Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

29 de Setembro de 2016, 13:40

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Proibido fumar ou proibir fumadores?

fum150.626-228x228Há dias, como leitor assíduo do Ciberdúvidas, li um texto interessantíssimo assinado pela professora Isabel Casanova. O tema abordado relacionava-se com a generalizada e obrigatória indicação nos restaurantes sobre a proibição de fumar (“PROIBIDO FUMAR”). Acontece que há avisos que têm uma diferente formulação, como, por exemplo, “NÃO FUMADORES”.

Ora tal condição está notoriamente deslocada. Para fumador ou não fumador, o que está interdito é fumar. Eu que nunca fumei um cigarro na vida, bem poderia estrear-me num local para “NÃO FUMADORES”, ainda que a lei mo proibisse. E o inverso ainda é mais paradoxal: sendo fumador teria que ficar à porta, mesmo que jurasse não fumar durante a refeição. Como escreveu a autora citada “Ser e fazer não são sinónimos”.

Esta situação faz-me lembrar um célebre paradoxo formulado, em teoria dos conjuntos, por Bertrand-Russell que diz assim: suponha uma pequena aldeia onde o único barbeiro barbeia todos os homens que não se barbeiam. Então pergunta-se: quem barbeia o barbeiro. Das duas uma: ou ele se barbeia, mas como ele só barbeia quem não se barbeia, então chega-se à conclusão que não se barbeia. Ou o nosso barbeiro não se barbeia, mas como ele barbeia todos os que não se barbeiam, então ele acaba mesmo por se barbear. Será o nosso barbeiro um mentiroso ou o ser e fazer também aqui não são sinónimos?

Já agora, pegando no aviso sobre os fumadores, poderíamos idealizar um outro exemplo em forma de caricatura: um café que não vende bebidas alcoólicas, se seguisse a norma dos “Não fumadores” lá teria o aviso “NÃO BÊBADOS OU ALCOOLIZADOS” em vez de “PROIBIDO O CONSUMO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS”. E assim o embriagado não poderia ir curar a carraspana com um café duplo e bem forte, ou comer o seu croissant com sumo de laranja.

E “PROIBIDA A ENTRADA DE ANIMAIS” como se resolverá se o dono do dito animal for analfabeto ou não entender a língua do aviso. Isto, porque parto do princípio que o animal não entende o aviso que lhe é directamente dirigido e, sobretudo, depois do seu dono perceber que a regra não é seguida para todos os animais. As moscas e melgas que o digam.

Comentários

  1. O paradoxo do barbeiro resulta de a afirmação descrever o que o barbeiro faz em termos que dependem daquilo que ele faz (ou não faz) a si próprio. As afirmações que contêm autorreferências podem ser paradoxais e devem ser evitadas.

    Outro exemplo famoso de uma afirmação (ela própria autorreferente) paradoxal é “tudo o que escrevo é falso”. Por outro lado, a afirmação autorreferente “tudo o que escrevo é verdade” não é paradoxal, embora possa ser falsa.

    A proibição de permanência de “fumadores” num local não é paradoxal. Os seus efeitos dependem do modo como se define “fumador”. Se definirmos fumador como alguém que já fumou alguma vez, obtemos o efeito não desejado descrito no artigo. Se definirmos fumador como alguém que está a fumar, então o efeito já é o pretendido pela legislação.

    A segunda definição é razoável. Também definimos “doente” como alguém que está doente e não como alguém que alguma vez esteve doente.

  2. Não são só as moscas e as melgas que entram mesmo sendo proibida a entrada de animais; o animal do outro lado da trela também entra. Temos de chegar a isso, se queremos realmente ser literais.

    1. O humano não se considera um animal. É um semi-deus, macacos-deuses como o meus pai dizia. O nojo não é mais do que o medo de nos confundirem com nós próprios. É por isso que se censura urinar nas paredes.

  3. Faltou-lhe o mais importante. E as fumadoras? Urge corrigir esta gritante diferenciação no tratamento das mulheres que fumam e são constantemente ignoradas pela sinalética machista. As mulheres que fumam também querem ser proibidas de entrar onde ninguém fuma!

    1. É admirável que, passados 3 dias, Louçã e o todo o BE ainda não tenham declarado anátema a falta de sensibilidade de Bagão Félix.

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