Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

29 de Agosto de 2016, 10:54

Por

Silly Season 3: Os combates nevróticos contra o burquini

O burkini foi proibido por várias câmaras municipais francesas, o tribunal interditou a proibição, os presidentes das câmaras insistem. Esta tragicomédia lembra o que Sartre escreveu no seu prefácio aos Damnés de la Terre: “A França, outrora, foi um grande país, tenhamos em atenção que não se torne em 1961 o nome de uma nevrose”. Foi há mais de cinquenta anos. Mas, mesmo agora, será só uma nevrose?

Parece que não, é também uma política. Valls, primeiro-ministro socialista, bem como Sarkozy, ex-presidente e candidato presidencial, precipitaram-se no apoio à extrema-direita francesa nesta proibição. Parece que, para esta gente, o fato de banho em causa lembra que aquelas mulheres são muçulmanas, e esta religião suscita comoção pública e ameaça à ordem – pelo menos no caso pessoal desses políticos.

burk 1Alguns jornais e revistas lembraram que um fato de banho deste tipo é usado por funcionários públicos na Austrália, que as mulheres judias ortodoxas usam um parecido (na imagem ao lado), ou que há uns anos em Portugal era imposto por lei que os homens cobrissem grande parte do corpo e as mulheres mais ainda, ou que as convenções e roupas mudaram ao longo dos tempos de acordo com costumes e histórias. A moda pode aliás recuperar o que tinha sido abandonado, como se verifica no anúncio que reproduzo ao lado: seria esta mulher acusada de ser uma muçulmana perigosa e obrigada pela polícia a despir-se numa praia de França? Alegar que há um padrão de roupa que é ilegalizável parece portanto burk 2um absurdo.

O argumento sobre a religião muçulmana é ainda mais grotesco porque se resume a isto: incomoda que aquelas mulheres pareçam ser o que são, muçulmanas. Um jornal francês lembrava que, em setembro de 1933, houve um jornalista que criticou os judeus a propósito da tomada do poder por Hitler na Alemanha: “É evidente que faltou prudência aos Judeus. Fizeram-se notar demasiado”. Alguns usavam kippahs na cabeça e, no caso dos judeus ortodoxos, um padrão de roupas que era identificável nas ruas (e o dos funcionários da City de Londres não é identificável nas ruas, e podem ser bem perigosos?). Fizeram-se notar e veio o nazismo obrigá-los a usarem uma estrela amarela, por via das dúvidas.

Nevrose, então? Uma política enlouquecida, correndo atrás de pretextos, ansiosa por marcar novas discriminações? Uma sociedade angustiada por fronteiras, por demarcar objectos e pessoas que possam ser detestados? Talvez seja simplesmente e somente mais um desses episódios das pequenas lutas de luz e sombra em que se testa a nossa cultura e em que se dão passos em frente ou para trás no respeito pelos outros e na conformação das nossas comunidades.

O debate sobre a legalidade do burkini é simplesmente um sintoma da profunda desorientação em França. A bússola avariou-se e isso terá sempre consequências mais surpreendentes e porventura chocantes.

 

Comentários

  1. Claro que cada um veste o que quer. As autoridades apenas nos podem exigir que mostremos a cara para podermos ser identificados. Claro que há chapéus largos, óculos de sol gigantes, mas ninguém pode recusar-se descobrir a cabeça totalmente para ser identificado, seja em que país (civilizado) for. O que as autoridades devem fazer é perceber se uma mulher de burka (ou similares) está a ser oprimida e obrigada a usar aquilo. E resolver esse problema. Prender ou expulsar do país os que querem impor condutas de vestuário. Nos países civilizados (leia-se cristãos, como quase toda a Europa) ninguém pode dizer a ninguém como é que se há-de vestir.

  2. É só isto:

    Fatiha Daoudi

    (Juriste, politiste et experte en genre et droits humains)
    in Le Huffington Post Maghreb-Maroc.

    Non Monsieur Plenel, le burkini n’est pas un vêtement comme un autre!

    A vous entendre pérorer sur la liberté vestimentaire des femmes musulmanes, confortablement installé dans une démocratie centenaire dont les institutions sont solidement ancrées et où les libertés individuelles sont sacralisées, je sens mes cheveux se dresser sur ma tête non voilée et la colère m’envahir.

    Vous dites que le burkini est un vêtement comme un autre alors que le terme lui-même est un carcan pour les femmes puisqu’il veut dire un mélange entre la burqa (voile total) et le bikini, vêtement de plage. Il ressemble à s’y méprendre à une combinaison de plongée sous-marine avec en plus une capuche qui couvre la tête. Imaginez ce qu’éprouve une femme ainsi couverte, sous le soleil!

    Non Monsieur Plenel, le burkini n’est pas un vêtement comme un autre et je sais de quoi je parle puisque je suis une femme de culture musulmane et vivant dans un pays, le Maroc, où l’islam est religion d’Etat. Pays où les droits des femmes ont évolué vers plus de liberté grâce aux femmes qui se sont battues becs et ongles pour que leur voix soit entendue et leur place dans l’espace public reconnue et qui continuent leur lutte encouragées par une volonté politique même si le gouvernement actuel est à majorité islamiste.

    Cependant, leurs droits ne sont pas à l’abri d’une régression par ces temps où la pratique de l’islam est plus une ostentation qu’une dévotion.

    Quand, Monsieur Plenel, vous comparez le burkini à la soutane en parlant de la sacro-sainte liberté individuelle, vous oubliez une chose importante c’est que la soutane est un habit porté par des personnes qui font de la religion une profession et bien entendu ne doivent aucunement être discriminés même lors de la séparation de l’Église et de l’Etat.

    A l’opposé, le burkini n’est pas un vêtement professionnel mais une suite logique du voile et de la burqa. C’est un carcan sophistiqué dans lequel on enferme les femmes sur les plages qui sont sensés être des lieux de villégiature et de détente. Par ce genre de vêtement, le corps des femmes est entravé afin, parait-il, de ne pas mettre sans dessus dessous la libido masculine!

    Qu’une personne qui a votre audience dans les médias français et francophones, affirme que le burkini est un vêtement dans lequel une minorité se cherche et qui est une mode passagère me choque car vous oubliez que les musulmans ne sont pas une minorité, l’islam étant la deuxième religion de France et que par conséquent le burkini pourrait y constituer un danger pour les femmes toutes confessions confondues.

    D’autre part, votre permissivité creuse la tombe des droits acquis par les femmes vivant dans les pays musulmans qui auront vite fait de légitimer cette entrave au corps féminin et toute autre en s’appuyant sur votre notoriété!

    Je ne sais pas si vous en avez connaissance mais, dans ces pays musulmans, nos mères portaient, dans les années soixante, le maillot sur les plages et leurs corps profitaient librement du soleil avant qu’il ne se résume à leur entrejambes. De nos jours, nombreuses sont les femmes qui évitent de porter le maillot à la plage de peur d’être agressées par les fous de la religion qui ne sont en fait que de simples obsédés du sexe.

    Non Monsieur Plenel, le burkini n’est pas un vêtement comme un autre. Il fait partie d’une stratégie qui si elle est encouragée par des avis permissifs finira par arriver à son but final: interdire l’espace public aux femmes!

    1. Isso apesar de estar em francês marroquino o que lhe confere um certo estilo não deixa de ser asneira e confundir tudo. Ou melhor, é uma banalidade. Reconhecerá o Pedro Borges que usar calças de ganga na URSS ou uma taxa na língua e outra nos mamilos e juntar uma crista de galo em Portugal não se deve propriamente a uma vontade estética passageira mas a uma afirmação pública, uma mensagem que pode ser política ou outra. A roupa fala! Os burkinis e os Biquinis são os dois roupa. A mensagem que invocam é que é diferente. Os burkinis é uma afirmação da mulher como propriedade privada do homem e não sei que mais e o biquini a objectivação da mulher como objecto sexual e não sei que mais. Não é por acaso que se considera ridícula uma mulher desmesuradamente obesa de bikini. Deixamos as crianças nuas na praia porque são assexuadas, mas deixai crescer as formas naturais e sexuadas dos rapazes e raparigas para logo o nudismo ser proibido. Quem tem telhados de vidro não devia mandar pedras ao vizinho. Mesmo a Maria de Lurdes que andou (e ainda bem) na rambóia a sério no prec, hoje já não quer usar bikini porque sabe que a mensagem de liberdade sexual do biquini não passa. Toda e qualquer roupa afirma coisas. O fato e gravata também. Eu não aprecio muito (mas não me oponho) que a minha mulher ande de bikini na praia, prefiro antes o topless que ambos praticamos com frequência dada a impossibilidade do nudismo. Mas tenho um dentinho que adivinha que ela abandona o topless em favor do horroroso biquini antes de mim. Porque será?

    2. Ilídio,

      Gosto do estilo mas o arranco é frouxo. O engraçado é que o que diz contém o que o contradiz. Muito obrigado. É uma arlequinada de sabor extra-presbiterial, portanto. Pois é, a roupa fala e faz afirmações públicas. Reconhecerá o Ilídio de Arrancos que nem todas as afirmações públicas são toleráveis. Não se condescende com sevícias estampadas em t-shirts, ou coisa que o valha, nem com suásticas. Obviamente. A coisa com o burkini é a de se querer por força que não se leia, ou que se finja que não se sabe ler, o que lá está chapado. Quando não se é capaz, talvez por simples pusilanimidade, de encarar na realidade o óbvio, reprime-se na cabeça fingindo que não está lá. Arriscaria que o seu problema não é de estilo mas de leitura. Um leitor envergonhado, será? Afectuosamente,

  3. Não tem sentido nenhum legislar sobre a roupa que cada um veste. Cada um veste o que quer e ninguem tem nada a ver com isso. Então o punk pode, o betinho pode, o hipster pode, o gestor engravatado com um falo ao pescoço pode, as moças com calções mais curtos que a profundidade dos bolsos podem, o juiz pode usar burca e cabeleira, o polícia farda, o polícia infiltrado passa montanhas e não se pode usar fato de banho integral? O que faz pesca submarina pode, a nadadora de fundo pode e em certos sítios até podemos andar nus. Mas alguém tem alguma coisa a ver com isso? Estamos a brincar… isto está a chegar a pontos… E os polícias que patrulham a praia não estarão um pouco cobertos de mais para um verão tão quente? Será que voltei à guerra dos bibes da minha infância?
    Isto faz lembrar aquele caso noticiado há uns meses aqui no público do puto que resolveu ir de saias à escola e foi proibido e recambiado para casa para modar de roupa. No outro dia um terço dos rapazes foram de saias para a escola. Do mesmo modo o meu próximo fato de banho é um Burkini, sobretudo se estiver em França.

  4. Não tem sentido nenhum legislar sobre a roupa que cada um veste. Cada um veste o que quer e ninguem tem nada a ver com isso. Então o punk pode, o betinho pode, o hipster pode, o gestor engravatado com um falo ao pescoço pode, as moças com calções mais curtos que a profundidade dos bolsos podem, o juiz pode usar burca e cabeleira, o polícia farda, o polícia infiltrado passa montanhas e não se pode usar fato de banho integral? O que faz pesca submarina pode, a nadadora de fundo pode e em certos sítios até podemos andar nus. Mas alguém tem alguma coisa a ver com isso? Estamos a brincar… isto está a chegar a pontos. E os polícias que patrulham a praia não estarão um pouco cobertos de mais para um verão tão quente? Será que voltei à guerra dos bibes da minha infância?

  5. As mulheres de todo o mundo não deviam recuar, sob nenhum pretexto, nesta questão e só admitir a tal burkini – onde quer que seja – se ela não for uma IMPOSIÇÃO. A angustia dos franceses é compreensível.

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