Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

23 de Novembro de 2016, 19:41

Por

As primárias, tão caladinhas que elas andam

Trump ganhou as primárias do seu partido (e depois a presidência) e agora Fillon pode ganhar as primárias da direita francesa. No primeiro caso perderam os aristocratas republicanos e no segundo perderá provavelmente o senhor Juppé, apresentado em França como o bonzo da sensatez contra Le Pen. Ou seja, o “populismo” ganhou e a avenida foi aberta por este regime plebiscitário, que um dia foi apresentado como uma “renovação” do sistema político. Sim, foi renovação, mas exactamente aquela que mais se pode temer, o delírio da razão demagógica.

Não é que não estivéssemos avisados. Assim o escrevi e não fui certamente nem o único nem muito menos o primeiro: em Março, oito meses antes das eleições presidenciais norte-americanas, alertei para o mecanismo de promoção de Trump, que veio a dar no que deu. Fillon, mais discreto, mobilizou uma igreja e ficou à frente do herdeiro de Chirac, ou seja, tornou mais fácil o caminho de Le Pen. Alguém que promete despedir meio milhão de funcionários públicos, aumentar o horário de trabalho e reduzir os salários não será propriamente o campeão da popularidade junto de boa parte dos trabalhadores.

Mas o problema é mais essencial. É que é mesmo isto que as primárias produzem. Elas podem por vezes entreabrir a porta a outsiders com ideias novas, podem até ser usadas por pequenos partidos como forma de recrutar pessoas usando a sua aspiração política, mas essencialmente constituem uma nova forma de política: aquela em que irrompe o poder do dinheiro para promover candidatos, em que se mobilizam oligarquias mediáticas e em que a política é transformada num concurso de misses, manipulado como tem que ser. As primárias são uma fraude contra a democracia, pretendem desarticular a forma partido e fazer ascender essa massa mole de jogos contra a escolha política que responsabiliza, conseguindo transformar as carreiras individuais no facto constitutivo da acção eleitoral.

Trump e Fillon acabam do nos lembrar essa realidade. É, claro, o menor dos males desta desventura toda, mas é certamente por isso que os promotores das primárias andam tão caladinhos.

Comentários

  1. Não tenho militância em nenhum partido. Vejo que me atribui militância no PCP, afirmando que a minha crítica ao texto de Sampaio envolve a “repetição da resolução do comité central”. Desconheço em absoluto a dita “resolução” do comité central do PCP sobre o texto que Sampaio divulgou no “Público” (14 de Novembro); por isso, peço-lhe que, em resposta a este meu comentário, indique um “link” que me permita conhecê-la. A não ser que a “resolução” só exista na sua imaginação. Uma espécie de “aloucinação”, produzida por uma mente sectária.

    Quanto ao meu comentário ao texto de Sampaio, leu mal. Eu não escrevi que é igual ao do “Contentinho da Silva” que lidera a diplomacia portuguesa. Escrevi o seguinte, referindo-me às posições políticas subjacentes:

    “Não me parece que haja uma diferença essencial entre as posições de Sampaio e de Santos Silva, cada um com a sua retórica:

    a) Ambos pretendem “mais Europa” – numa desesperada fuga para a frente – como forma de lidar com a crise, com a defesa da moeda única, custe o que custar, e de tudo o que isso implica.

    b) Ambos lamentam a ausência de consenso nacional nesta matéria entre o PS e o PSD, reflexo provável da ausência de consenso entre as respectivas famílias políticas europeias, as duas alas do extremo-centro “europeísta”. Ambos usam a técnica da “amálgama” relativamente a todas as forças, de esquerda e de direita – extremas ou não -, que se atrevem a contestar o “status quo” europeu e a a sua eventual reformatação segundo o velho princípio leopardino de que “é preciso mudar tudo para que tudo fique na mesma”: para Santos Silva, Jorge Sampaio e “tutti quanti”, todos os opositores da política do extremo-centro merecem ser classificados como “nacionalistas” e “populistas”, devendo por isso ser conjuntamente combatidos.”

    Verifico que escreveu o seguinte: “Sampaio deixou de repetir o dogma de Bruxelas e faz muito bem. É por isso que Santos Silva veio logo criticá-lo (…)”. O que escreveu está duplamente errado:

    – Sampaio e Santos Silva continuam a defender a “moeda única” custe o que custar – o principal “dogma de Bruxelas” – e a atirar à cabeça dos que, em Portugal e no resto da Europa, não defendem isso mesmo, a cassete do “nacionalismo” e do “populismo” (podiam ter acrescentado, p.ex., a cassete do “sectarismo”).

    – O texto de Santos Silva (15 de Novembro) não é uma crítica ao texto de Sampaio; aliás, nem sequer o menciona (o que parece natural, dado que foi publicado logo no dia seguinte). Ambos os textos devem ter sido redigidos nos dias que se seguiram à vitória de Trump, e como reacção a essa vitória.

    A terminar, espero bem que, nos próximos tempos, quando a possibilidade de dissolução da presente União Económica e Monetária estiver na ordem do dia, o BE assuma a posição certa, mesmo que Sampaio et al defendam o contrário. É mesmo isto que a “Esquerda” toda tem de debater.

    1. Muita modéstia sua. Quanto ao essencial, o todos-iguais tem o valor que sempre teve: é inútil para a análise e prejudicial para a política. Só conduz ao sectarismo, que é uma forma de auto-condescendência.

    2. Francisco Louçã nega que seja cada vez maior a (e sejam cada vez mais os casos de) promiscuidade entre os deputados e os interesses financeiros que gravitam em torno do estado?
      Quantos deputados (para só falar desses) são ao mesmo tempo colaboradores das sociedades de advogados contratadas pelo estado para produzir legislação. Serão complexo de perseguição pensar que fazem leis com buracos à medida dos seus outros clientes?

  2. “É que é mesmo isto que as primárias produzem. Elas podem por vezes entreabrir a porta a outsiders com ideias novas” – Declaradamente antidemocrático e a chamar de menoridade o povo com as suas decisões… Lindo, vindo de um autoproclamado “democrata”.

    1. Ainda bem que cita. A frase completa é: “É que é mesmo isto que as primárias produzem. Elas podem por vezes entreabrir a porta a outsiders com ideias novas, podem até ser usadas por pequenos partidos como forma de recrutar pessoas usando a sua aspiração política, mas essencialmente constituem uma nova forma de política: aquela em que irrompe o poder do dinheiro para promover candidatos, em que se mobilizam oligarquias mediáticas e em que a política é transformada num concurso de misses, manipulado como tem que ser. As primárias são uma fraude contra a democracia, pretendem desarticular a forma partido e fazer ascender essa massa mole de jogos contra a escolha política que responsabiliza, conseguindo transformar as carreiras individuais no facto constitutivo da acção eleitoral.”

    2. Nem os partidos são imprescindíveis à democracia. Nem a democracia aos partidos.
      Partidos sem democracia não é preciso ir muito longe para os encontrar. A Coreia do Norte é um bom exemplo.
      Para encontrar democracia sem partidos já é preciso recuar até à Grécia clássica, a Atenas, para encontrar uma democracia sem partidos.
      O sorteio para nomear os membros das assembleias deliberativas é o caminho do futuro. Permite tirar a democracia de buraco onde a democracia representativa a meteu. Esse buraco tem nome: partidocracia. Um simulacro de democracia em que o poder foi capturado por lóbis que exploram o estado em seu proveito. A situação que se vive na AR é mesmo essa, a maioria dos nossos representantes representam-se a si próprios, aos escritórios de advogados que fazem as leis com alçapões à medida dos seus clientes e as grandes empresas de construção e outras que vivem das PPPs e outrios contratos milionários com o estado.
      Pode ser tolice dizer que só os cultos podem votar mas já não é tolice dizer que só os cultos é que podem ser eleitos.
      Entre outros podem ler os Federalist Papers, na parte onde justificam a escolha da democracia representativa.

  3. As vantagens e os riscos do sistema de primárias são de facto discutíveis mas é preciso uma discussão mais imparcial e objectiva do que aquilo que o Francisco Louçã normalmente produz. Dizer que são «uma fraude contra a democracia» é esquecer que há outros que dizem que a democracia é que é uma fraude.

    Quanto ao Fillon, até pode ser bom para dividir a Direita e abrir caminho a uma vitória da Esquerda, se esta conseguir apresentar um candidato forte (o que infelizmente não se vislumbra).

    1. Um dos exemplos de fraude é a forma como certos partidos fazem rodar os deputados.
      Um deputado que foi eleito retira a legitimidade dos votos numa lista de deputados.
      A questão é que quando esse deputado é substituído, qual a legitimidade de quem o substitui? A quem pertencem os votos?

  4. A mim parece-me que esta falada democracia “representativa” iria sempre desembocar nisto, até porque de democracia tem pouco, já que uns tantos “iluminados” anónimos decidem por todos e o que eles representam são os interesses de alguns, em detrimento dos interesses daqueles que supostamente os elegeram. Acho que está na hora de colocar de lado este modelo e prosseguir para outro bem mais justo e seguro: a democracia participativa.

    1. Não deito fora o bebé com a água do banho. A água do banho é o sistema eleitoral. O importante é a liberdade que a democracia nos permite. Todos os sistemas são tão bons ou piores com a democracia, sem a liberdade que esta nos dá. Mais vale uma má democracia que uma boa ditadura.

  5. Os sistemas presidencialistas, como o americano ou o francês, revelaram desde sempre, que o presidencialismo é o sistema mais favorável á constituição de poder absoluto, com diminuição do escrutínio e do poder de Senados, Congressos ou Assembleias , mais ou menos, republicanas e democratas.De onde resulta, a vulnerabilidade do sistema a conceder o acesso directo ao poder, a possíveis aventureiros, insuspeitos arrivistas, ou a desastrosos projectos de poder personalizado.A escolha do candidato, nas primárias norte-americanas é um exemplo recente de como a afirmação de meia dúzia de falsidades, com mais meia de banalidades ,sem sentido algum e ainda menos viabilidade de execução, podem empurrar um candidato até â presidência. As primárias para escolha dos candidatos da direita, em França, ao contrário, são os serviços mínimos de quantos não esperam que o candidato das direitas seja outro que não seja Marine Le Pen, mas vão mantendo o jogo das aparências, para simulacro do funcionamento plural da República e da democracia.

  6. N, Taleb nao poderia ter descrito melhor a minha sensação: “The IYI (intellectual yet idiot) pathologizes others for doing things he doesn’t understand without ever realizing it is his understanding that may be limited. (…) When plebeians do something that makes sense to them, but not to him, the IYI uses the term “uneducated”. What we generally call participation in the political process, he calls by two distinct designations: “democracy” when it fits the IYI, and “populism” when the plebeians dare voting in a way that contradicts his preferences.

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