Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

26 de Setembro de 2016, 12:48

Por

Outono, de novo

outonoNeste terceiro ano do “Tudo menos economia” não resisto ao (meu) gosto da repetição: o de, no fim de Setembro, homenagear o advento do Outono.

Este ano, tórrido por demais, como nós o sentimos e as estatísticas meteorológicas o comprovam por novos recordes de continuado Estio, o regresso, anunciado pelo calendário, do Outono foi, por mim, ainda mais ansiado.

No ano passado, aqui escrevi que o Outono é a estação que nos dá o frio bastante para arrefecer o calor e o calor necessário para aquecer o frio. Ou seja, a harmonia e o equilíbrio térmicos para melhor unir corpo e espírito, serenidade e vontade, dia e noite, mansidão e natureza.

O Outono foi “inventado” pelas árvores. Não todas, mas a sua grande maioria: as de folha caduca. Por isso, em expressão inglesa, esta estação do ano é também chamada de Fall, ou seja, da queda foliar mais ritmada ou mais impulsiva. Movimento que, num horizonte purpúreo, se faz por via de todas as cores de meia-cor, que se despedem do seu verde pujante para tombarem em conjuntos de um pálido amarelo, um amarelo-âmbar, um amarelo-mostarda, um carmim acobreado e toda os acasalamentos entre o laranja, o ocre e o castanho. E pelo tapete de folhas secas, que cumprida a sua função de despoluição atmosférica, se deixam levar pelo vento, pela água da chuva e pela acção do homem.

Mas a beleza arbórea, antes, não se transforma em feiura, depois. Outrossim, se recolhe no remanso dos seus troncos e ramos desnudados com garbo e profundo sentido de revivescência. Ali, começa o fascínio da repetição ordenada, não a excitação efémera do imprevisto nesta estação que é a mais suavemente previsível.

Gosto do Outono porque é a estação que mais liberdade interior me concede, e não a estação que mais me condiciona nos excessos da natureza que transporta. A chuva ainda envergonhada, a brisa presente, mas em constância dúctil, o frio quanto baste para me purificar os pulmões. E o Verão de São Martinho, entrementes. O aroma da castanha a crepitar finalmente nos ares de Lisboa. A cor e o sabor da abóbora em consonância com a policromia outonal. O suave e doce quente da batata doce. A romã sempre pronta a ensinar-nos o seu ser único de muitas sementes unidas, em forma sinfónica de comunhão. Um exemplo notável de companheirismo e solidariedade no mundo botânico que bem poderíamos ter como guia no mundo das pessoas.

Eu tenho necessidade de outonear. Tenho necessidade do seu minimalismo meteorológico, quase envergonhado, entre o excesso do que menos gosto (o calor) e a abundância do que mais me maça no excesso (a chuva). Gosto do cobertor de nuvens que se interpõem na moderação de um sol temperado. Gosto do silêncio que associo ao Outono, ainda que erodido pelo ruído de tudo à volta. belladonnaGosto do cheiro outonal de uma mistura de terra molhada, de folhas secas e de Amaryllis belladonna L., que vernaculamente conhecemos por açucenas e no Brasil – curiosamente – por meninas-pra-escola, e que emergem da terra após as primeiras chuvas. Gosto do discernimento que, mentalmente, associo à maior quietude outonal. Gosto das sinestesias sensoriais que a estação me suscita. Gosto das tardes pintadas em versão impressionista do que nasce e fenece no tempo onde vida e morte se abraçam.

Ainda sonho, liricamente, com o Outono que, maltratado pelo aquecimento global e outras malfeitorias do egoísmo geracional humano, persiste em nos sinalizar a beleza da vida que Miguel Torga nos descreve no fim do seu poema “Outono”: […] Que há fantasia / Neste dia / Que o mundo me parece / Vestido por ciganas adivinhas, / E que gosto de o ver, e me apetece / Ter folhas, como as vinhas.

Comentários

  1. O Outono é, para mim, a estação mais bonita e a de que mais gosto a seguir à Primavera, em relação à qual só perde pela renúncia dos dias, que não param de decrescer em quanto há Outono.
    Mas que lindo seria este país vestido de Outono se tivéssemos as cores dos carvalhos, castanheiros e plátanos em vez da dos monótonos tons dos eucaliptos.

  2. Temo que esse seu agrado pela folha caduca venha a sofrer um revés de monta, e não consta que a Belmonte (gora quase Bayer) se venha a interessar pela coloração dos eucaliptais. Mais de 50% da floresta nacional já são eucaliptos, monocultura, monocromia, monointeresse (pasta de papel) ou simplesmente monotonia, para mim são simplesmente monos (de traste). Sem animosidade, sugiro que envie este seu bonito “ode ao outono” a cada colega de partido, consta que não são muito apreciadores do pálido amarelo, do amarelo-âmbar, do amarelo-mostarda, do carmim acobreado e todos os acasalamentos entre o laranja, o ocre e o castanho. Temo mesmo que prefiram a escuridão, o cinzento dos incêndios talvez, os ganhos rápidos e sem suor, flores e cores só mesmo em certos paraísos… Lembre-os de que “ainda sonha, liricamente, com o Outono que, maltratado pelo aquecimento global e outras malfeitorias do egoísmo geracional humano, persiste em nos sinalizar a beleza da vida”.

  3. Muito bom, muito bonito. Eu gosto de tudo o que o professor gosta no outono. Mas gosto ainda de mais coisas; como os cogumelos, as vindimas, de contar os dias de vida que sobram ao porco, da entrada do defeso do atum. Gosto também, do fim temporário dos incêndios, da “silly season” e da nova vida mais pacata e descansada das abelhas. Dos domingos a chover.

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