Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

24 de Novembro de 2016, 08:15

Por

De Leonard Cohen a Philip Glass

transferirglass-cbd87385300f03163adcbef662771999afa1dc76-s900-c85Uma pausa na espuma do quotidiano político que nos envolve. Entre o folhetim CGD (com uma Administração tipo pescada, que antes de o ser já o era…) e a novela OE, hoje escrevo sobre “tudo menos economia”. Sem mais. Da música, da vida, da sensibilidade. De Leonard Cohen ao minimalismo contemporâneo.

Leonard Cohen, agora em memória viva. Sereno diante das circunstâncias, sensível na sua obra, elegante no equilíbrio emocional, lento na sua pressa, congregador na diversidade, arrebatador na sua quietude, autêntico num meio de aparências, apóstolo do casamento entre ética e estética. Diante da única certeza na vida, ainda que incerta na data, o cantor e poeta canadiano baseou sempre a sua certeza na construção da dúvida e na reflexão diante da morte, que antes havia quase anunciado.

O tempo, essa inexorável medida da nossa existência, encarrega-se de nos aproximar do que já foi na ausência do que, às vezes, ainda é ou parece ser. A morte de Cohen fez-me juntá-la à (co)memoração de outros meus ícones musicais de menino e moço.

Em primeiro lugar, os falecidos Gilbert Bécaud e Jacques Brel. Restam agora Charles Aznavour e essa saudade do lado de lá do Atlântico que valia mais pela soma do que pelas parcelas, Simon and Garfunkel. Poderia, entre muitos, ainda falar da voz de água cristalina de Joan Baez ou da irreverência do agora Nobel da Literatura Bob Dylan.

Bécaud foi o intérprete musical mais generoso que conheci. Dava-se por completo, não poupava um miligrama de suor e trabalho ao que fazia, fundia-se nas qualidades de homem sensível, intérprete audaz, pantomina fulgurante, pianista talentoso. Com a sua imagem de marca, não cedia às modas do momento. A sua gravata às pintas ilustrava a sua irrequietude, paradoxalmente serena.

Nathalie foi o seu cartão de visita planetário. Nesta canção, Bécaud deu-nos, em quatro minutos, a expressão musicalmente talentosa da saudade, do desejo, do afecto, da memória, da alegria, da tristeza.

Jacques Brel, desaparecido tão prematuramente, foi um génio que até conseguiu fazer da sua Flandres, através de “Le plat pays qui est le mien”, um território paradisíaco. Assim como é impossível não continuar a clamar por Brel através de “Ne me quitte pas” ou de “Amsterdam”. A sua música vai direita à alma e aí ecoa serena e profundamente. É intemporal, eterna mesmo.

Esta minha viagem, reconheço que nostálgica, chega, nos dias de hoje, até à música minimalista contemporânea, de “fazer mais com menos”. Não toda, é certo. Entre os seus autores, elejo Philip Glass. Este sóbrio americano, agora septuagenário, tem sido o paradigma de uma música que alia, sem mácula, o sentido minimal do esteticamente puro com a sensibilidade de sons que dão às suas obras um imaginário poético.

O minimalismo de Glass atrai-me porque me deixa espaço para respirar. E é nesse meu espaço que redescubro sempre novas formas de sentir o que escuto. Aliás, é essa a grande atracção da corrente minimalista, que nos sugere ouvir diferente o que na forma é igual, porque a igualidade se mostra variável na recepção do nosso espírito. A repetição, essência do minimalismo, só o é na aparência do que nos é exterior. Tudo nele é circular, começa onde nós quisermos, termina onde determinarmos porque, em Glass, o princípio e o fim só existem na forma simples de quase não existirem.

Michael Nymann, Arvo Pärt, Górecki, John Adams, entre outros, são também notáveis compositores contemporâneos minimalistas que gosto de ouvir.

Et maintenant?”, cantaria (diria) Bécaud se cá estivesse.

Comentários

  1. Sr Félix, como seguramente tem conhecimento da obra de Terry Riley e Steve Reich, sugiro-lhe um projecto norte-americano que se incluirá, porventura, mais no meio do jazz que na música erudita, mas que, contudo, partilha de muito do minimalismo dos referidos: dawn of midi (https://dawnofmidi.bandcamp.com/).
    Continuem com o blog.

  2. Assunto interessante.

    Talvez o cantor-autor mais impressionante tenha sido Brel. Deixou raízes – muitos interpretaram temas seus.

    Paul Simon foi um grande criador. Hoje está escondido. Temas enormes: “Bridge Over Trouble Water” e “The Boxer”, dum álbum de 1970.

    Cohen muito divulgado. Um grande tema:”Nevermind”. Em português é como dizer:”Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar”(Jorge Palma).

    De França talvez incluísse George Brassens. Corrosivo. “Dans ma peau de meteque…”

    1. Peço desculpa pelas gralhas. Quis dizer “troubled” em vez de “trouble”.Quis dizer “Georges Moustaki” em vez de “George Brassens”.Quis dizer “Avec ma gueule de métèque” em vez de “Dans ma peau de meteque”.Renovo o meu pedido de desculpas.

  3. Também gostei da selecção musical com excepção do Charles Aznavour, que me dá sempre vontade de rir. Tambem ouviria esse programa de rádio. Parabéns por arejar o ambiente do blog.

  4. “Ó” Bagão, o minimalismo de Glass começa no início e acaba no fim.
    Enfim… todos passamos por maus momentos.
    Continue a ouvir música. Está no bom caminho.
    Luís

  5. Palmas,de pé.Afinal este blog até se chama Tudo Menos Economia.E a lista de musicos é impressionante(do lado dos franceses ,só falta mesmo o Serge Gainsbourg).Faça um programa de rádio,professor,nem que seja para mostrar á malta da rádio,que tambem é possivel passar musica sem ser esta charopada ,este pum pum pum,este dzzzzz ou lá o que é aquilo.E alem disso,não é nada nostalgico,o Miles Davis inovou e criou e é moderno sempre.Velhos são aqueles “novos” e “velhos” que tem muitas teias de aranha no sotão.

    1. Obrigado. Gosto de sair da política e da economia, ainda que reconheça que fazê-lo é menos apelativo (não sei porquê, confesso).
      Sim, tem razão. Não citei Gainsbourg ou Charles Dummont. E tantos outros…

    1. Obrigado. Conheço bem a música de Einaudi e, há anos, vi um excelente “dueto” dele e do nosso brilhante Rodrigo Leão.
      Quanto ao jovem islandês, também aprecio bastante.

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