Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

29 de Novembro de 2016, 10:27

Por

Finalmente, sossego na Caixa?

Golpe de teatro ao cair do pano: Domingues demite-se mas apresenta a sua declaração de interesses e vários administradores seguem o exemplo (mas não todos). Portanto, acrescentam logo as fontes anónimas pelas quais fala a administração cessante, o problema não era a declaração, é que a “falta de apoio político” podia “rebentar tudo”.

É difícil de acreditar que queiram que se acredite nesta fantasia, a não ser que nos expliquem que foi só insensatez que levou alguém a cavar o seu buraco prolongando deliberadamente a crise, que podia ter sido encerrada pelo menos desde o dia 7 de novembro, quando o Presidente da República sugeriu fechar o caso com a entrega da malfadada declaração. O que é certo é que estas fontes misteriosas que reproduzem o pensamento da equipa de Domingues não conseguem explicar por que é que então a entrega tardou três semanas desde que o Presidente lhes deu xeque-mate e o Primeiro-Ministro tornou claro que o governo não aceitava a isenção. E muito menos conseguem explicar qual foi então a razão da demissão: se não foi o papelinho, a “falta de apoio político” não qualifica pois beneficiaram de uma santa paciência institucional e de um infindável apoio mesmo enquanto meticulosamente destroçavam a sua própria imagem. De facto, parece ter sido Domingues e não o governo quem falhou ao compromisso estabelecido entre ambos há semanas. Portanto, lamento, mas não compro esta insinuação sobre a birra da administração e as grandes conspirações celestiais.

Curiosamente, Domingues consegue na 25ª hora alguns apoios curiosos, filhos da guerriúncula ou da exasperação, mas isso nada muda. Um deputado socialista e um dirigente de um grupo político invectivaram a aprovação parlamentar da imposição da obrigação declarativa, sugerindo que essa regra de transparência conduziria, numa vertiginosa sucessão de desgraças apocalípticas, ao colapso do plano de recapitalização. O governo enterrou esta tonteria sem dó nem piedade: o plano está aprovado e nenhuma peripécia destas o perturba. O Primeiro-Ministro, que percebe muito bem onde está o problema, veio na hora da demissão tranquilizar toda a gente, explicando que o plano de recapitalização continua de saúde e é indiferente ao naufrágio desta administração.

A ideia de que o parlamento se devia ter acobardado e recusado o dever declarativo, na esperança de que dentro de umas semanas ou meses o Tribunal encerrasse a questão, é uma graçola. Houve mesmo um dirigente de um partido que sugeriu que esta lenga-lenga continuasse até o Tribunal decidir, lá para o final do ano. É bom de ver que isso daria a Domingues uma nova esperança: se o parlamento lhe dá razão ao rejeitar uma norma que impõe o dever de declaração de interesses, mais um motivo para continuar a porfiar pela isenção majestática a que achou que tinha direito.

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, que vêem melhor o filme, suspiraram de alívio pela demissão e, sobretudo, pelo não arrastamento desta novela envergonhante. O PS encerrou o assunto evitando polémicas sobre o voto parlamentar, em que ficaria mal. O Presidente já tinha aliás sugerido que o Parlamento aprovasse a norma que ficou definida na semana passada e só pode ter-se regozijado com isso.

Ficou agora arrumada uma questão que o governo deixou agigantar e que, quando se tornou visível, já não podia resolver e só Domingues poderia encerrar, cumprindo a promessa que deve ter sido feita ao Presidente e ao Primeiro-Ministro no sentido de aplicar a lei, ou demitindo-se. Ora, a administração da Caixa preferiu fazer tudo o que de pior se poderia imaginar, arrastar a crise e agravá-la com uma argumentação jurídica obtusa, reafirmando mesmo agora o seu entendimento de que estaria desobrigada da verificação dos registos de interesses e património (alguns administradores mostraram que não se misturam com esta bizarria e merecem aplauso). Restava a demissão e, para o governo, esta é agora a menos má das soluções e, portanto, quanto mais depressa melhor.

Este processo teve ainda uma outra vantagem. Provou que o governo tem que preparar as decisões sobre a banca com cuidado e que não deve contar com seguidismo. Elas não estão abrangidas pelos acordos da maioria e por isso os novos acordos nesta área têm que ser construídos, na CGD, no banco mau, no futuro do Novo Banco, na resposta ao aumento dos juros externos e na gestão do sistema bancário.

Comentários

  1. Deixe-me so deixar uma nota a uma observacao que me parece excessiva. Antonio Costa nao sugeriu que o plano de recapitalizacao “é indiferente ao naufrágio desta administração” (certo que a motivacao para nao o fazer e que provavelmente iria contra as suas declaracaoes anteriores em relacao aos extravagantes ordenados e nao “querer correr riscos” com mas gestoes). O que ele sugeriu na entrevista foi que era preciso encontrar um nucleo gestor que lhe de continuidade.

    1. Não tem razão. Ele disse, e com razão, que o plano continua e é incólume à mudança de administração. Portanto, a demissão não provoca a queda do plano de recapitalização, o que foi sugerido pelas pessoas que critiquei.

    2. A má gestão da CGD não tem origem em nenhuma incompetência de gestores. Tem origem nas intromissões do poder político. De nada servirá pagar um ordenado milionário a um Domingues qualquer se continuarem as intromissões do poder político na CGD.
      Esta polémica toda em torno da nova gestão só serviu os que esburacaram a CGD. Já ninguém fala em saber para onde desapareceram os milhões da CGD.

    3. Mas a ideia é que continuem a desaparecer. Ou seja continuar a apoiar uma economia cada vez mais falida.

    4. “Mas a ideia é que continuem a desaparecer. Ou seja continuar a apoiar uma economia cada vez mais falida.”
      Os milhões que desapareceram não desapareceram por vontade de ajudar a economia.

  2. Eu espero e peço ao PM para nomear uma administração toda estrangeira, competente e acima de suspeitas.

    Pode ser que assim o PSD-CDS deixe a Caixa em paz, e o Bloco deixe de fazer favores á direita. Onde é que o Bloco tinha a cabeça para votar ao lado da direita, quando a direita nunca votou ao lado deles!? Voltamos a Syrizar e a fazer favores á direita alemã, como na Grécia!??

    Paz na Caixa!??? Com aquela gente fanática e desesperada no PSD-CDS, já de saída e disposta a incendiar tudo antes de sair!??

    Então não foi o Dr. Louçã que até fez um estudo sobre a renegociação da dívida, incluindo os podres dos bancos!? Onde é que acha que a direita vai atacar!?? Não é nos podres!??

    1. Deixe de lado a miopia partidária. Favor à direita seria fazer o parlamento aprovar que os administradores da Caixa não têm a obrigação de declarar rendimentos.

    2. Eles entregaram as declarações na mesma, mesmo depois de se demitirem…
      Para quê a aprovação daquela lei á pressa, passando por cima do Tribunal Constitucional? Não havia necessidade, a não ser uns favores á direita cavalgando ondas da Nazaré mediáticas…
      Se no PSD-CDS não estivessem aqueles líderes tão extremistas, este erro seria corrigido na paz e tranquilidade, sem tentarem prejudicar o sistema financeiro e os nossos empresários.

      Antes do Syriza, já cá andava o Bloco, a ajudar o nosso país, os mais pobres e indefesos. Nada de dar trunfos á direita, senão eles aproveitam para incendiar ainda mais…

    3. Repito, deixe a lógica partidista que justifica que alguns partidos votem contra as suas próprias posições. Favor à direita seria o parlamento aceitar que os administradores não têm que entregar declaração. Parece que no governo houve quem achasse que esse era um bom caminho e foi preciso vir mais tarde o PM dizer que a entrega era necessária. Devia então o parlamento votar ao contrário do que disse o PM? Não creio que a cobardia política seja um bom caminho: a lei é clara, é para todos, e os administradores (que pediram uma lei especial para os isentar) têm que saber que não podem ter uma excepção ad hominem. Ainda bem que o parlamento acabou com esta farsa, o país só pode agradecer.

    4. Será que o Nuno também tem culpas no cartório?
      Será que também é um dos cavadores do buraco da CGD?
      Sendo assim está justificada uma cegueira que nem umas palas do tamanho dos Himalaias justificavam!

    5. Parece que nesta história o Nuno consegue bater o ridículo AD HOMINEM!
      Então os administradores que pediram uma lei SÓ PARA ELES para não apresentarem as declarações depois queixam-se de uma lei ad hominem?
      Ri-di-cu-lo!

    6. Pois o problema é mesmo esse: pensar que só o Bloco era a favor da apresentação das declarações de IRS… passando por cima dos tribunais que já estavam a tratar disso e a corrigir os erros, ao lado de uma direita fanática e de terra queimada.

      Ou seja, Syrizar. Cavalgar essas ondas havaianas-nazarenas e movediças, do Mar Egeu mediático…

      Antes do Syriza, já cá andava o Bloco, que tanto ajudou e ainda ajuda os mais pobres e desfavorecidos, fundados por gente que sabia, como por um tal de Francisco Louçã…

    7. Nuno: quer criar polémica onde ela não tem que existir. Todos os partidos, e não só o Bloco, defendiam a obrigação de entregar declarações. Então porque é que o parlamento haveria de votar contra essa obrigação? Na politica não vale tudo, mas sobretudo não vale dizer uma coisa e fazer o seu contrário. Se o que defende é que se devia ter esperado algumas semanas ou meses pela decisão do TC, peço-lhe só que pense no seguinte: depois da feira que foram estas três semanas, a arrastar a CGD para o fundo, acha mesmo que era boa ideia esperar mais algumas semanas ou meses?

  3. Diz o povo “Aqui há gato”. Cá para mim esta demora toda foi para fazer alguma maquilhagem às declarações. O senhor Domingues deveria ser obrigado a entregar uma declaração de interesses à data da nomeação. Não com data de agora. Aposto que também tem algum sobrinho taxista da Suiça que de repente ficou rico.

  4. É pedir muito que todos os intervenientes neste filme deixem de olhar para o “umbigo” e olhem para o nosso Pais ?
    Acabe a jincana politica…..chega
    É urgente uma CGD a trabalhar para Portugal

    1. Cada vez estou convencido que esta foi uma trapalhada que nunca existiu.
      Criada pelo Costa para obrigar o PSD a ir atrás das manhas dele e habituar-se a apoiá-lo em nome do interesse de Portugal. Que será muito útil quando a geringonça se desengonçar e o Costa precisar do apoio do PSD para se manter no governo.
      Se o PSD roesse a corda, como roeu, basta culpar a intransigência da direita.

  5. Já eu tirei todas as duvidas,inclusive uma certa estranheza em relação ao jornal Publico:Basta lêr o editorial,para perceber que esta novela,é um balão de oxigenio para o Passos Coelho ,que aposta tudo no quanto pior para o país ,melhor para a estrategia do PSD.Inclusive,Passos coelho,ganhou mais um aliado:o jornal Publico.Extraordinario,este jornal que se junta ao CM,para fazer oposição ao governo de Portugal.

    1. Esta novela é um bote salva vidas para os que estão na origem da necessidade de uma recapitalização da CGD.
      Já viu como esta novela ofuscou todas as notícias sobre inquéritos à situação da CGD.
      O sossego na caixa de que fala Francisco Louçã é a paz podre dos cemitérios.
      Enquanto não soubermos como aconteceu a CGD não terá sossego.
      E não será João Lopes AKA José Socrates? É que a obsessão com as críticas dos jornais ao governo parece do mesmo quilate.

    2. O jornal Publico tem sido uma referência de informação. Quanto à novela da CGD, saiem todos mal. Conservar a CGD como Banco Totalmente Público, é um imperativo nacional e patriótico. Numa altura em que Portugal já não tem bancos portugueses ou em mãos portuguesas, este assunto não é de direita ou de esquerda. É de patriotismo. Num mundo cada vez mais global, mesmo com Trumps, Brexits, Renzis, Putins, etc., nenhum país consegue já sobreviver de forma isolada e fechada. Eu, que não voto, condeno o Governo de Portugal, por não ter sabido gerir este processo da CGD. E, no centro é que está a virtude. Social Democracia, sempre. Cumprimentos. Rui Pinto

    3. Excelentes criticas.Fazem lembrar aquela senhora que berrava:abaixo o Fidel Castro,viva o Donald Trump(o chamado mundo a preto e branco).Por outro lado,sim:auditoria á CGD ,mas uma auditoria de largo espectro,que apanhe governos do PS e PSD,ou seja o bloco central.

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