Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

29 de Setembro de 2016, 08:21

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Como se revela uma conspiração mundial com muitos milhões pagos a quem eu sei quem foi

Não fora pelo entusiástico apoio de um dos jornais angolanos e não teria dado pelo assunto. Mas o Jornal i decidiu dar capa e incentivo a um panfleto de um deputado, Miguel Tiago (MT), com a seguinte alegação: a venda da Monsanto, uma das maiores empresas mundiais nos adubos e produtos agrícolas, à Bayer, uma das maiores empresas mundiais na farmacêutica e química, teve a colaboração interessada, se não determinante, de um partido português, o Bloco de Esquerda, que talvez receba ordens da Bayer e “houve quem ganhasse milhões com propostas deste tipo”. Recebeu ordens e andam por aqui uns milhões à solta, tudo para destruir o planeta, não é pouca acusação.

Entendamo-nos bem: esta rebuscada teoria da conspiração parece não responsabilizar o PCP. O jornal “Avante!” não publicou e suponho que não publicaria este delírio. O mesmo deputado é useiro e vezeiro em publicar textos e notas que depois retira apressadamente da internet, presume-se por isso que alguém mais sensato lhe dá instruções depois do caldo entornado. Isto é portanto uma espécie de vendetta pessoal. Apesar de eventualmente estimulado por conversas de capoeira que nas últimas semanas têm mostrado a voz do sectarismo, creio que aquele exercício foi só uma extravagância levemente anedótica. Mas vale a pena perceber como é que tanto entusiasmo conspirativo ocupa o lazer deste deputado.

Primeiro round: uma surpresa no parlamento

O caso começou com uma votação em que o grupo parlamentar do PCP se juntou ao PSD e CDS para chumbar uma proposta do Bloco que recomendava ao governo a proibição em espaço urbano do glisofato, que é a base de um dos principais produtos da Monsanto. Só com os votos do BE e do PS, a proposta foi recusada.

O tema está em discussão a nível internacional. A União Europeia estuda os riscos cancerígenos do produto e a sua eventual interdição. A Organização Mundial de Saúde publicou estudos que ligam o glifosato ao risco do Linfoma Não-Hodgkin, aconselhando portanto a sua proibição. Talvez por isso, o PCP não se tinha oposto pouco tempo antes a uma proposta para a proibição total do glisofato e portanto pareceria improvável que recusasse a sua proibição no espaço urbano. Acresce que, em diversas momentos, esse partido tomara a mesmíssima iniciativa da mesma proposta proibicionista. Assim o fez em várias câmaras municipais. A Câmara de Évora tomou mesmo a decisão de deixar de usar o produto. Nos Açores, o PCP apresentou uma proposta idêntica para proibir o produto. Afinal, deveria ser proibido em todo o país, menos nas cidades? E na cidade de Évora devia ser interdito, mas não em Lisboa? O certo é que, no parlamento nacional, os Verdes votaram a favor da proibição, que pouco depois o governo declarou que ia aplicar por sua iniciativa.

O mesmo MT explica um dos problemas deste produto da Monsanto:

A Monsanto produziu o roundup (glifosato) e ao mesmo tempo vendeu milhões de sementes tolerantes ao químico, dominando assim uma importante parte da agroindústria e da produção de alimentos. A Monsanto detinha a patente das variedades transgénicas tolerantes ao herbicida e ao mesmo tempo a patente do herbicida. As variedades não eram resistentes a pragas, como muitos tentaram fazer-nos crer, mas sim ao roundup.”

Portanto, MT dá-nos mais uma boa razão para proibir preventivamente o produto, tanto mais que se investigam as suas consequências na saúde pública – além da dependência e condicionamento dos agricultores – e o princípio da precaução sugere a prudência.

Podia-se por isso interpretar este voto do PCP junto com o PSD e CDS como uma mera trica parlamentar, coisa sem importância de maior, e é o que creio que foi. Mas desengane-se: pelo menos para um homem, MT, foi o começo de uma guerra pessoal.

O problema Monsanto

Antes de nos interessarmos por essa guerriúncula, vejamos por que é que na esquerda o nome Monsanto é tão conhecido. De facto, a empresa tem estado na mira de sucessivas investigações de organizações internacionais, mas também de universidades e centros médicos, por terem sido detectadas casos de riscos graves para a saúde pública, provocados pelos seus produtos.

Para só citar os dois mais conhecidos, lembre-se dos casos do DDT e do Agente Laranja. O DDT é um inseticida fabricado desde 1944 pela Monsanto e outras empresas e que foi proibido nos EUA em 1972, quando ficou demonstrada a sua toxicidade para os seres humanos. Em maio de 2001, 122 países assinaram a Convenção de Estocolmo sobre poluentes orgânicos persistentes, interditando doze substâncias tóxicas, entre as quais o DDT.

O segundo exemplo é ainda mais chocante. Entre 1961 e 1971, a Monsanto fabricou o Agente Laranja (numa joint-venture entre a Bayer e a Monsanto, na Mobay Chemical Corporation, já voltarei às relações entre estas duas empresas). Trata-se de uma combinação de herbicidas, a que foi acrescentada uma substância tóxica e cancerígena, dioxina, e que foi usado como desfolhante nos bombardeamentos do Vietname pelas tropas norte-americanas, para destruir a floresta. A Cruz Vermelha calcula que estes bombardeamentos provocaram 400 mil vítimas.

Assim, sempre houve todas as razões para olhar com atenção para as práticas da Monsanto. O Roundup, o produto com que a Monsanto comercializou o glifosato, ao mesmo tempo que vendia sementes tolerantes ao produto, foi mais uma dessas estratégias devastadoras que fez a empresa ganhar a sua fama de predadora. Antes de defender a Monsanto, sugiro que se respire fundo e pense duas vezes.

Segundo round: foi a Bayer quem mandou e andam por aí uns milhões

Chegou então o dia da venda da Monsanto à Bayer, por 66 mil milhões de euro (uns 40% do PIB português). Trata-se da maior aquisição empresarial da história do capitalismo. Foi um processo demorado, há vários anos que estava a ser negociado entre empresas que tinham relações próximas (como se demonstra pelo exemplo da produção em comum do Agente Laranja para as forças armadas norte-americanas durante a guerra do Vietname) e é uma resposta a outros processos de concentração na indústria química: por exemplo, uma empresa do Partido Comunista Chinês, a ChemChina, comprou recentemente a empresa suíça Syngenta, o outro dos gigantes do sector (creio que MT esteve desatento a esta iniciativa do PC Chinês, pois caso contrário a sua imaginação lhe permitiria culpar algum partido português por essa estratégia que formou o terceiro maior grupo do mundo no sector). Recentemente, a Bayer tinha comprado também uma das grandes farmacêuticas, a Schering, e a Dow tinha-se associado à DuPont. Este processo de fusões precipitou-se agora, reforçando os gigantes mundiais que dominam os produtos para a agricultura e a farmacêutica.

Acumulação de capital? Muito pior do que isso, explica MT, que descobriu a conspiração e a denuncia energicamente: a Bayer, para concluir o processo de aquisição da Monsanto, que estava a preparar há anos, usou a sua arma secreta, uma votação no parlamento português para proibir o glifosato e assim fazer colapsar o valor das acções da empresa (mesmo que o preço já estivesse combinado antes disso e o valor das acções tenha sido indiferente à recusa pelo parlamento português desta proposta). E, por isso, deu ordens ao Bloco para agendar a votação. Bem, MT, com alguém mais, o plural é majestático, “não poderemos saber” se “o BE recebeu ordens de alguém”, adivinhe quem, “para propor em Portugal a proibição do glifosato”, mas está bom de ver, logo depois veio a compra da Monsanto.

Não “poderemos saber” se recebeu ordens, mas perguntamo-nos se “recebeu ordens”, porque isto de “receber ordens” tem que ser denunciado como deve ser: “Se o BE recebeu ordens de alguém para propor em Portugal a proibição do glifosato, não poderemos saber, mas que houve quem lucrasse milhões com propostas desse tipo, lá isso houve”. E alguém “lucrou milhões”. Quem? Catarina Martins? Heloísa Apolónia? O PCP dos Açores? A Câmara de Évora? Um intermediário secreto? O governo, que insistiu em proibir o glifosato? A Bayer, cujo preço não variou e portanto não ganhou mais nada? Quem foi, caro deputado? Vamos lá a saber, sempre são “milhões”.

O facto é que foi o Bloco que conseguiu que a Bayer comprasse a Monsanto e o denunciante deixou tudo esclarecido no próprio dia do negócio: “O caminho do BE estava destinado ao sucesso. Hoje, a Bayer comprou a Monsanto e prepara-se para substituir o glifosato pelo glufosinato de amónia com publicidade de borla e honras de circo parlamentar”. O “circo parlamentar”, é bom de ver, foi o parlamento discutir e recusar a tal proposta, com a iniciativa de quem tinha “recebido ordens”, o que como toda a gente percebe foi o momento culminante para o grande negócio internacional que estava a ser preparado há anos a fio.

As consequências são tremendas, coitada da Monsanto, acrescenta MT: “Onde a Bayer detinha uma parte do mercado, passou a detê-lo todo.” E MT conclui, sorumbático: “Mais monopólio, menos planeta.” Só faltava que a conspiração fosse para roubar todo o planeta de uma só vez.

Pobres de nós, com a malandragem que lucrou “milhões”, ficamos com “menos planeta”, tudo desencadeado pelo voto de um partido que propôs – e perdeu a votação – a proibição de um produto que o nosso corajoso denunciante também denuncia como perigoso. MT vai-nos revelando estes factos da vida, talvez imaginando que esta seria uma sensaboria sem teóricos de tanto calibre, mas já não há paciência para tanto sectarismo.

Comentários

  1. No meio da ficção de Manuel Tiago há algo de verdadeiro e incontornável:
    “A Bayer tinha um produto caro que visava substituir um produto barato. Agora talvez o consiga fazer com o apoio da legislação.”
    “o alarme público em torno do glifosato (…) abriu caminho à proibição de um produto não patenteado, tal como abriu o caminho à sua integral substituição por um outro produto, desta feita patenteado pela Bayer e que pode ser aplicado precisamente às mesmas colheitas e variedades vegetais.”

  2. O Miguel Tiago responde-lhe aqui: http://manifesto74.blogspot.pt/2016/09/sobre-o-glifosato-e-bayer.html e neste artigo explica qual a questão que fez com que o PCP votasse contra: “A diferença é que o primeiro projecto [do BE] tinha um conjunto medidas, entre as quais recomendar ao Governo Português que assumisse uma posição favorável à não renovação da licença do glifosato no plano da União Europeia, e o projecto do BE de Março visava proibir a utilização do glifosato no espaço público imediatamente. Ora, para ficar claro, o PCP votou a favor do projecto do Partido Ecologista “Os Verdes” que recomendava a não renovação da licença do glifosato. Logo aí ficou percebida a posição do PCP: apoiar soluções graduais que visem a não renovação da licença do glifosato mas demarcar-se de aventuras que visassem a proibição imediata, sem alternativas.”

    1. O que explica o favorecimento à compra pela Bayer, certo? e a “ordem” que foi dada a alguém e os “milhões” que alguém ganhou, certo?

    2. Caro Francisco,

      o que o Miguel fez foi usar uma hipérbole. A parte que faz referência ao “ganhar milhões” refere-se obviamente às empresas como é atestado pelo fim do texto: “A questão não está na utilização do glifosato ou do novo LibertyLink, mas na utilização de variedades transgénicas que colocam a produção agrícola mundial nas mãos dos monopólios do agronegócio e que ditam a sobreutilização dos solos e a sua destruição. Proibir o glifosato enquanto se permite a continuação da utilização de sementes modificadas para serem resistentes a produtos químicos não muda nada a não ser o nome dos produtos. No caso presente, mudou também o proprietário das patentes. Onde a Bayer detinha uma parte do mercado, passou a detê-lo todo.”. A critica ao Bloco, e acredito que podia ter sido feita de outra forma, foi pelo cavalgar deste tema por destacados dirigentes do BE acusando o PCP de sectário por ter uma posição diferente da do BE, eximindo-se do debate da proposta concreta e das suas consequências. Mas o meu caro também sabe ler textos e interpretá-los…

  3. Prefiro a teoria da conspiração de que o glifosato já perdeu a patente há uns anos e não está a render dinheiro nenhum, tantos são os genéricos há venda mais baratos que o Roundup. É do interesse para quem tem a eventual patente, de uma nova molécula, a proibição legislativa do glifosato. Abrem-se anos de um “passeio no parque” a facturar à grande. A ironia é que o glifosato é mau e a nova molécula também será depois de cair a patente.
    Apenas mais um contributo para as teorias da conspiração.

    Melhores cumprimentos.

  4. Pela minha parte,só posso agradecer á deputada do BE ,Catarina Martins(e podia ser um deputado do PS,ou PCP) por ter visitado no sabado passado o concelho de Torres Novas para constatar in loco,o que são as nossas empresas(parece que são varias,embora seja sempre a mesma a ser multada),que tendo muito dinheiro ,preferem gastar o dinheiro em determinados escritorios de advogados,preferem envenenar o ambiente,os trabalhadores,as populações,alias ,estes ditos “empresarios” ate se envenenam a eles proprios,nem que seja quando visitam(se visitarem) as suas proprias empresas.p.s-não me parece que um proprietario de um determinado terreno possa fazer o que bem entende,nomeadamente destruir o ambiente,dele e circudante(e agora já me estou a meter com a noção de Propriedade Privada e os direitos e deveres dos ditos e respeitaveis proprietarios)

  5. A propósito, e só para estabelecer alguma comparação aqui com a Tugalândia.in El Pais, hoje.

    “La exalcaldesa de La Muela (un municipio de unos 5.000 habitantes de Zaragoza) María Victoria Pinilla, del Partido Aragonés (PAR), ha sido condenada este jueves a 17 años de cárcel y a 78 de inhabilitación para el desempeño de cargo o empleo público por los delitos de prevaricación, cohecho, fraude y exacciones ilegales, contra la Hacienda pública, blanqueo y tráfico de influencias. También ha sido condenada a multas de 9,9 millones de euros. Este es el mayor caso de corrupción urbanística enjuiciado en Aragón, según la sentencia de la Audiencia Provincial.

    El magistrado de la Audiencia de Zaragoza Francisco Picazo ha dado lectura, a partir de las 10.00 de este jueves, a los 50 folios del fallo de la sentencia del macrojuicio de La Muela, en el que se ha investigado una trama de corrupción urbanística cuyo epicentro estaba en el Ayuntamiento de este municipio. El juicio ha puesto fin a siete años de instrucción y ha sentado a 36 personas en el banquillo, entre ellas la exalcaldesa, para quien la Fiscalía pedía 35 años de cárcel, 25 millones de euros en multas y responsabilidad civil y 140 años de inhabilitación.

    El juicio, que comenzó el pasado 15 de diciembre y duró tres meses, puso fin a un proceso que se puso en marcha en marzo de 2009 con la denominada operación Molinos tras las denuncias de una concejal del PP y un familiar de la exalcaldesa. La Fiscalía solicitaba para los acusados penas globales de 150 años de cárcel.”

  6. Se não estou enganado, na Assembleia Regional da Madeira , o PCP também apresentou uma proposta para a proibição do glifosato. Em resumo, também terão recebido uma parte dos tais milhões.

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