Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

29 de Agosto de 2016, 23:24

Por

OE 2017 entre sinestesias

Five sensory organs

Consistindo a sinestesia na associação neurológica de percepções relativas a diferentes sentidos (do grego syn, “união” ou “junção” e esthesia, “sensação”, antónimo de anestesia, ausência de sensação), chegou à literatura como um instrumento de estilo metafórico que combina sensações, sentimentos e estados anímicos, por via da fusão de impressões sensoriais (visuais, auditivas, olfactivas, gustativas e tácteis).

Ao que se diz, foi o poeta Charles Baudelaire (1821-1867), o primeiro a usar, com mais relevância, a sinestesia literária.

Gosto particularmente desta figura estilística. Podemos senti-la abundantemente (mesmo que apenas implícita) em obras literárias que nos ajudam a construir o ambiente e os cenários. Ler a obra-prima de Tolstoi Anna Karénina  é um empolgante exercício, também sinestésico, entre a cor da seara ou da estepe, o som dos cavalos, a plasticidade das personagens, o cheiro do campo e da cidade. Ou, no Leopardo do livro de Lampedusa ou do filme de Visconti, as cores, as sombras, os óleos, os sons que transmitem a Sicília poeirenta do século XIX, os silêncios abraçando a aridez do ocre da terra siciliana.

Sem por vezes nos apercebermos, utilizamos frases intuitivamente sinestésicas: “um silêncio escuro”, “um olhar silencioso“, “um sorriso amargo”, “uma bofetada de luva branca”, “uma luz macia”, “uma cor fria ou quente”, “um grito áspero”, “uma imagem ou som de fazer crescer água na boca”, “um doce afago e olhar de mãe”, “ouvir o olhar”, “um som prateado”, “um frio cumprimento”, “uma melodia de cores”, “uma chuva miudinha e morna”, “um perfume doce”, “uma voz penetrante, “um vermelho gritante” (e falando em cores, essa sinestesia mentirosa do “Danúbio azul” ainda que ao som de uma valsa).

O nosso Vergílio Ferreira em “Aparição” escreveu uma bela e completa sinestesia: “Fora, a noite é uma vibração de seda. Ouço-a, ouço-a no nosso silêncio afogado, nas sombras geladas do pátio, no rumor esparso ao longe“.

Aproxima-se a apresentação e discussão do Orçamento do Estado (OE) para 2017. Numa síntese sensorial de tacto, visão, audição, paladar e olfacto, não é difícil antever duas conclusões antagónicas. Para uns, será um OE suave, claro, harmonioso, quente e balsâmico. Para outros, será um OE duro, obscuro, surdo, frio e fermentado. A discussão – essa – será áspera, lampejante, dissonante, salgada e ácida. E para quem paga todos os seus impostos, não haja ilusões: continuarão a ser pesados, negros, moucos, amargos e pestilentos.

Comentários

  1. Para mim será um OE inodoro, insípido, cego, surdo e abstracto. Como todos os outros. A única coisa boa do OE dado que tudo o resto se paga (e isto também mas como se mistura na conta da água que não tem preço não se sente) é o debate televisionado na AR.

    Quando o apanho é sempre uma tarde bem passada e dou razão a todos porque todos se insultam mutuamente e com justiça. Depois acaba e vou jantar sempre com a sensação de dever cumprido por não ter votado nem contribuído para o circo. É a folga do pastor…ou melhor, a folga da ovelha.

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