Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

30 de Agosto de 2016, 11:34

Por

O jornalismo panegírico e a economia dos factos

Li com interesse o artigo do PÚBLICO do passado fim de semana sobre os segredos da formação do governo actual. O texto promete muito: “O PÚBLICO revela as razões e os passos que tornaram possível o entendimento”. As “razões” e os “passos”, tudo “revelado”.

A jornalista São José Almeida (SJA), a autora desta “revelação”, dedica três densas páginas ao que na capa se chama “os bastidores do acordo que afastou a direita do poder”. Esperava portanto uma investigação cuidada sobre os factos, sobre o que se discutiu, sobre as dificuldades, sobre as opiniões, sobre os partidos envolvidos, sobre como evoluíram, sobre as reuniões, sobre os telefonemas, sobre quem é quem. Debalde. Não há no artigo nada dessa investigação, embora tenhamos em abundância – e só – as opiniões de dirigentes do PCP (e ainda de um investigador sobre a história do PCP, Pacheco Pereira). Ninguém mais conta para esta “revelação”, para os “passos” e as “razões”. Não há uma opinião ou análise dos factos ou das propostas por parte de qualquer outro dos participantes no acordo, o PS e o Bloco. Não existem, não falou com ninguém mais, bastou a Soeiro Pereira Gomes. Não é citada uma única opinião ou reflexão sobre como os intervenientes procederam. Para este artigo, os outros partidos só existem na visão do PCP sobre os outros partidos.

Tudo se resume portanto a uma análise em que os factos são seleccionados pela tese que pretende demonstrar. Para esta investigação, não houve debates na pré-campanha. Os confrontos televisivos entre Catarina Martins e António Costa e entre Jerónimo de Sousa e António Costa, reveladores do que pensava cada direcção de partido, não existiram. A campanha eleitoral, com o que propunha e com o que afirmou cada partido, não existiu. Não houve discursos, não houve comícios, não houve programas. Os contactos exploratórios sobre o novo governo, que decorreram durante o fim de semana de 4 de outubro e ainda antes de contados os votos, não existiram. Os contactos formais e informais que decorreram durante a semana seguinte às eleições resumiram-se à reunião entre o PS e o PCP, nada mais existiu. Esta história dos “bastidores”, na “revelação” de SJA, é simplesmente o panegírico do PCP.

Fica por fazer a história da formação deste governo. Haverá um dia uma investigação jornalista que se dedique a esse trabalho e será importante.

A reflexão sobre os “bastidores”

Mas o texto em causa não deixa de ser utilíssimo. Sugiro mesmo aos leitores e leitoras que o guardem, porque virá o dia em que será muito relevante reconsiderar estas opiniões e, para quem não lê o Avante!, aqui fica com elas disponíveis. Por exemplo, João Oliveira explica, de forma muito interessante, que “Se tivéssemos de fazer uma síntese, o que fizemos foi dar expressão à luta de quatro anos e aos resultados eleitorais das legislativas de 4 de Outubro. A capacidade institucional de afastar o PSD e o CDS do governo foi a tradução da luta de massas e da nova correlação de forças” – embora seja difícil encontrar num único momento da campanha eleitoral essa “expressão”, e por isso esse período não faz simplesmente parte da “revelação”.

Em contrapartida, as análises de Domingos Abrantes, dirigente histórico do PCP, são fundamentais. São contidas e claras. Indicam uma política. Já Ruben de Carvalho, formalmente apresentado como membro do Comité Central, se permite o que o texto carinhosamente chama de atitude “frontal”: “Uma das coisas importantes que esta solução tem é que não nos cria problemas de empregos. Podemos sair sem problema. A prazo, a situação não pode continuar assim e o PCP está preparado para isso.” Guarde isto.

Propaganda

De resto, muita propaganda e política partidária. Há mesmo o momento enternecedor em que se dá voz a um ajuste de contas de Ruben de Carvalho contra o Bloco:

Ruben de Carvalho sublinha que ‘o populismo é incompatível com a natureza de classe do PCP’. E exemplifica com as negociações com o PS sobre o regresso das 35 horas de trabalho semanal. ‘O PCP conhece a realidade, o BE não tem relação com a realidade, tem ideias exteriores à realidade’, garante, prosseguindo: ‘Quando dizemos que uma coisa é importante, é porque sabemos o que as pessoas estão a pensar. A ligação às massas não é um chavão do PREC. Não somos nós os dois, aqui sentados, que sabemos o que pensam os operários da Autoeuropa. Nós, no PCP, sabemos, porque estamos lá.’”

Curiosissimo exemplo, sabendo que o PCP, que “está lá” e “sabe o que as pessoas estão a pensar” (a sério?) na Autoeuropa, a maior fábrica do país, apoia uma lista que elege três membros para a CT, quando a lista apoiada pelo Bloco e dirigida por António Chora, que não “está lá”, é o problema da “natureza de classe”, elege sete.

Tudo isto vai passando no texto, que dá voz à propaganda: o que é que este trecho sobre o que o PCP sabe sobre o que “pensam” os operários da Autoeuropa sobre as 35 horas tem que ver com a negociação para a formação do governo, isso é um mistério.

A desconfiança de Costa

Para cimentar a “revelação”, SJA, por uma única vez, afasta-se das suas fontes do PCP e incorre no seu próprio “conhecimento” para explicar porque é que Costa queria fazer um acordo com o PCP e desconfiava do Bloco. Como aproveita o ensejo para me meter ao barulho[*], tenho todo o gosto ajudar ao seu “conhecimento”. Escreve SJA:

É conhecida a desconfiança criada em Costa pelo facto de o então líder do BE, Francisco Louçã, ter assumido o compromisso de o seu partido entrar em acordo com o PS nas autárquicas de 2009, em Lisboa, e, no último momento, o apoio ter falhado.”

A frase está escrita para não perceber rigorosamente a que se refere. Mas “é conhecida a desconfiança” criada pelo “facto”. E qual é o “facto”? Pois “Louçã ter assumido o compromisso de o seu partido entrar em acordo com o PS nas autárquicas de 2009, em Lisboa, e, no último momento, o apoio ter falhado.” Como não se pode saber exactamente qual é o tal “facto”, vamos ver as todas as possibilidades.

Primeira possibilidade. O tal “compromisso de o seu partido entrar em acordo com o PS nas autárquicas de 2009” seria, lendo objectivamente a frase, uma promessa de coligação (“entrar em acordo”, sugere que seria antes das eleições). Sim, houve tive duas reuniões informais com António Costa sobre essa eleição e outros assuntos, uma em minha casa e outra em casa de um amigo comum, Jorge Sampaio. Em ambas ficou estabelecido que não haveria coligação. A decisão do Bloco, em congresso, era distinta, e não faz parte da sua matriz tornar-se o CDS do PS. Portanto, tal “compromisso” nunca existiu. Se a jornalista quisesse investigar factos, tanto Costa como eu lhe teríamos dito o mesmo.

Segunda possibilidade e última. O tal “compromisso” de “entrar em acordo” seria para um acordo pós-eleitoral. Não, não houve esse compromisso prévio. Mas, depois das eleições, a comissão concelhia do Bloco e o vereador independente eleito pelo Bloco, Sá Fernandes, assinaram um acordo programático com Costa, que incluía medidas importantes sobre política de habitação, ambiente e outras. E cumpriram-no. O que aconteceu depois é conhecido: a decisão de Sá Fernandes de se aproximar do PS e de romper com o Bloco mudou as condições desse acordo; no entanto, mesmo nesse contexto, a direcção concelhia do Bloco reafirmou o seu compromisso assinado e a continuidade desse programa de medidas – que no que diz respeito à habitação e combate à especulação nunca foram cumpridas, até hoje.

O que é então o “apoio” que “falhou”? A jornalista sabe que “é conhecida a desconfiança”. Sabe como? Tem fontes? Falou com Costa ou com um dirigente do PS que possa citar? E, já agora, qual é a relevância disso para outubro de 2016? Foi há quase dez anos, pelo amor da santa! Costa recrutou um vereador independente eleito por outro partido, esse partido não gostou, mas acha SJA que isso tem qualquer influência na forma como se decidem questões de governo?

O panegírico eu até percebo. O ajuste de contas eu conheço e sei que, quando começa, nunca acaba. Mas talvez a importância inovadora e transformadora dos compromissos que deram corpo ao novo governo, bem provados nas dificuldades que tem sentido, exijam um pouco mais do que propaganda partidária e panegíricos autosatisfatórios. Um dia se conhecerá, por trabalho jornalístico, como foi a formação do governo e isso ajudará a perceber como se move, o que o limita, o que pode fazer – e o que tem que fazer.

____________________

[*] Manda a história que lembre, a propósito de meter ao barulho, que, há pouco tempo, SJA usou estas páginas para me acusar de “excesso de ingenuidade em política (que) parece mais compadrio mal disfarçado de cegueira política”, pelo crime de não apoiar a destituição de Dilma Rousseff. “Compadrio mal disfarçado de cegueira política”, conivência com a corrupção, não me lembro de um adversário político que tenha procurado tanta agressividade quando tive responsabilidades partidárias. “É bonito! É até querido! É mesmo comovente constatar tanta camaradagem, tanta solidariedade para com correligionários e camaradas” (como se eu apoiasse o PT ou o seu governo, mas que importam os factos?), escrevia ainda a jornalista, para depois me associar a este sinistro pecado: “Mas igualmente grave é a declaração (…) de que a acção da Justiça brasileira é um ‘golpe de Estado do século XXI’, acusando ‘um poder judicial, com órgãos de comunicação social, que está a agir fora do Estado de direito’. Ou a relativização feita por Louçã na SIC, em que tentou reduzir ao ridículo as investigações.” Finalmente, a jornalista teve a cortesia de explicar como é que a nossa diferença de opinião sobre o golpe no Brasil a levava a condenar-me sem apelo nem agravo: “E quando isso acontece, o que resta é apenas indignação com tanto despudor”.

É claro que nunca mais li uma linha sua sobre esta “indignação com tanto despudor” por condenar o golpe no Brasil. Parece que entretanto os deputados destituintes fizeram uma sessão em que mostraram o que valiam, parece que o caso jurídico contra Dilma colapsou, parece que a lista de acusados de corrupção não esquece os destituintes, parece que o mar de lama em que se tornou este processo criou alguma dificuldade para usar o caso brasileiro para ajustes de contas em Portugal. Naturalmente, a análise de muita imprensa tem tomado o ponto de vista contrário ao de SJA.

 

Comentários

  1. Se bem recordo a sra. jornalista, numa espécie de post-scriptum a um texto da sua autoria, subsequente à resposta de FL no Público, dizia que o artigo que escrevera era de «Opinião», portanto, na imaginação dela não precisava certamente de obedecer a «factos». Também recordo que quando Cavaco Silva deixou Belém a mesma sra. jornalista escreveu um belíssimo «panegírico» aos oito anos de presidência do mesmo: eu não vivo, seguramente, no mesmo país da jornalista nem do ex-presidente. A partir daqui, deixei obssessivamente de ler a sra. jornalista; já bastava…

  2. É por estas e por outras que vou deixar de votar em partidos… só nulo. Assim não permito que me chamem de burro e deixo de contribuir, com o dinheiro do meu voto, para os partidos políticos.

  3. De facto lendo atentamente e percebendo os subentendidos aquilo é mesmo um panegírico. Isto não costuma ser inocente mas revela fraqueza. Andará o tal Ruben à rasca ?

  4. Louçã mas a São José Almeida é mais uma das tais ” Jornalistas” de pacotiilha que pululam na nossa imprensa.

    Sendo um pouco radical só lhe posso dizer que está atirar pérolas porcos.

  5. Tem toda a razão. Eu, que não tenho interesses em causa no assunto, pensei que os artigos sobre o PCP no jornal de domingo pareciam daquelas peças do que se chama “conteúdo patrocinado”. É espantoso que o Público publique coisas dessas.

  6. A esta temática, cheia de nada, quezílias, birras entre partidos… alvoviteirice… é o que se pode chamar de política de chinelo. Nem pinga de substância política. Ou então, espera… é o prelúdio do fim da geringonça!
    Tenho pena de ver mentes com algum brilhantismo entrar por este tipo de ninharias, o que prova a tese de que não há génios, apenas momentos geniais.

  7. Francisco Louçã, penso que faz um erro de apreciação do artigo de SJA. O artigo trata claramente do acordo entre o PS e o PCP, nem mais nem menos.

    1. Só com declarações de dirigentes do PCP. Mas o acordo de governo nem é só a dois nem pode ser escrito só pelo lado de um dos dois, pois não?

  8. Por falar em Economia dos Factos:

    Paul de Grauwe(“International Money-Postwar trends and Theories”,Oxford University Press,Oxford,1996), escreve na edição de 27 de Agosto pº.pº do Expresso:
    – Na presente conjuntura, o excesso de poupança não absorvido pelo investimento leva ao abaixamento das taxas de juro. Razões para este excesso de poupança? A falta de confiança no futuro. Consequências? Procura insuficiente de bens e serviços. Ou seja: abaixamento simultâneo das taxas de juro e da inflação;
    – O que faz o BCE? Compra dívida e enche o mercado de dinheiro. Objectivo: abaixamento ainda mais pronunciado das taxas de juro com vista à estimulação da economia. Diz de Grauwe: enfiar dinheiro pela goela das pessoas não fará que invistam mais e poupem menos. E conclui: só os Governos podem alterar a situação, aumentando o investimento público, o que elevará as taxas de juro;
    -Para de Grauwe a questão está nos Governos que o podem fazer e não o fazem, por dogmatismo puro. Leia-se: a Alemanha tem demasiados excedentes e não os mete na Economia. E a História dirá que não se promoveu o investimento público quando havia excelentes condições para o fazer.

    1. Subscrevo o que diz Paul de Grauwe e dou-lhe os parabéns por escrever essa nota.

      E também por falar em Economia dos Factos, o banco central da Suécia fez um estudo onde mostra que um simples aumento dos salários e do investimento público na Alemanha seria o suficiente para relançar toda a economia na zona €uro.

      Portanto se há pessoas formadas em economia, com muita experiência, que têm todos estes dados na sua posse, mas que decidem não o fazer, então devemos perguntar: porquê?

      Será só teimosia, fanatismo ideológico, ou será algo mais? Eu tenho a certeza que é algo mais e chama-se European Round Table: um sindicato dos mais poderosos patrões das multinacionais europeias, que se junta para discutir o que mais lhes convém e manda a conta para a Comissão Europeia, que só “por acaso” envia propostas de lei ao parlamento (único órgão eleito por nós, mas sem poderes de facto!), que por vias direitas ou tortas, leva os países, em nome da “união” e dos “tratados internacionais”, fazer cumprir essas vontades.

      E a ERT será só um dos vários lobbys a fazer pressão anti-democrática sobre os nossos supostos representantes.

      E para acabar, vou parafrasear um desses documentos, que dizia apenas isto: “a Europa tem de ser refundada” e “a austeridade não é um meio mais sim o objetivo”.

      Voltando ao início, percebe-se porque é que há interesse em não permitir a recuperação económica, pois só assim se tem a desculpa para continuar o PREC neo-liberal com o objetivo de destruição de toda a social-democracia que ainda nos resta, no fundo, de refundar a Europa.

      E o “cherne” na Goldman Sachs? Só um exemplo, às claras, da porta giratória entre políticos sem caráter e o poder financeiro dos DDT mundiais. O cherne fez muitas vontadinhas, portanto tem agora o pagamento.

      E o seu sucessor? Jean Claude Junker, o autor da pouca-vergonha que veio a público nos Luxleaks: muitas vontadinhas fiscais feitas às multinacionais.

      O presidente seguinte da Comissão? Um senhor irlandês, com certeza, com iPhone no bolso… e a fúria da senhora Vestager? Um teatro para eurocético ver…

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