Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

21 de Setembro de 2016, 15:36

Por

A falta de crescimento económico real

Nas últimas semanas vários analistas económicos internacionais manifestaram a sua preocupação com a situação económica do país, tendo inclusive alguns sugerido que Portugal necessitará de um segundo resgate.

Uma das razões apontadas, certamente a mais importante, é que a economia do país não cresce. De facto, após a queda acentuada do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2012 e 2014 em resultado do processo de ajustamento imposto pela troika, o PIB real (estimado a preços constantes) cresceu 0,9% em 2014, 1,5% em 2015 e 0,9% na primeira metade de 2016.

Ou seja, mesmo reduzindo um pouco, em 2015 e sobretudo em 2016, o ajustamento duríssimo a que a economia portuguesa foi sujeita, esta não aparenta reagir crescendo de forma convincente. Mais, a economia portuguesa regista uma taxa de crescimento económico real de -0,005% ao ano entre 2002 e 2015. Somente em 2016 o PIB real irá ultrapassar, pela primeira vez, o nível atingido em 2002.

Embora concordando com o essencial dessa análise, nomeadamente que a taxa de crescimento do PIB é mesmo muito relevante para a resolução de vários problemas da economia portuguesa, afigura-se-me que, no contexto actual, o PIB real não será o melhor indicador, mas sim o PIB nominal, i.e., a preços correntes.

Isto porque a evolução dos preços das exportações mas sobretudo das importações – em particular, o preço das importações do petróleo –  está a ter um impacto demasiadamente grande nas exportações líquidas e no contributo destas para o PIB real.

Exportações Líquidas

F: Contas Nacionais, INE

 

De facto, em termos nominais e em contabilidade nacional, o país regista na primeira metade de 2016 um excedente da balança comercial de 1,1% do PIB. Mas em termos reais, regista um défice da balança comercial de 2,5% do PIB. A diferença entre as duas estimativas representa 3,6% do PIB, o que é uma diferença enorme (cerca de 6500 milhões de euros em termos nominais) e como se pode ver no gráfico acima é a maior diferença desde o início da série histórica das contas nacionais trimestrais em 1995.

Como interpretar esta diferença?

Parece-me que resulta da metodologia utilizada para calcular o PIB real (questão muito técnica relacionada com o cálculo de índices de quantidades de Laspeyres e de preços de Paasche, bem como da escolha do ano base).

Afigura-se por isso que, no presente, é preferível prestar mais atenção ao que está a ocorrer com a taxa de crescimento nominal do PIB e, por conseguinte, menos atenção à taxa de crescimento real do PIB.

A taxa de crescimento do PIB nominal foi de 3,4% em 2015 e de 3,0% na primeira metade de 2016, em termos homólogos. Parece-me também que taxas de crescimento nominais do PIB acima de 3,5% seriam razoáveis e acima de 4% seriam boas, porque superiores à taxa de juro implícita da dívida da República (que será de 3,4% do PIB em 2015), permitindo, “com menor esforço”, reduzir o peso da dívida pública, bem como da dívida externa, em relação ao PIB, isto porque a taxa de crescimento da dívida herdada do passado, i.e., excluindo o défice primário do ano (excedente primário em 2015), passa a ser inferior à taxa de crescimento do PIB.

Por conseguinte, a mensagem sobre as taxas de crescimento observadas seria, neste contexto, nada mau, estamos quase lá, é necessário que a economia passe a crescer um pouco mais depressa…

Quiçá o que falta agora é mais investimento público.

Comentários

  1. No passa-palavra dos capitães da industria e da finança da teia pafista a ordem é não investir nada, e tão logo que possível começar a despedir e falir tudo.

    Só assim podem voltar ao poder. Se a coisa não rebenta eles ficam eternamente de fora e muito chateados.

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