Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

25 de Agosto de 2016, 19:31

Por

“Panamá Papers”: 5 meses depois, anda tudo aos papéis?

Dois dias depois do “dia das mentiras”, em 3 de Abril, rebentou uma “bomba atómica” no mundo político, empresarial e financeiro: a revelação dos chamados “Panamá papers”. 11,5 milhões de documentos confidenciais da Mossack Fonseca, com informações sobre mais de 214 000 empresas em paraísos fiscais, envolvendo ainda chefes de Estado e governantes e influentes pessoas na generalidade dos países. Sobre o assunto escrevi, então, o texto “Colapso ético num inferno paradisíaco”.

Foram dias de avalanche informativa, houve debates inflamados e discursos políticos com promessas de mudanças para erradicar os paraísos do anonimato, da opacidade, da confidencialidade e da fuga fiscal. Apoquentaram-se mitos, personagens e poderes. Ao mesmo tempo, os tablóides escritos e televisivos tiveram matéria-prima para toda a sorte de voyeurismo onde tudo se confundiu e igualizou.

Cinco meses depois, o que constatamos? O silêncio regressou (de ouro, para alguns), os “Mossack Fonseca” voltaram à normalidade, os estadistas, homens públicos e de negócios implicados afinal são todos angelicais investidores (salvo o PM islandês que, a custo, se demitiu), ninguém sabia de nada, bancos envolvidos retomaram a sua vida sem sobressalto, a Europa e os EUA entretêm-se com análises bizantinas e inconsequentes, o trabalho continua a ser o mais penalizado com taxas insuportáveis para compensar a fuga de rendimentos de capitais para offshores.

O frenesim noticioso, os escândalos, as indignações perdem-se na rotina do tempo depois. Já tudo é “normal”, mesmo a anormalidade. O assunto está agora na última página (e em rodapé) das agendas políticas. A ignomínia só tem rosto no primeiro dia, depois dissolve-se ou é trucidada por um acontecimento posterior e assim sucessivamente. O dia seguinte despreza o dia anterior. E este não serve de lição para o seguinte. A sociedade, anestesiada pela enxurrada noticiosa de cada dia, parece que deixou de ter memória. Enfim, anda tudo aos papéis, para sossego dos malfeitores. Uma tristeza!

Comentários

  1. É surpreendente a escala adoptada por alguém, como Bagão Félix, familiarizado com a marcha do plantio, crescimento e floração, no reino vegetal, para apresentar o seu desânimo pela marcha incongruente das investigações do caso “Panamá Papers” avançando, desde logo, com o prognóstico da inconcludência dos resultados práticos das divulgações em curso.Mesmo que, sendo assim, nada de prático em termos de procedimentos judiciais e criminais se vier a concretizar, fica o mais importante que é a capacidade da denúncia dos estratagemas utilizados pelos poderosos e cultores da impunidade e a exposição a todo um vasto público de clientes, consumidores e público em geral da perfídia da actuação dos implicados.
    Espanta ainda que, alguém com as convicções de Bagão Félix, não compreenda a semelhança com o episódio relatado, no novo testamento em que Jesus expulsa os vendilhões do templo de Jerusalém.

    1. Gostei.Sobretudo, da desvalorização de Bagão Félix quanto á denúncia das artimanhas dos poderosos.Resta-me acompanhar e apoiar as denúncias do jornalistas do Expresso .Bom trabalho que é necessário continuar e apoiar.

  2. Parabéns pelo artigo. É bem vindo tudo o que faça recordar que é necessário corrigir essa situação verdadeiramente execrável de haver um número significativo de ricaços que não pagam impostos quando há pobres que têm que cortar no essencial para pagar os seus e de existirem portos seguros para a riqueza acumulada por criminosos dos mais diversos géneros que assim continuam a gozar impunemente os proventos das suas atividades ilícitas que vão desde o tráfico de drogas até ao mais vil esclavagismo.

  3. Pergumtei ha’ poucos meses, aos ilustres moderadores deste Publico, o que se passou com os Panama’ papers, se andavam a seleciona-los e a eliminar os que nao interessam? Foi-me respondido (por alguem que entretanto escondeu a mao e comecou a assobiar para o ar), que a imprensa portuguesa e’ isenta, e que bem cedo ia-mos ouvir os nomes todos dos portugueses envolvidos! Zzzzzz ainda estou a’ espera.

  4. O mundo fantástico em que nos movemos, sustenta-se de ansiedades e crenças, mais do que de verdades e de probabilidades, e o conteúdo de certas notícias fornece aos humanos essa aura do fantástico que tanto se aprecia neste mundo. Já fomos escravos, por vezes tiranos, outras vezes fundadores e outras ainda, revolucionários, mas aquilo ao qual sempre regressamos é à nossa condição simples de plebeus. Por isso e porque assim somos, compramos a notícia sempre carregada de crença e probabilidade, acreditamos sempre que 12 ou 13 milénios de causas perdidas na nossa relação com a razão, nos fornecem ainda motivos para tolerar que assim continue por muitos e bons séculos. Entrados na idade moderna, no limiar das luzes e da revolução industrial, reiniciámos um processo de escravização de todos os continentes que não confinassem com o nosso. Motivo? Dar ignição a uma nova etapa da civilização, tal como nos séculos V e IV a.c. no começo da era romana. Gaio Cassius Longin afirmava, por volta do ano 61 d.c. diante do senado num processo que promovia a execução de cerca de quatrocentos escravos acusados de não terem acautelado suficientemente a segurança de Lucius Pedanius Secundus, assassinado por um dos seus próprios escravos, o seguinte: “sim, há inocentes que vão morrer, os grandes exemplos comportam sempre uma parte de injustiça, mas a injustiça exercida sobre alguns inocentes reforça inevitavelmente o interesse geral”. Em suma, todos conhecemos a relação impiedosa entre a iniquidade individual e o bem colectivo. Os Panama Papers são uma versão moderna dessa iniquidade individual (invertida… por efeitos da modernidade) confrontada com o benefício geral, acreditamos sempre na probabilidade de os milhares de milhões camuflados e surripiados à economia, virem a integrar o investimento privado, depois de assimilada a “parte que lhe cabe” em património público.

    1. Oh, meu caro Arons, na próxima consulta não se esqueça de descrever esses sintomas ao seu médico de família.

  5. fui a uma conferencia na fundação mario soares, onde os jornais tas de referencia sentado a uma mesa alavam dos panama papers, como se fossem expert estava lá o inevitável micael pereira o rui araujo e a peixeiro na Ana Gomes, o chefe da mesa era o Adelino Gomes. A peixeira Ana Gomes tratou logo se chamar o SÓCRATES á baila, Perguntei Lhe viu os panama paper? ela disse que não, resposta minha, já vi os panama papers de cima para baixo da direita para a esquerda e em diagonal e o nome desse homem nao consta, mas constam muitos NOMES que vão ser silenciados, pelos HIS MASTER VOICE. Dai silencio ensurdecedor. Por acaso o senhor professor já viu que o doutor Balsemão desistiu de ser me,membro i do CUBE BILDERBERG para dar o lugar ao durão. ESTRANHA FORMA DE VIDA.

  6. Oh meu caro Bagão Félix, olhe que o “trabalho” só não foge não podendo. Não tem virtude nenhuma por não fugir. Enfim, se não vivêssemos numa voracidade fiscal confiscatória eu veria com maus olhos estes esconderijos paradisíacos. Sendo as coisas como são, o mundo tem problemas políticos bem maiores. E sim, para os vivaços: se pudesse punha o meu dinheiro num esconderijo numas ilhas quaisquer. É meu, não é do vosso Estado do Ali Kostas e dos quarenta ladrões.

    1. Se la’ estivesse la’ o Passos, ja’ aceitava ser roubado? So’ se ele lhe desse a si outras contrapartidas…pelo soleno.

    2. Não, não aceitava ser roubado pelo Estado, já bastou a roubalheira de 1975, que ainda por cima não só não adiantou nada ao país, como retardou o seu desenvolvimento até à entrada na CEE em 1986. Os Estados que roubam os seus cidadãos devem ser destruídos, e é por isso que os americanos andam armados desde o século XVIII. Esses Estados não fazem parte da solução para os problemas, são eles o problema.

    3. Quando o Liberal fala do SEU dinheiro deveria ter em mente esta citação de Montaigne:

      “As abelhas rapinam de flor em flor, mas, com o que sugam, fazem mel, que é totalmente seu; já não é tomilho nem manjerona: o mesmo acontece com o que colhemos dos outros.” (I, XXVI)

    4. Ainda bem aue temos um clarividente e liberal comentador que nos alerta para os problemas maiores que existem no Mundo.Já é difícil dispensar tamanha prosápia e pesporrência gratuita, serôdia e bacoca.Oh, homem, vai combater o ISIS e poupa no verbo que é curtoe frouxo.

  7. PANAMA PAPER UMA INVENTONA DO SEMANÁRIO Pasquim chique e dos seus HIS MASTER VOICE para ver se arranjavam mais uma treta para culpar o Engenheiro José Sócrates. COM UM BOCADINHO DE SORTE APARECE LÁ O FIGURÃO DO HIS MASTER VOICE. Um destes dias que tenha tempo ponho aqui a súmula dos panama paper mas deveria ser o GUERREIRO A POR, pois o aumento de venda do pasquim semanário chique expresso, foi para ajudar a pagar os salários dos HIS MASTER VOICE.

    .. http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/08/25/panama-papers-5-meses-depois-anda-tudo-aos-papeis.

  8. “Por que vês o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que tens no teu? Ou como poderás dizer a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? ”

    panamá papers? Não é preciso ir tão longe; então não tivemos por cá umas coisas chamadas “Regime Excepcional de Regularização Tributária (RERT)” aprovadas pela AR que permitiu que se declarasse riqueza oculta no estrangeiro a troco de 5%? Isto é o quê?

  9. não acredito nos panama papers.um exemplo,apenas:então o jornal Expresso esqueceu-se do que prometeu? e que dizer do consorcio de jornalistas? afinal,querem o quê? se os nomes nos papers forem russos são fixes,mas se trabalharem em wall street já convem ter cuidado,sei lá,por causa da tal devassa da vida privada? mas enquanto andaram a roubar nunca se preocuparam com a desvastação de milhões de familias no mundo inteiro.E como se não bastasse ,o trump já prometeu uma supermega empresa de media(afinal de contas a propaganda,o controlo de informção é fundamentel,hoje,tal como sempre) para desacreditar ainda mais a nobre profissão de jornalista.

  10. Seja qual for a tragédia noticiada a já velha expressão popular “Notícia trágica publicada no jornal de hoje embrulha peixe amanhã.” é a grande linha editorial dos média.

  11. Lembrem-se do título do Público 3/4/2016 “Putin e mais uma dezena de líderes mundiais envolvidos em escândalo de offshores”. Como sempre esse é que foi o objectivo, atacar o Putin e os restantes russos inconvenientes que não obedecem aos interesses ocidentais. Afinal, lendo, não era esse malandro que lá tinha dinheiro, era um músico seu amigo, mas isso já não interessa, o que interessa é falar do Putin, afinal era também o pai do inglês, os futebolistas, políticos, mecenas, o islandês, ONGs, de todos os países… tudo para esquecer e a vida continua. Se não estivesse lá o nome do tal músico conhecido do malandro Putin, a notícia não viria na primeira página ou nem sequer seria publicada. Parabéns ao Sr Félix por nós recordar essa hipocrisia.

  12. Caríssimo António Bagão Félix,
    Quatro parágrafos desataviados e acutilantíssimos!… Muito difícil dizer tanto em tão reduzido espaço… Cada palavra por si escrita obriga a seguinte, inexoravelmente… Não é este o mundo em que queremos viver!

    1. Caríssimo Luís, ter-se-á enganado no sinal de pontuação, se substituir o de exclamação pelo de interrogação, fica mais perto da razão, “Não é neste mundo que queremos viver?”

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo