Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

26 de Setembro de 2016, 08:23

Por

Um zelota da Europa e de tudo o resto, sem esquecer a modernidade

Mariana Mortágua foi crucificada por um par de seitas estalinistas (que não toleram uma anedota sobre a esquerda e o capitalismo) e pela mole da direita (que a acusa de lançar um novo PREC para destruir o capitalismo). É acusada ao mesmo tempo de defender o capitalismo, em piada, e de ser a sua coveira, em padeira de Aljubarrota. Como a direita deve ser levada mais a sério do que conversas de capoeira, ela não podia portanto estar em situação mais confortável.

No entanto, a peça de Manuel Carvalho (MC) contra Mariana não é dessa estirpe. O título parece uma declaração de amor, se nos lembrarmos dos versos de Cohen (“now so long, Marianne, it’s time that we began to laugh and cry and cry and laugh about it all again”), mas o texto, ideológico como é timbre dessa casa, tem outra finura. Creio mesmo que é o único, entre os comentadores nos jornais, que, na minha modesta opinião, percebeu o que se passou.

Onde Marques Mendes anuncia todos os domingos que chegamos à véspera de um protesto atroador contra a TSU-de-Passos-e-agora-de-Costa, escreve MC que a direita caiu “numa emboscada que fulminou sem piedade os delírios dos partidos da direita”, pois não perceberam “a cilada à direita”. Explica o autor: ao reagirem “como se em causa estivesse o fim do mundo”, com o imposto sobre os patrimónios milionários, perderam a cabeça e, acrescente-se, a quem perde a cabeça sobra pouco. Leia-se: “Comecemos pelo fim. Pela reacção destemperada da direita. As profecias sobre um novo ‘saque’ fiscal, sobre a chegada de um novo PREC ou os pavores panfletários sobre o fim da economia de mercado são estúpidas e risíveis”.

De facto, o debate começou com uma precipitação (e portanto não foi uma “emboscada”) e foi mal engendrado: não se discute um imposto sem ter a taxa, a incidência e os efeitos. Mas a direita pensou que bastava deitar os foguetes e apanhar as canas e lançou-se naquilo que melhor sabe fazer, o choradinho pelos milhões. Só que, como quase ninguém tem milhões em casas e rendimentos, suponho que isto comoveu pouco as pessoas normais. A “cilada” à direita foi a própria forma de pensar da direita, embrenhada na defesa de interesses económicos suficientemente mesquinhos e adoradora daquela austeridade que reduz pensões porque vê o idoso como um problema. Não foi preciso mais e bastou mostrar os números, porque um imposto que pode atingir 8000 proprietários com mais de um milhão em valor patrimonial registado – muito inferior ao valor de mercado – foi transformado numa receita que faria Portugal “voltar à Idade da Pedra”. Como dentro de umas semanas ninguém se lembrará deste espanto, deixo-o registado para que conste: era mesmo “voltar à Idade da Pedra”.

Claro que quem vive na bolha comunicacional entre jornalistas e políticos pode ficar impressionado se todos os comentadores nos telejornais anunciam o fim do mundo; mas acho que já é tempo de aprender que, para toda a gente normal, essa vozearia é tão etérea como o pesado drama da expulsão da Maria Caxuxa da Casa dos Segredos. E MC percebeu isso, que na realidade da vida a agitação da direita, logo ridicularizada pelo facto de Passos e Cristas terem feito parte de um conselho de ministros que aprovou imposto de 1% sobre os patrimónios imobiliários de mais de um milhão, só reforçava a credibilidade da proposta em discussão.

Só que MC, que percebe tudo isto, fica preocupado, muito preocupado. Esta vitória na opinião pública transforma Mariana na “nova musa do delírio esquerdizante”, pois, coitado, “o povo adora ilusões ciciadas em voz doce”. Mais, ela “desenterrou os espantalhos de uma esquerda petrificada e enterrada pela História”. Acrescenta ele que, com a alternativa Mariana, “a opção do país por um regime que o vincula à Europa, à democracia e à modernidade estariam em causa”, nem mais nem menos, a Europa, a democracia e a modernidade.

Espanto meu, pois o mesmo MC, no início da sua prosa, classifica os anúncios da direita “sobre a chegada de um novo PREC ou os pavores panfletários sobre o fim da economia de mercado” como “estúpidos e risíveis”. Mas ele acrescenta um pouco mais, sim o “fim da economia de mercado” – a Europa, a democracia, estou certo que é a isso que se refere – e também da “modernidade”. Aqui está, o regresso à Idade da Pedra a espreitar na proclamação de quem, apesar de perceber a “cilada” em que a direita se meteu, deita mais achas para a mesma fogueira.

Porquê então esta recaída? Leia bem, se faz favor, o artigo em causa. A questão é esta: a Mariana “desenterrou os espantalhos de uma esquerda petrificada e enterrada pela História”. A partir daqui, é o Momento Nuno Melo de Manuel Carvalho: quem se mete comigo leva, esta “musa” representa uma “esquerda petrificada e enterrada pela História”, com H grande. Como é que ela se desenterrou e aparece com ar tão fresco e “voz doce”, isso MC lá saberá.

De facto, é um assunto que o preocupa há muito e tem ocupado vários Momentos Nuno Melo. Antes das eleições, alertava os cândidos leitores e leitoras do PÚBLICO para a evidência de que “o Bloco e o Partido Comunista vivem enlevados na rotina dos seus discursos ferrugentos”. Mais recentemente, acrescentava outro Aviso Nuno Melo contra o que chama os “zelotas” do governo e a “mensagem simplista e demagógica do PCP ou do Bloco”. Discursos “ferrugentos”, “simplistas”, demagógios”, em “delírio esquerdizante” e ainda por cima “enterrados pela História”, aqui está um estilo que irmana o cronista com o de tantos dirigentes partidários (neste caso da direita, mas talvez o problema seja mais geral, o dos jornalistas que caem na sua “cilada” e preferem escrever como um dirigente partidário), ou que o arvora em juiz com sentença ditada. Agora, diz MC que nada menos do que o apocalipse: é a modernidade que está em perigo.

A vida é bem difícil para quem não se deixa levar no canto de sereia daquela “voz doce” e percebe que estamos à beira do mergulho nas trevas do passado.

Comentários

  1. Aprecio o reconhecimento de que a proclama¢ao sobre o novo imposto foi precipitada por lhe faltarem algumas caracteristicas essenciais, a saber lncidencia, taxas e efeitos. Questiono se em vez de se perder tempo e energia numas descabeladas trocas de insultos camuflados, nao seria mais util e pedagogico discernir sobre a qualidade,ou falta dela, da criacao dum imposto que mantem a pratica de taxar apenas o que esta a vista, deixando outras riquezas mais dificeis de apurar, mas provavelmente superiores, isentas de qualquer imposto ou taxa.

    1. Tem toda a razão o Luis Manuel Pessoa. A medida não peca por ser tipo PREC. Antes pelo contrario. Peca por ser tipo remendo numa bóia vazia. Os off-shores? Os produtos da Bolsa? Os Ferraris? Os Fundos Imobiliários? As transferências “desportivas” de milhões? Os aviões privados?

  2. A Direita portuguesa saiu diretamente da UN/ANP, sem reciclagem alguma, foi logo ocupar lugares no poder não sufragado, e um ano depois, consagrado em eleições que pela primeira vez na história de Portugal foram de sufrágio universal sem restrições por posses, graus de instrução, género, opções sexuais, modos de vida, confissões religiosas ou outras.

    Essa Direita, então anunciava-se de socialista personalizada no caso do CDS e popular no caso do PPD, agora PSD, foi deixando cair a máscara de socialista adjetivada voltou à sua caverna e é o que mostrou nessa semana em que cada um a seu modo saiu do armário como se se tratasse do carnaval sincero em que se tira a máscara da conveniência e se põe a máscara genuína.

    O resultado do exercício foi surpreendente por podermos todos ler, ver e ouvir, pelas suas próprias penas ou vozes, os preconceitos que povoam as cabeças de figuras, figurinhas e figurões tão ultramontanos com já não se pensava usar. É uma radiografia estática, mas eloquente, da natureza reacionária, da cegueira ideológica, do fanatismo patológico e do hermetismo do bloco de uma Direita a quem 42 anos de democracia não bastaram para sedimentar por camadas desde os liberais aos social-democratas. Não, mantém-se agarrados em bloco aos preconceitos anteriores à revolução francesa. O seu estatuto de seres humanos não lhes vem deles, mas da intocável porriedade dos ricos. O resto são plebeus.

    Os portugueses que só adequiram cidadania após o 25 de abril de 1974 têm de reforçar a vigilância e mobilizar-se ativamente em defesa da cidadania, da democracia pluralista e dos valores democráticos pois ficou claro que contra esses valores fundamentais têm essa gente que por esses dias escreveu disse e gritou que só é gente quem tem bens só luar.

    A unidade democrática que laboriosamente criou as condições objetivas e subjectivas que viabilizou o 25 de abril é hoje tão essencial como na resistência à ditadura iníqua e o Império colonial.

  3. Reparei nessa contradição. É uma espécie de vício… há aquela ideia que diz que estar em negação é uma das partes mais complicadas do vício, a pessoa não reconhece que é viciada em algo. Depois há o momento do reconhecimento, “sim eu sou viciado em X”. É algo parecido, há quem esteja viciado a pensar que certas pessoas comem criancinhas ao pequeno almoço Depois há quem estando viciado nesse preconceito já reconhece que é isso é estúpido e risível. Imagino uma reunião destes viciados anónimos na qual Manuel Carvalho se apresente: “Olá, eu sou Manuel Carvalho, eu sei que é estúpido e risível, mas eu acho que toda aquela malta à esquerda do PS… ao pequeno almoço…” – leva as mãos à cara, colapsa. Aquele que está sentado ao seu lado no círculo pousa uma mão amiga em seu ombro e diz: “Força Manuel.”

  4. “Creio mesmo que é o único, entre os comentadores nos jornais, que, na minha modesta opinião, percebeu o que se passou. (…) “escreve MC que a direita caiu “numa emboscada que fulminou sem piedade os delírios dos partidos da direita”” — Pudera, como escreveu a frio, deu-se conta da idiotia dos pafianos (https://www.youtube.com/watch?v=mqTCnq__JtY) e há que emendar a mão, contornando a evidência exposta sem, no entanto, deixar de proferir, hipocritamente, a doutrina do laranjal.

  5. Lembro-me desse cavalheiro pelas «crónicas» desabridas que escrevia in loco do Brasil, por altura do infame «impeachment»: tão desabridas, impreparadas e inúteis que nunca mais o li. O jornalismo pode muito bem ser uma escola da calúnia e da maledicência mas o preço que estes senhores pagam é bem alto: nunca mais são lidos, levados a sério ou em consideração…

  6. A “Idade da Pedra” é a condição actual tanto da esquerda como da direita.

    A direita defende a estrutura em horda, que é a estrutura pré-histórica que a barbárie germânica sempre conheceu. A horda é composta pelos chefes, feiticeiros e servos, que são a nobreza, clero e povo medievais.

    A estrutura da horda pré-histórica germânica mantém-se inalterada até hoje. Hoje, a nobreza feirante, o clero científico e os trabalhadores (no trabalho que dá obedecer às vontades dos “investidores” e do seu clero científico) são a continuidade dessa mesma estrutura pré-histórica, em horda. Mudam os nomes mantém-se a mesma estrutura de servilismo, os mesmos objectivos.

    A organização em república é um patamar de organização que a barbárie nunca conheceu, e cujos valores são contrários aos valores da horda pré-histórica germânica. Na horda manda o mais delinquente, na república o delinquente é erradicado pela ordem. O delinquente é louvado na barbárie e condenado na civilização. A ordem é a marca da civilização, o poder é a marca da desordem da barbárie.

    Hoje a barbárie pré-histórica diz que devem obedecer ao pilha-galinhas que tiver roubado a maior galinha (o tal rico, capitalista, investidor…), como dizia que deviam obedecer ao assassino que mais matava (a tal “nobreza”) na primeira parte da idade média. É a mesma barbárie, a mesma estrutura cultural, a mesma miséria comportamental pré-histórica.

    Quando um quartel perde a ordem e passa a mandar o sonso da arrecadação de materiais, através da chantagem, dizendo que ou lhe obedecem ou não deixa aceder aos materiais do quartel, essa quartel transforma-se uma feira. Na feira esses sonsos emitem senhas com a sua autorização (dito dinheiro) e todos passam a pagar para obedecer e servir os sonsos da arrecadação de materiais.

    “Mercado” é uma das desordens que acontece quando um quartel perde a ordem. A plebe medieval analfabeta passou a chamas de “economia de mercado” à desordem feirante, para que não restassem dúvidas do atraso cultural milenar da barbárie.

    “Mercado” é um estado de desordem que se caracteriza pelo poder do desordeiro que se apropriar dos meios. Não vigora a ordem, vigora a chantagem feirante. O sinal da ausência de ordem é o tal “negócio”, onde qualquer imbecil pode ditar regras para os outros (como se fosse um senado) sem ter qualquer legitimidade ou habilitações para tal.

    A esquerda também não tem cultura, e muito menos conhecimentos de economia, para sair do estado de desordem mercantil. Não sabe sequer que “mercado” é um estado de desordem típico da barbárie.

    Smith, Ricardo, Marx, Keynes, Friedman e afins criaturas germânicas nunca estudaram o contexto de onde a economia faz parte, nem tem qualquer referência cultural para isso, dada a sua proveniência cultural germânica. Isto é, sabem zero de economia. Chamam economia à desordem feirante e isso revela o seu estado de analfabetismo.

    Caro Louçã “voltar à Idade da Pedra” foi o que aconteceu no século IV. Agora temos pré-históricos que fazem lixo com todo o tipo de materiais além da pedra, mas a base cultural pré-histórica é a mesma.

    A esquerda não advoga a saída do estado de desordem feirante (“mercado”). Não revela capacidade para sair da lógica de burla tosca do sonso da arrecadação de materiais, não percebe sequer a desordem/delinquência de onde essa lógica faz parte.

    A esquerda, tal como a direita, tem a mesma crença que diz que a “economia” se rege pela lei da chantagem entre o feirante e freguês (oferta e procura), não é caro universitário? E essa crença é a marca distintiva da tal “Idade da Pedra” cultural.

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