Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

2 de Outubro de 2016, 12:57

Por

Jogo de xadrez entre os EUA e a UE (i.e., a Europa alemã)?

O Departamento de Justiça dos EUA (USDJ), ao recomendar a aplicação da multa de 14 mil milhões de dólares ao Deutsche Bank, pode ter, “como quem não quer a coisa”, dado um sinal de discordância (e de retaliação) em relação à decisão da Direcção Geral da Concorrência (DGComp) da Comissão Europeia sobre a Apple.

Um sinal de que as autoridades dos EUA veem a decisão da DGComp como um ataque a empresas americanas e um “roubo” dos impostos que estas empresas iriam mais tarde pagar nos EUA (estão obrigadas a pagar uma taxa de “IRC” de 35% menos os impostos pagos no estrangeiro).

Já defendi aqui, que embora não considerando aceitável a decisão do USDJ, me parecia uma jogada tipo “xeque-mate” com o movimento (único) de abertura.

Neste tipo de jogos estratégicos (jogos negociais), parece-me que a melhor resposta da União Europeia e, em particular, a melhor resposta da Alemanha, seria fazer o que fazem jogadores de xadrez, jogadores de jogos de computador (contra o computador ou contra jogadores experientes) e, em alguns casos, até comandantes de exércitos.

Quando se nota que se cometeu um erro grave logo no início do “jogo”, então dá-se o jogo por perdido e começa-se de novo. Um pouco a ideia de que, para se ganhar a “guerra”, é necessário saber perder a batalha, logo no início, minimizando as perdas. No caso de um conflito militar afigura-se-me que, não faz sentido, e é criminoso, sacrificar vidas de soldados numa batalha em que o comandante tem quase a certeza que está perdida à partida (a não ser que existam outras razões para tal).

Por conseguinte, seria de esperar da Alemanha uma resposta deste tipo, a este sinal do USDJ. Mas neste tipo de jogos estratégicos, são frequentes respostas surpreendentes, inesperadas e mesmo geniais, da Alemanha.

Um esforço do governo da Alemanha, procurando um recuo da DGComp e da Comissão, teria sido mais razoável, considerando as declarações do Ministro das Finanças Wolfgang Schäuble, que também disse, a 10 de Setembro: “os meus peritos dizem que não sabemos o que a Comissão quer dizer” com a sua decisão; dando a entender que a Alemanha (e os seus especialistas) têm dúvidas sobre a posição assumida pela Comissão Europeia (DGComp) em relação à Apple (tese que já aqui defendi).

Ora a revista Focus alemã publicou um artigo no fim-de-semana passado, segundo o qual Angela Merkel teria rejeitado a hipótese de um resgate público ao Deutsche Bank. Angela Merkel teria alegadamente tido conversas com o CEO do Deutsche Bank durante o verão sobre essa matéria, tendo este, no entanto, negado ter solicitado ajuda estatal.  Por outro lado, Andreas Dombret, membro do conselho executivo do Bundesbank com o pelouro da supervisão, num discurso em Viena a 27 de Setembro, comparou grandes bancos a dinossauros que enfrentam a ameaça de extinção e que não se devem suportar “zombie banks”. Parece, pois, ter ficado implícito neste discurso que o Bundesbank defende que, se o Deutsche Bank violar os rácios de capital mínimos, devem ser aplicadas as regras da União Bancária que obrigam ao “bail-in” de credores.

Um membro destacado da CDU, Hans Michelbach, argumentou que, perante a opinião pública, é indefensável ajudar o Deutsche Bank com dinheiros públicos.

E a imprensa alemã, certamente inspirada por fontes do Governo, afirma  que a chanceler alemã Angela Merkel não se pode dar ao luxo de comprometer o Governo alemão num resgate ao Deutsche Bank, porque  poria em causa as regras da União Bancária (de que a Alemanha tem sido a mais acérrima defensora, tendo contribuído para o seu desenho), o que permitira à Itália ajudar os seus próprios bancos, abrindo-se assim a caixa de pandora.

Ou seja, o sinal das autoridades alemãs ao USDJ afigura-se uma jogada de resposta da Alemanha. Ao invés do recuo, que aparentemente seria mais lógico, a posição da Alemanha parece ser de ataque: se o Deutsche Bank falhar, aplicam-se as regras vigentes. Por conseguinte, as autoridades alemãs não mostram, pelo menos para a opinião pública, que empreenderão esforços para fazer a União Europeia recuar na sua intenção de aplicar impostos, desde 2003, a empresas americanas.

A notícia sobre a posição de Angela Merkel de que não será concedida ajuda ao Deutsche Bank saiu no último fim de semana e, numa primeira impressão, afigura-se um remake da actuação de Angela Merkel em relação à Grécia. Não haveria resgate …até que o resgate ocorreu. Mas será mesmo assim? As aparências tendem a enganar nos jogos de xadrez que a Alemanha empreende…

Na terça-feira, 27 de Setembro, isto é dois ou três dias depois, a Bloomberg informa que o USDJ está a procurar avaliar a maior multa que pode impor à Volkswagen AG – em resultado do escândalo das emissões – sem que a multa leve a Volkswagen à falência. O grupo Volkswagen, o maior grupo industrial da União Europeia, é maioritariamente detido por uma das famílias europeias mais poderosas da Europa, que certamente saberá exprimir as suas preocupações a Angela Merkel.

Teremos assim um xeque-mate, afinal?

Parece-me que a resposta final da União Europeia será um recuo (parcial) em relação à Apple e a outras multinacionais americanas e é provável que a Alemanha, mesmo deixando cair o Deutsche Bank, exerça pressões nos bastidores sobre a actuação da DGComp em relação a empresas americanas.

 

 

 

 

P.S.- A posição de liquidez do Deutsche Bank é muito robusta. Por conseguinte, parece, numa primeira análise, difícil que uma corrida e ataque especulativo ao banco possa ter sucesso, mas …

Um tema a abordar no meu próximo post.

 

Comentários

  1. a leitura geopolitica funciona sempre bem como conversa de café mas esta das multas do DE pelo DOJ é pura teoria da conspiração. Dos responsáveis pelas trafulhas de 2008 no mercado imobiliário americano – Bank of America, Lehman Brothers, morgan Stanley e Deutsche Bank (eu estava já aqui nos USA e apanhei a crise em cheio, com a compra torturada da casa pelo meio) só faltava ajustar contas com o último. Os outros dois foram desfeitos e o primeiro (BoA) foi multado em $16.65 billiões (dos $14B de multa ao DE parece que nem 5 vão pagar depois dos arranjos de bastidores). Uma certa esquerda “literada” (não PC) do continente está a cair mais uma vez no apoio desqualificado de mais um projeto totalitário e antidemocrático – a UE. Em vez de recusar o projeto como aquilo que é de facto, continua a procurar justificações e esquemas para a sua “reforma”. Não admira que seja ou bem à sua direita ou um bocadinho à sua esquerda que estas correcções do totalitarismo acabem por acontecer no continente. Têm de arranjar maneira de sair do café, não há justiça social se não houver democracia primeiro. Os ajustes de contas com os bancos que comem democracias não deviam merecer a vossa oposição, venham eles da direita ou da esquerda.

  2. O que a Alemanha se prepara para fazer é simples. Fazer as empresas americanas pagar os impostos “devidos” e atirar a Irlanda para a lixo financeiro logo após os americanos dali tirarem os seus investimentos. Quando a Irlanda passar a lixo lá virá a corja do Bce e seus muchachos alemães emprestarem dinheiro e fazer o begger your nighbour. Esses empréstimos hão – de tirar o deutchebank da situação em que está metido. E/ou com sorte ainda arranjam forma dos países europeus pagarem a digida de um banco alemão. Desta forma sacam dinheiro duas vezes. Dos impôostos devidos dos americanos e dos juros a tiraram a Irlanda da fossa.

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