Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

5 de Outubro de 2016, 22:48

Por

Parabéns que há tanto que fazer

A eleição de Guterres para Secretário-geral das Nações Unidas é uma satisfação rara numa cena internacional que está carregada de ameaças, do governo de Orban ao referendo italiano e ao impasse espanhol, das eleições norte-americanas ao corrompimento de partidos brasileiros, das eleições francesas às alemãs. Aliás, a sua vitória sublinha paradoxalmente um dos aspectos dessa ameaça, pois o colapso da manobra de última hora de Merkel e Juncker revela como a chefatura europeia se vai tornado irrelevante, excepto porventura para nos atormentar. Guterres será assim o secretário-geral da ONU num mundo cada vez mais perigoso e descontrolado, com guerras eternizadas, ditaduras emergentes, uma Europa desaparecida e uma radical viragem à direita em países determinantes, ou ainda alterações climáticas em contagem decrescente em nome de uma economia predadora.

Podemos e devemos festejar então a sua vitória porque é a pessoa mais indicada para o lugar, como demonstrou ao longo de dez anos à frente do trabalho com os refugiados, como comprovou com as suas palavras a respeito do acordo da União Europeia com a Turquia, e como ficou evidente pela sua atitude em relação a guerras e tormentas. Em todos esses momentos, ele foi claro e corajoso, independente e estratego. Merece os parabéns por esta vitória extraordinária.

Por ser português, talvez sintamos motivo de contentamento, sobretudo porque recentemente fomos envergonhados por um outro ex-primeiro ministro. De facto, a diferença entre a vida política de Guterres e a de Durão Barroso desde que deixaram de ser primeiro-ministro de Portugal diz tudo sobre os seus conceitos de vida. Mas ser português não é nem qualidade nem defeito que deva ser considerado nesta eleição na ONU (curioso é verificar as declarações de amor à portugalidade de Guterres pelos mesmos que alertam o povo contra toda a tentação “nacionalista” na decisão sobre as nossas vidas). O que importa para as Nações Unidas, e também para nós neste cantinho à beira-mar plantado, é simplesmente que seja a pessoa mais adequada para lidar com o mundo em fragmentação, pelo menos no alcance do que pode fazer. E é por isso que Guterres é indicado para o lugar. Parabéns, portanto.

E há tanto que fazer. Salvar os refugiados das guerras numa Europa que os quer aprisionar e num mundo que os quer ignorar, e parar a guerra da Síria, onde os Estados Unidos, a Rússia e algumas potências regionais ensaiam a sua capacidade destrutiva, pois desistiram de qualquer negociação ou solução, são tarefas que ultrapassam a boa vontade da pessoa certa no lugar certo, porque invocam os poderes do mundo. Mas se é certo que o pessimismo da razão não ofusca o optimismo da vontade, Guterres fará por mudar algumas das alavancas do nosso tempo. Precisamos disso e precisamos dele.

Comentários

  1. Parece que a ONU (a malta gosta de pronunciar “Ónu”) é um pormenor; o relevante, o que justifica o mais parvo foguetório, é que a “tenha ganho” um português… Sempre ridículos!

  2. Parabéns pelo excelente artigo de opinião. Oxalá o mundo caminhe para um melhor entendimento, na procura da paz e da justiça social.

  3. Um mundo cada vez mais perigoso e descontrolado?

    O mundo nunca foi tão seguro e tão controlado. De formal geral, nunca existiu um período da história com menos doença, fome, violência e pobreza.

    1. A percepção varia com o ponto do globo e do lado do espelho em que nos localizarmos.Há quem ,no deserto, veja sempre o sol, desde que não tenha a cabeça enterrada na areia.

    2. Daí a utilização da expressão “De forma geral”. A perspectiva utilizada por Francisco Louçã foi global, e nessa perspectiva é inequívoco que, tanto quantitativamente como qualitativamente, o mundo nunca foi tão seguro e tão controlado. Não é opinião. São factos e números.

  4. Sem dúvida, brilhante: o reconhecimento externo de uma personalidade exemplar e de valor. Brilhante e Honroso.

    Internamente o facto devia ser amplamente aproveitado como referência futura da integridade exigida aos políticos, tanto como pedagogia como em remição da fase negra que atravessamos com os maus exemplos dos trafulhas que por cá persistem.

  5. Poucos serão os portugueses que ficarão indiferentes á nomeação de António Guterres como secretário-geral da ONU.Apesar de uma campanha bem organizada e sintonizada entre os poderes políticos e de um consenso alargado a todos os dirigentes e responsáveis partidários, foi um resultado que se deve aos méritos e ao percurso internacional do candidato do que a qualquer apoio das instituições nacionais á candidatura.E são esses méritos e as prioridades que, repetidamente, veio a enunciar nas várias apresentações do programa de candidatura, que poderão impulsionar e ajudar a recuperar o crédito de uma organização que se tornou demasiado discreta e excessivamente pouco relevante durante o mandato do seu antecessor.A energia não poderá abandonar a convicção do novo secretário-geral, para conseguir fazer confluir as vontades de poderes distintos, no diálogo prolongado e no entendimento partilhado de que as urgências dos problemas a solucionar deixaram de ser imperativas e passaram a ser dramáticas.As catástrofes humanitárias em curso, como resultado de conflitos e guerras intermináveis, ou em acelerada formação, como os conflitos em crescendo na Somália, no Sudão do sul e noutras zonas de África, os êxodos e a fuga de milhões de refugiados, a aceleração das alterações climáticas e as catástrofes climatéricas associadas, são a próxima agenda da organização que passou a ter como responsável o português António Guterres.Só podemos desejar-lhe os maiores sucessos, a bem do mundo e da humanidade.

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