Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

1 de Dezembro de 2016, 08:57

Por

Letizia vestiu roupa em segunda mão?

O país adorou. As televisões seguiram em directo os três dias, chave do Porto e chave de Lisboa, cerimónias de fraque, jantar em paço ducal, cada visita era uma revelação, esperava-se o momento em que a rainha ou o rei dissessem para algum doente, “levanta-te e anda”. Milagre suave foi em todo o caso esta adoração dos reis, antes dos que chegam pelo Natal e são companhia garantida. Mas estes, que enlevo, majestades, sabem mesmo dizer umas palavras em português. Nunca um chefe de Estado que nos visita teve direito a esta genuflexão.

Alguns partidos, cujo monarquismo foi sempre mal escondido na tristeza do fim da realeza desde há um século e na consumição penosa de D. Duarte Nuno pelos tempos modernos, rejubilaram como se o mundo se desfizesse em fogo de artifício, foram os dias mais felizes das suas vidas, uma vénia a um monarca e um beijo na ponta dos dedos de uma rainha e é a consagração de uma devoção. Enfunados, preparam agora uma revisão constitucional cirúrgica para impor a obrigatoriedade do aplauso de todos os parlamentares, sobretudo contra os toscos que acham que podem discordar de palavras régias, era o que faltava que a plebe se armasse em direito de opinião, no que isso poderia dar se lhes damos rédea solta.

A corte espanhola adorou também. Afinal, é a terceira vez que um rei de Espanha fala no parlamento português e nunca um presidente de Portugal falou nas cortes espanholas. Encontraram e submeteram uma diplomacia parola de um país que se acha pequenino e que não sabe exigir reciprocidade, assim ficou o registo de Portugal no itinerário dos reis. Portugal verga-se, entusiasma-se, desbarreta-se, festeja como se fosse a anunciação da ressurreição sabe-se lá do quê.

Mas foi então que caiu a bomba da desilusão. A SIC revelou, numa peça em hora de ponta, que a rainha afinal tinha usado num destes jantares de gala o vestido que já envergara num casamento no Luxemburgo. Logo no Luxemburgo, um país mais pequeno do que a Amadora, é claro que tem um duque, alguma coisa havia de brilhar, mas usar roupa em segunda mão? Repetir um vestido? Afronta, tristeza, ela se calhar não gosta de nós, veio por desfastio. E logo veio o pior, a humilhação. Afinal, noutro jantar os brincos eram os mesmos do seu próprio casamento. Em vez de os guardar em arca de cânfora, em redoma de vidro, ei-los a desempoeirarem por um qualquer jantar neste cantinho à beira-mar plantado. Mas nós não merecíamos mais? Não nos habilitamos a um Dior ou um Versace novinhos, por estrear? A pérolas ainda não gastas em galas? Somos a repetição de um evento luxemburguês ou a recapitulação do casamento? Pensava ela que não daríamos pela afronta, que ninguém faria televisão com isso, que os programas matinais não se incendiariam de despeito? Portugal gelou.

E, digo-vos, isto não é coisa que passe depressa. Não nos esqueceremos de como suas majestades nos trataram, levaram as chaves e nem nos deram a atenção de evitar roupa em segunda mão, pois sentimos estas escolhas, é de pequenos gestos que se fazem as grandes gestas.

Comentários

  1. Nuestros hermanos son um simplescitos de espirito e nosotros, de quando en quando, mui felizes de nuestra suerte, lhe damos estas alegriacitas.

  2. Detesto realeza e todo o desfile pindérico que traz consigo, mas detesto todo o tipo de realezas por isso gostava de saber a opinião do Sr.Professor sobre a realeza cubana dado que não me recordo de ler ou ouvir nada seu acerca do falecimento do Rei Fidel (o tal que abdicou em favor do irmão).
    Antecipados obrigados e se já falou do assunto queira o Sr.Professor aceitar as minhas desculpas.

  3. Pois, a república em Portugal foi instaurada em 1910, e em Espanha arredada desde 1931/39 por Francisco Franco,caudillo pela graça de Deus e doutros “democratas” dos mesmos bancos de escola, mas há muito quem ainda entoe a “Salve Rainha, Mãe da Misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, Salvé”,pois “os que vão morre Vos saúdam !”

  4. E caiu o Carmo e a Trindade quando um grupo de deputados não se levantou perante os aplausos a sua majestade espanhola. Razão de Estado, disseram uns; Javardíssima atitude, disseram outros, mas como têm mau perder, estes nem compareceram nas cerimónias do feriado de hoje, que desejavam que não o fosse, ou pelo menos legislaram nesse sentido; atitude repugnante vociferaram certos políticos, após pose encomiástica diante de suas majestades espanholas. Mas como não compreender este burburinho, se temos um Presidente da República que foi presidente da Fundação da Casa de Bragança? Os que gostam de se distinguir como “elites” dão-se todos bem, proferem em público elogios mútuos, não se evitam, cruzam-se nos seus smokings com sorrisos mútuos, enquanto balançam para o lado que lhe dá mais jeito. E no século XXI ainda temos majestades, reis e rainhas, viscondes e duques, vestígios de uma sociedade arcaica, que faz as delícias dos admiradores da União Nacional e de uma sociedade dominada por salazaristas, onde ainda impera a subserviência, os encómios, as vénias a reis e rainhas, a arrogância dos capatazes e dos chefes. Não há por acaso alguém que diga bem alto: estamos numa outra idade; estamos no século XXI, parem de tratar o “povo” como coitadinho, deixam-se de brincar à caridadezinha, e não enganem as pessoas, afirmando que suas majestades vieram aproximar os dois países da Península Ibérica. Vejam os miseráveis que rastejam pelas ruas em Madrid; deem mais direitos às regiões espanholas; parem de dar poder e dinheiro aos mais ricos, e aliviem a armadilha da dívida soberana, que impede aos dois Estados de cumprir na sua plenitude as suas obrigações sociais.

  5. Sr. Prof. Dr. Francisco Louçã,
    Apesar de não ser do seu quadrante político, reconheço a sua inteligência, a qualidade de alguns dos seus artigos e, mais do que isso, a justeza de muitas das suas posições. Contudo, não consigo deixar de comentar este seu artigo: a ironia é de mau gosto, algum ressabiamento é perceptível. Recordo a História e, queiramos ou não, somos filhos de « Espanha ». É natural o apreço dos Reis de Espanha por Portugal ( sem ingenuidade ) e é natural o apreço que possamos ter pelo Reino de Espanha e pelos seus mais altos representantes. Bater palmas não significa concordância com opções políticas. E, a bem da coerência, deixemos que sejam os Espanhóis a optar pelo regime que querem no seu país ( deles ). De outra forma, seria ingerência em terras de Espanha. De resto, não creio que Portugal tenha gelado. Aliás, os Portugueses decerto pouco se preocuparam com as roupas e jóias do casal real. A união Ibérica é muito importante para Portugal, nos tempos que correm. No futuro próximo, a médio prazo, ainda mais importante será. Não me leve a mal o comentário. Não leva carga negativa nem insultuosa.
    Cumprimentos. Rui Pinto

    1. Agradeço a cordialidade. Mas, sim, bater palmas a um discurso significa concordância. O parlamento é um órgão eleito e representativo, não é um corpo protocolar. Mas isso é o menos importante. O meu artigo é sobre a comunicação social: não tratam da mesma forma qualquer outro Chefe de Estado que visite Portugal. E pergunto porquê. Quanto ao episódio do vestido, há mesmo uma peça de telejornal da SIC sobre isso, parece brincadeira mas não é.

    2. Pois…. Durante decénios o mais alto representante do Estado Espanhol foi Francisco Franco, que de 1936 a 1939 liderou uma cruenta guerra civil contra a II República, no que teve apoio de Hitler, Musolini e Salazar contra o governo da Frente Popular (socialistas, anarquistas e comunistas) que vencera as eleições.A II República fora proclamada na sequência da resignação de Afonso XIII, Rei de Espanha e a monarquia foi restaurada em 1975 na pessoa de Juan Carlos, antecessor de Filipe VI. por mercê do ditador Francisco Franco. Quanto a João I, Nuno Álvares Pereira, Fernão Lpes, Afonso Henriques e os conjurados de 1640 devem estar a dar voltas no túmulo com o acrisolado amor desinteressado das Monarquias de Leão e Castela por Portugal.ao longo dos séculos.Para não falar na Galiza, na Catalunha, no País Basco que querem a independência

  6. OK, mas deviam ter explicitado melhor a razão por que ficaram sentados e não aplaudiram. A justificação dada, apesar de ser a mesma de Iglesias no Parlameto espanhol, perdeu-se, de tão vaga. Lá, em Espanha, é compreensível para a opinião pública, porque a situação lhes diz directamente respeito. Aqui, não, é apenas uma manifestação de republicanismo de princípio — espanhol, em Espanha — e o conhecimento do carácter usurpador da monarquia espanhola nem sequer faz parte da consciência política mais superficial. Logo, o gesto foi facilmente estigmatizado como falta de educação, falta de institucionalismo (?), falta de sentido de Estado, etc para gáudio da populaça.

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