada revolta diante do júri de reavaliação. O essencial está no que lá escreveu, o pormenor no modo como o manuscreveu. Com um singelo lápis.

O lápis, o velho companheiro de vida de tantas pessoas é o lado antigo e oposto da face superlativamente nova de vidas subordinadas à miríade de instrumentos tecnológicos. Não se trata aqui de uma visão reaccionária ou conservadora face ao progresso material e comunicacional. Haverá, por certo, alguma nostalgia no detalhe do lápis. Mas o que representa, essencialmente, é um dualismo funcional e geracional que pode conduzir uma insuportável exclusão de uns e a uma pretensa superioridade de outros, que, não raro, não sabem o que é um lápis ou essa “união de facto” do lápis encimado por uma borracha, nunca escreveram com uma caneta de tinta permanente, ignoram o que seja um compasso e quase erradicaram a prática (física e intelectual) de manuscrever.

Evidentemente que o progresso técnico é uma importante condição necessária para o desenvolvimento, mas nunca será, só por si, uma condição suficiente se, às tecnologias, não estiverem associados o bem comum, a justiça social e geracional, o respeito pelo outro.

Na era da “cidadania electrónica”, os “netizens” são, hoje, uma expressão eloquente do saber mais democratizado (embora, neste contexto, sempre me lembre do que escreveu Jean Guitton: “se o livro tivesse sido inventado depois do computador teria sido uma grande invenção”). Mas quantas vezes, ao lado desse progresso, vamos deparando com uma acrescida aridez relacional, em alguns casos mesmo com uma diferente expressão da solidão, senão mesmo de isolamento e abandono. Nas situações mais extremadas, de um lado um novo cárcere, do outro uma velha exclusão.

Com toda a tecnologia à nossa volta, acentuou-se a divisão entre os cidadãos “funcionalmente significantes” e os “funcionalmente supérfluos”. Ou, de outro modo, os que só têm passado, os que só têm presente e os que só têm futuro.

Escreveu Bento XVI na Caritas in Veritate: “Absolutizar ideologicamente o progresso técnico ou então afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado originário da natureza são dois modos opostos de separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade”.

A técnica, em si mesma, é ambivalente. A tecnologia não tem rosto. É impessoal. Pode ser usada para o bem ou para o mal. A técnica existe para o homem, não o homem para a técnica. É um recurso indispensável, mas não se pode transformar num fim que domina ou aparta pessoas. Porque o fim somos nós mesmos, sujeitos do desenvolvimento (não é por acaso que o adjectivo que o acompanha é “humano”). Peter Ustinov dizia que “costumávamos fazer muitas perguntas para as quais não havia respostas. Agora, com os computadores, há muitas respostas para as quais ainda não encontrámos perguntas”.

E as respostas do lápis, agora fora do sistema, são desprezadas…

 

Comentários

  1. A técnica não é uma coisa de hoje, ela provém de milénios a acumular conhecimento. A técnica não é tão impessoal como nos quer fazer crer BF, ela está associada de forma inequívoca à prestação de cada indivíduo perante os resultados obtidos, como dizia Ravachol diante do Juiz que o condenava “não há inocentes”. Esta forma de querer mostrar os seres humanos sem uma consciência é um mito bem cristão, o ser humano só parece ter corpo para o pecado, a alma, essa, pertence a deus, qua a administra através da absolvição, do remorso e da comiseração. Se antes a técnica funcionou como instinto de sobrevivência do ser humano, hoje, envolto em técnica e encurralado na tecnologia, o ser humano perde-se em convulsões de ordem moral, tentando dar mostras de alguma humanidade mas da qual já só retira o corpo, morto, das sequelas, as considerações morais e deontológicas são meras construções da tecnologia. Repare-se que a realidade é bem mais profícua em termos do irracional que o filme “eu Daniel Blake” nos propõe, mas os seres humanos reagem mais prontamente às imagens do que à realidade; às imagens atribuem-lhe a etiqueta de obra-prima, já a realidade exige uma tomada de posição, uma atitude de confronto com o poder instituído, o que não está na natureza de grande parte dos seres humanos. Aliás, se já tínhamos Kafka, para quê desmultiplicar com Daniel Blake.

    1. Caro mescalito,

      O comentário a meu ver é um pouco críptico. Não percebi a relação entre Kafka e o filme. Será o absurdo? Talvez o castelo? Será isso? Talvez seja o castelo ou o processo os livros em relação com o filme. Acertei? Quanto à outra referência ao ravachol independentemente de não haver inocentes, tem alguma culpa quem mata culpados. Apetece, bem sei.
      Saúde e espero que a próxima vez em que te encontres com a “madre” ela te limpe a alma sem te bater muito. Espero o mesmo para mim. Já tentei dar umas indicações bem intencionadas aqui ao Professor sobre como se apresentar a Deus mas foram mal interpretadas. Saúde para ele também.

    2. Não é a relação entre Kafka e o filme que tem de apreender Adriano, é antes entre kafka e o irracional duma sociedade descaracterizada e desumanizada, onde até o emocional já só comunica através da ficção (o filme). A realidade expõe, melhor que ninguém, toda a patologia apresentada no filme, mas há cada vez mais pessoas a não detectar todos estes horrores de uma sociedade em plena desagregação senão na ficção, na “realidade” está tudo bem. Isto demonstra a profunda tirania que pode emanar mesmo de uma democracia quando, estando todo o aparelho social em disfunção, é capaz de o transformar em espectáculo, em obra prima e porque não, em crítica cinematográfica num artigo de jornal.

  2. E sobre o filme que ainda não vi por medo de ser muito violento, quero lembrar que é um filme da vida real pelo menos aqui em Portugal. Eu que sou novo (39) conheço dois casos parecidos. Um levou à morte outro graças a Deus ainda não. É verdadeiramente chocante, muito me admira a calma destas pessoas que não resolvem entrar pela assembleia da república aos tiros ou à bomba dado não terem nada a perder e depois de serem tratados desta maneira. Não sei se quando me calhar terei a mesma calma. Talvez…

  3. Boa posta,

    A tecnologia não é assim tão inocente e tão independente das pessoas. Parece que o limite entre mandar na tecnologia ou a tecnologia mandar em nós está no facto de a compreendermos ou não. Sempre que não a compreendemos associamos a magia e ganha poder aditivo. O telefone, a Televisao, o computador… já a enchada, a máquina de costura e o relógio mecânico não nos dominam.

    Sobre o lápis uma estória que mostra diferenças em pensar o mundo mas não se apressem a tirar conclusões sobre inteligentes e burros.
    Na corrida espacial, americanos e russos depararam-se com um problema: sem gravidade as canetas não escrevem. Os americanos alocaram recursos e depois de pensar no assunto e uns milhões de dólares à frente criaram uma caneta que escreve sem gravidade, debaixo de água e em qualquer cenário. Os russos levaram lápis.

  4. É o lado trágico da realidade que a bandidagem do capital transnacional com a mão corrupta de alguns cretinos internos nos querem capciosamente impingir, rebentando os Estados e dando rédea solta à desregulamentação global. É isto que queremos para o futuro? A sensibilidade apurada do cronista captou flagrantemente o drama e por isso se saúda a sua visão humanista.

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