Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

23 de Agosto de 2016, 08:53

Por

CGD: pior era difícil

Não há memória de um accionista cuidar tão desastradamente da administração de uma sua empresa. Refiro-me ao Estado e à CGD. Senão vejamos:

 

  1. Foram necessários 8 longos meses para, finalmente, haver “fumo branco” quanto à nova equipa dirigente, o que implicou o arrastamento de uma gestão corrente necessariamente atrofiada e reduzida na sua acção de fundo e estratégica;
  2. Pelo que é público, a administração cessante terá sabido de muitos aspectos da mudança pela comunicação social, o que é, no mínimo, deselegante;
  3. O ministro das Finanças (MF) anunciou na AR que “encontrou um desvio” (esta foi mesmo a palavra usada!) de 3 mil milhões de euros no plano de negócios da CGD, imputado à anterior gestão para, assim, fazer tabela política e assacar responsabilidades ao anterior governo, não sopesando adequadamente as consequências externas para o maior banco nacional;
  4. Mesmo assim, o MF teve de implorar uma nova prorrogação do mandato dos gestores em exercício que, aliás, responsavelmente, anuíram;
  5. Uma das mudanças anunciadas, de início, foi o inusitado aumento para 19 membros executivos e não executivos do CA de um banco que só tem um accionista;
  6. Os executivos da nova equipa de gestão provêm, maioritariamente, de um banco concorrente, o que não é muito “canónico”;
  7. Oito meses depois, continua sem se saberem as necessidades de capital da CGD, envoltas ente realidades e mistificações;
  8. São convidadas (e deixados tornar públicos os convites) individualidades que não foram considerados elegíveis pelo BCE;
  9. Estes convites, pelo menos em parte, não cumpriram sequer o preceituado na lei portuguesa (!), o que revela o amadorismo ou pouco cuidado com que tudo foi tratado;
  10. Na reduzidíssima soberania financeira que nos resta, só nos faltava ser o BCE a chamar a atenção do nosso governo para o incumprimento das leis dos nossos órgãos de soberania!
  11. Não satisfeito com o soneto, o governo anunciou a emenda para eliminar o carácter mais restritivo da actual lei de acumulação de cargos executivos e não executivos e, provavelmente, repristinar convites já feitos, violando, de facto, o carácter geral, abstracto e não retroactivo da lei;
  12. Sem estar em causa a idoneidade das personalidades convidadas para administradores não executivos, é, porém, meridianamente claro, que exercem funções em empresas ou entidades potencialmente geradoras de conflitos de interesses;
  13. Provisória e temporariamente, os cargos de presidente do CA (“chairman”) e da C. Executiva (CEO) serão exercidos pela mesma pessoa, exigência do BCE que o governo português – aqui bem – procura contestar num banco que só tem o Estado como accionista;
  14. O indigitado CEO – não estando em causa a sua comprovada experiência e capacidade – tem estado estes longos meses entre o quase ser e o ser quase, com estudos de consultores pelo meio;
  15. Três novos administradores executivos terão de frequentar, nos primeiros seis meses, um curso de gestão bancária estratégica em França (INSEAD) e, ao que até agora se sabe, continuaram a aceitar a indigitação;
  16. O governo sempre tão retórico e enfático na quota de mulheres, não cumpriu nem de perto nem de longe (havia apenas uma personalidade não executiva) a quota de 30% que terá de ser preenchida até 2018 por imposição europeia, pelo que, consequentemente, alguns membros do CA terão um mandato de pouco mais de um ano.
  17. Nesta maratona, o único aspecto que ficou resolvido foi o remuneratório.

Difícil é pior. Internamente, evidencia o oposto das melhores práticas e em nada contribui para o desenvolvimento do banco público. Externamente, e em particular perante o BCE, sugere uma preocupante e objectiva incompetência que não dá suficientes garantias ao supervisor. E, além disso, como Ricardo Cabral aqui ontem escreveu (A decisão do Mecanismo Único de Supervisão do BCE sobre o novo conselho de administração da CGD), consolida, de facto que não necessariamente de lei, o poder exorbitante do Banco dirigido por Mário Draghi.

Neste vaivém, onde tem estado o primeiro-ministro? O que pensa ele sobre o assunto? E como vão, “no fim do dia” o BE e o PCP aceitar (ou não) esta gestão do legislador, decisor e accionista Estado?

Comentários

  1. Comprar o argumento de que por haver um único accionista não se justifica CEO e Chairman nem parece do Sr, Dr Bagão Felix! Só o facto de ser uma empresa pública já justificaria que executivo e controlo não se concentrassem numa só pessoa, ainda para mias vindas todas de um banco concorrente.Talvez devêssemos utilizar membros “independentes” em lugar de “não executivos”. Aconselho-lhe a leitura das recomendações da OCDE a este respeito.

  2. Está difícil esta vida com a UE. Claramente, a nossa soberania está em causa. Há quem afirme: não temos soberania, porque nos endividámos. Aceite-se esta versão.

    Na imprensa semanal – EXPRESSO de 20/08/2016 – fala-se que o buraco do BPN pode ascender a uma totalidade de 9000 milhões de euros, mais de 5% do PIB. É evidente que a explicação da ruína do país está à vista.
    Some-se a esta desgraça do BPN mais 4200 milhões de euros da CGD + 3000 milhões do BANIF + a incógnita do BES + …
    Esta soma terá quantas parcelas? Estaremos endividados até aos nossos trinetos…Não há volta a dar…
    Que governo pode resistir a uma tormenta deste calibre? Este processo da CGD – mal conduzido – acaba por ser apenas uma parte do grande problema.

  3. É uma pena que uma pessoa tão respeitável como Bagão Félix, mereça apenas 3 comentários, dos quais 2 são medíocres: o Sr. Rui Oliva, fala em ‘tralha socrática’. O que é isso? E onde está a justificação da crítica? Quanto ao Sr. Filipe Martins, comenta ‘que se devia (suponho que pretendia dizer deveria) extinguir essa coisa’. Qual coisa? Compreendo que se torna difícil ao Jornal Público efectuar uma correcta selecção dos comentários que poderão ser publicados! Mas esta mediocridade é confrangedora! Era suposto que um comentário transmitisse uma observação útil em relação ao artigo a que se refere e não um destilar de venenos de cariz político.

  4. Não vejo que o caso evidencie particular incompetência por comparação com práticas passadas supostamente mais competentes. Armando Vara e Celeste Cardona não foram em tempos administradores (desculpem : administradores/as)? Que percebiam eles de gestão bancária?
    a evidência da trapalhada resulta apenas da circunstância de não haver mais dinheiro a jorrar para esconder as trapalhadas incompetentes e as outras trapalhadas que nada têm que ver com falta de competência mas sim com falta de honestidade. O escrutínio é muito maior e ainda bem que assim é. Por cá a oligarquia insurge-se contra as instâncias europeias porque lhes está a cercear a coutada, o feudo.
    A seguinte sequência de acontecimentos é suficiente para perceber quão séria é esta gente:
    O governo tenta meter uma carrada de administradores. O BCE recusa uns quantos e manda outros quantos estudar gestão bancária. O Governo, para contornar a limitação, visa alterar a lei. O Marcelo opõe-se, tal como o BE e o PCP. O governo recua, mas diz-se que criará um órgão novo para integrar os recusados….diz-se que será um conselho consultivo.
    O problema da caixa, tal como o problema geral de toda a crise em instituição pública – e por arrasto da economia privada – não resulta de incompetência!

  5. Na minha opinião, o PM tentou fazer uma administração com uma espécie de sopa de Bloco Central, misturada com alguns gestores experientes, para dar estabilidade a médio-longo prazo á Caixa…

    O problema foi ter abusado do sal e dos grelos…

  6. Uma vergonha. O Poucochinho e a tralha socrática mais uma vez mostram a sua incompetência. Se fosse no tempo de Santana Lopes isto era uma trapalhada. Agora o que é?

  7. Concordo. Espero que o BE e o PCP tirem o tapete ao Governo. Ainda bem que o PS não tem maioria absoluta. Acho até que se devia extinguir essa coisa.

    1. Por muita dissimulação e golpe de teatro que façam, o BE e o PCP são igualmente responsáveis pelo resultado desta governação.

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