Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

22 de Setembro de 2016, 15:00

Por

O raio das externalidades negativas

A tecnologia torna-nos mais produtivos. Por exemplo, em relação a viagens de avião, podemos comparar preços, comprar o bilhete e fazer o check-in tudo remotamente e sem interagir com nenhuma pessoa. Para a companhia ganhos de produtividade e reduções de custos. Para o consumidor, em teoria, preços mais baixos, menos tempo de espera e maior flexibilidade.

E o que acontece à comodidade do consumidor? Certo que não é necessário sequer sair de casa, mas é necessária uma atenção enorme à reserva, ao número de cartão de crédito, à morada e endereço de e-mail, à data e hora da viagem e nalguns casos ao peso da mala.

Em relação a bilhetes de avião, mas também em relação a numerosas compras e outros processos que os consumidores hoje realizam na internet, parte das funções que antes eram realizadas por funcionários da empresa que fornece esses bens e serviços, passaram a ser externalizados para o consumidor, que assume grande parte do trabalho, dos riscos e do “stress/desgaste” relacionados com a compra do bem ou do serviço.

Um pouco o que aconteceu à tradicional mercearia, em que a inovação de 1916 do “self-service” do supermercado da Piggly Wiggly (que entretanto passou por falência e várias vendas da empresa), resultou na substituição de funcionários pelo próprio consumidor que coloca os bens a adquirir num carrinho.

A Autoridade Tributária em Portugal também é adepta desta forma de aumentar a produtividade dos respectivos serviços, obrigando os contribuintes a cada vez mais tarefas. É certo que a Autoridade Tributária desenvolveu ferramentas informáticas que, em muito, auxiliam essa função. E é de longe preferível pagar os impostos pela internet do que, como antes, nas salas “cheias” de gente à espera, em longas filas, nas repartições de finanças ou nas lojas do cidadão. Mas a desvantagem da abordagem é que as horas que os portugueses gastam a realizar essas tarefas, de graça, para a Autoridade Tributária, podem aumentar a produtividade da segunda, mas diminuem a produtividade dos primeiros. E o problema é que se não tem a noção do seu verdadeiro custo.

E o que dizer de seguros, por exemplo de saúde ou de rent-a-car, que obrigam o consumidor a pagar primeiro para depois ser reembolsado pela seguradora?

Ou de controlos de segurança nos aeroportos em que o passageiro mais parece um trabalhador de uma linha de montagem fabril? Porque se paga uma taxa de aeroporto se depois se põe também os passageiros a trabalhar?

Ou da banca pela internet e os ATMs? Ou das companhias de telefone, TV cabo e internet? Ou ainda das máquinas e dos “tickets” nos parques de estacionamento, no metro e outros que tal?

Seria necessária regulação nesta matéria, de preferência a nível europeu, que reequilibre a balança entre fornecedor e consumidor final, sem comprometer a flexibilidade para continuar a permitir a inovação. Tarefa difícil, sem dúvida, mas indispensável.

Em suma, o ónus, o risco e a responsabillidade não podem continuar a estar predominantemente no consumidor final, porque se afigura que esse tipo de abordagem em que cada empresa ou instituição só pensa “nos seus botões” e problemas, não olhando aos custos (externalidades negativas) que impõe a terceiros, reduz a produtividade e o bem-estar do conjunto da sociedade.

Comentários

  1. Se considerarmos que “produtividade” são os dividendos distribuídos aos accionistas, então sim, são ganhos de produtividade, mas se colocarmos o interesse dos cidadãos como núcleo da actividade humana, então vemos como isso não passa de uma fatuidade. Mas tem razão, a “produtividade”, hoje tão propalada, não passa de transferência da absorção dos custos, do vendedor para o consumidor, há muito que assim é e a perda dos empregos estáveis muito se deve a esse factor mágico da economia de mercado: jogar com a ilusão. É dessa maneira que devemos assimilar a ideia de que esta ambiguidade (“o problema é que se não tem a noção do seu verdadeiro custo”) não é uma consequência dessa transferência de custos, mas antes a confirmação de que a produtividade tem como único propósito consolidar os dividendos, nunca o resultado tangível dessa produtividade na sociedade. Transcrevo aqui uma frase pertinente: “Os mitos são, por definição, o pão que preferimos não comer, é por isso que eles nos alimentam e nos mantêm fieis à importância de não ver (ver, é enxergar, compreender) ”.

    Acho interessante… mais que isso, acho fundamental que continue a escrever neste blogue, os seus pontos de interesse são em geral pontos pertinentes que importa trazer a lume, mas lamento que tenha certa propensão para detectar a lebre e deixa-la fugir. Ao mesmo tempo em que consegue “desconstruir” as intenções da inovação, arranja sempre forma de lhe garantir a continuidade. Veja como a regulação nesta matéria (que o Ricardo propõe) é o exacto contrário dos interesses que concorrem à formação de dividendos, sendo estes resultado da “boa” produtividade; a regulação significa custos a imputar ao vendedor, coisa incompatível como se depreende, e mesmo que os imputemos ao consumidor, isso tem efeitos sobre a propensão ao consumo, logo pouco liberal.

  2. A recorrente tentativa dos bancos de aplicação de custos para os clientes pela utilização das ATM / Multibanco (para já travada por via legislativa) é um exemplo claro dessa postura das empresas. É evidente que o sistema tem custos, como alegam os bancos, mas o consumidor já paga a sua utilização com trabalho.

    Ou seja, não estamos perante mais um serviço que o banco disponibiliza aos seus clientes – e que estes, se pretenderem usar, têm que pagar – mas sim perante um sistema que favorece as duas partes: os consumidores pela acessibilidade e comodidade; os bancos pelo tremendo aumento de eficiência e produtividade de que beneficiaram e beneficiam (imaginem quanto mais pessoal teriam que ter nos balcões para atender clientes, por exemplo.)

    Não por acaso, pelo menos até há pouco tempo, um dos fatores para desconto no spread dos empréstimos era ser utilizador da banca via internet…

    Utilizar as plataformas eletrónicas, dos bancos ou de outras empresas ou instituições, adquirir bens e serviços on-line, ou utilizar o multibanco, é tanto um favor que a empresa/instituição faz ao cliente como o cliente faz à empresa – e é por isso que não faz sentido pagar (em dinheiro, porque em trabalho e em assunção de risco pelos enganos) pela sua utilização.

    E é por isso que a banca não tem razão em querer aplicar custos às operações no multibanco, nem o deveria fazer na banca eletrónica!

  3. Será que não existe já implicita uma remuneração sob a forma de redução de encargos? Ou seja, é possível afirmar com segurança (contas feitas, obviamente) que, se não estivessem a ser implementadas esses procedimentos que reduzem o dispendio das empresas e serviços, o serviço prestado não seria mais caro?

    1. Parece não ter percebido o raciocínio. É claro que seria mais caro, mas a questão é que a diferença está a ser assumida pelo cliente de forma subtil e aparentemente indolor. O tempo gasto pelo cliente no acesso ao serviço; disponibilidade de equipamento e softwear adequado e protegido, identificação e procedimentos de confirmação (inclusivé um telemóvel para receber o código); fornecimento de papel para documentos fisicos, tinteiros, etc., sem contar com as horas de formação que o utilizador terá que despender para estar sempre actualizado na utilização dos serviços, tudo isso representa um custo para o próprio e uma degradação da produtividade para a sociedade. Que tal se andássemos menos a correr e tivéssemos mesmo tempo para cumprimentar o funcionário do banco?

  4. A tecnologia está penetrando todos os escaninhos da vida privada, ao serviço das grandes empresas, muitas delas multinacionais. Em muitas áreas em que existem na prática monopólios como no caso da energia e dos bancos, pouco podemos fazer, a não ser exigir a quebra desses monopólios a quem deveria proteger os cidadãos mas na realidade está a serviço dessa empresas, como bem sabemos. Porque são empresas gigantes e aparentam dar emprego, quando o dão com uma mão e o tiram com a outra, à caça de exonerações. Mas em muitas áreas, nomeadamente de consumo corrente poderíamos usar as mesmas ferramentas para evitar esses monopólios. Por exemplo comprando diretamente do produtor, ou de cooperativas, ou ao pequeno comércio local. Assim os produtores e cooperativas se modernizem, para que possamos dispensar os atravessadores. E o Estado auxilie essa economia cooperativa a se modernizar. Coisa que não acontece. O problema não está nas tecnologias, mas nos monopólios. E no Estado, de que urge se reapoderar, ao invés de o destruir, como é o caso com este liberalismo que está a acabar com a nossa civilização, acirrando os estados nacionais uns contra os outros (via generalização dos paraísos fiscais etc) e remetendo os cidadãos a cultivar ilusões essencialistas que nos levarão ao desastre.

  5. Excelente post.

    Mas e o trabalho? o direito de cada individuo a um rendimento/remuneração em sociedades estruturadas na sistemática destruição do emprego por via da substituição tecnológica? O direito à existência num mundo sobrepovoado de maquinaria cibernética?

    1. Obrigado pelos comentários. Parece-me que é necessário continuar a adoptar tecnologia como sempre ocorreu ao longo da História. Mas é igualmente importante que o aumento da produtividade (e da redução de emprego) das empresas não se faça a custo do trabalho não remunerado dos consumidores…

    2. Bem me parecia que o objectivo humano implícito é chegar o mais depressa possível à lua e a marte.

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