Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

19 de Agosto de 2016, 08:49

Por

“Uma História da Curiosidade”, de Alberto Manguel

manguelPassar alguns dias com “Uma História da Curiosidade” é um privilégio (o livro é da Tinta da China, 2015, tradução de Rita Simões). Se tinha lido a “História da Leitura”, sabe do que falo; se já leu esta segunda grande obra de Manguel (ele tem outros livros curiosos e mesmo grandiosos, como o “Dicionário dos Lugares Imaginários” ou “Todos os Homens são Mentirosos”, mas é nestas “Histórias” que se mostra como o enciclopedista amável que é) então sentiu o mesmo que eu. Este é um livro que se deve ler devagar e saborosamente.

Manguel conduz-nos pelos caminhos da “Divina Comédia” de Dante para inquirir sobre tudo: sobre a curiosidade, pois claro, sobre a ordem do mundo, a organização social, a história das religiões, as grandes dissidências, as viagens, a morte, os direitos das mulheres, o lugar dos animais, sempre a literatura. O livro é povoado por Lewis Carrol, Platão, Santo Agostinho, Hume, Tomás de Aquino, Rabelais, Erasmo, Cervantes, pelos estudiosos da Cabala, como Abulafia e os neoplatónicos do Renascimento, também por Kafka, I-Tsing, Bhartrihari, Shakespeare, Primo Levi, Hegel, Levi-Strauss, Platão, Virginia Woolf, Dickens e, claro está, Montaigne. E é sobretudo a literatura clássica que é evocada: Homero, com Ulisses, é uma das testemunhas chamadas à barra deste julgamento. Além de Dante, claro, que é o narrador principal.

Porque é que não nos perdemos neste percurso, aí está o sucesso do livro. Pois não sei quem lê Dante hoje em dia. A “Comédia” é um poema labiríntico, muitos personagens são figuras de histórias esquecidas, a escrita é difícil, a métrica é pesada. Dante morreu há quase 700 anos (em 1321 e com 56 anos), o seu tempo é a era dos clássicos da Antiguidade, é com eles que fala. Que seria um homem notável, de que pelo menos avaliamos a virtude da pena, não parece haver dúvidas: escreveu este monumento entre exílios, de uma cidade para outra, sem os seus livros, usando erudição, memória e bom senso, e o resultado foi um deslumbrante inventário da história e do mundo, mas tudo visto do seu ângulo, com a sua perplexidade. Mandelstam, o grande escritor russo, disse uma vez que, se os corredores do Hermitage enlouquecessem com a dança frenética dos personagens dos seus quadros de todos os tempos, o resultado seria parecido com a “Divina Comédia”.

Esse roteiro de uma viagem pela mão do poeta Virgílio, e depois da amada Beatriz, leva Dante ao Inferno (no sétimo dos nove círculos do inferno estão os avaros e especuladores, ou seja, os banqueiros, não digam que é uma mania dos tempos modernos; pp.264-271), ao Purgatório e depois ao Paraíso. É nesse percurso que Manguel encontra argumentos para a pergunta mais difícil que nasce da curiosidade, “porquê?”.

Encontrará por essas páginas algumas respostas e muitas preciosidades: a tensão entre as duas narrativas do Génesis sobre a culpabilidade feminina (pp. 50-1), o debate entre o filósofo português Isaac Abravanel e Maimónides sobre a relação entre Aristóteles e a Bíblia (pp. 107-10), o debate entre Galileu e Velutello sobre se a geografia do inferno de Dante teria respeitado as leis universais da matemática, incluindo o cálculo da altura de Lúcifer (pp. 191-3), essas são algumas das minhas preferidas. Mas o leitor ou a leitora encontrarão por si próprios os seus encantos.

Há uma relação entre escrever e ler que é mais paradoxal do que entre causa e efeito, esclarece Manguel citando Agostinho: “quando uma palavra é escrita, faz um sinal aos olhos, pelo qual o que é do domínio do ouvido entra na mente” (p.84). A história da curiosidade é então o domínio da aprendizagem da escrita (leia as magníficas páginas sobre a invenção do ponto de interrogação, por exemplo), ou uma teoria da linguagem, além de ser uma história da cultura. É porque somos curiosos que sabemos, é porque sabemos que adivinhamos e que procuramos. É por sermos curiosos que encontramos os outros, que somos nós.

Manguel demonstra que sem curiosidade não haveria cultura. Não é coisa de pouca monta.

Comentários

  1. É de facto curioso que sempre tenha havido a inclinaçao para demonizar especuladores e banqueiros, embora isso seja mais compreensivel no ambiente da Idade Media, em que a usura era proibida e a banca era negocio reservado aos judeus, mesmo entre gente de espirito mais aberto como Dante. Mas que dizer dos moralistas dos dias de hoje quando pensamos o que seria do estado portugues por exemplo se nao houvesse quem quisesse comprar divida portuguesa a cinco ou dez anos ?

    1. Não havendo quem quisesse ganhar dinheiro com divida soberana não havia endividamento.

      O usurário cria a necessidade, e retira vantagem dela – alimenta a necessidade, infiltra o sabotador à comissão nos Governos e faz o que pode para , no limiar do sufoco, não deixar morrer completamente o devedor porque senão perdia muito. É de facto curioso.

    2. Nem todo o endividamento é mau; se o estado nao se pudesse endividar ainda hoje nao havia ponte sobre o Tejo. A especulaçao é a alma da economia e da vida; é o oleo que impede o motor de gripar (usar contudo em dose qb).

    3. O hino da geração 600 euros em Portugal(ex-licenciados ainda não emigrados e que trabalham em empresas de distribuição ou da indústria – engenheiros, psicólogos, licenciados em letras, sociólogos, etc…):

      “I was looking for a job
      and then I found a job
      And Heaven knows I´m miserable now
      In my life
      Why do I give valuable time
      to people who don´t care if I live or die?”
      (The Smiths -David Morrissey-1983-1987)

      Temos uma bela sociedade em construção..com os banqueiros à cabeça…

      Sabemos que o Taxman atemoriza qualquer um…banqueiros incluídos…
      Mas sigam o exemplo do Snr. Catroga da EDP e paguem com gosto os impostos. Contribuam para a redistribuição. Quantos salários mínimos devoram por ano? Por cada banqueiro: 5000, 6000, 7000 salários mínimos? Ou mais?

      “If you drive a car, I´ll tax the street
      If you try to sit, I´ll tax your seat
      If you get too cold, I´ll tax the heat
      If you take a walk, I`ll tax your feet”
      (George Harrison- 1943-2001)
      in “Revolver”, 1966.

      Harrison era, na altura em que escreveu “Taxman”, um rapaz provindo da classe média baixa inglesa e se viu subitamente abastado…

    4. Falso. Havia sim ponte sobre o Tejo. Não havia era mama para o parasitismo do capital usurário ( o tal “óleo” …).

    5. Pois, mas hoje em dia mesmo os governos comunistas estao todos a enamorar-se pelas virtualidades (se nao mesmo pelas virtudes) do capitalismo ! Veja a China, Vietnam, Cuba … Escapa a Coreia do Norte mas aí Kim Young Un é o usurario mor. Será que é mesmo viavel livrarmo-nos dos especuladores e do “capital usurario” sem regredirmos à Idade Média ?

  2. Parabéns de facto a Louçã é por escrever tão bem tanto sobre literatura como politica. E como é dos poucos na Cacânia Tuga em compromisso com a verdade, dos poucos capaz de ver corajosamente para além da trapaça mediática, eu quase lhe lamento é o desperdício de tempo e talento nestes brilhantes apontamentos ocasionais”literários” quando devia era ser (como muito bem diz o chateado Adriano) ainda mais cultor da “política proficional”.
    Parabéns!

  3. Excelente escolha!

    Da mesma editora também levei para férias “Disse-me um adivinho”, do já falecido jornalista italiano Tiziano Terzani. Uma espécie de diário de viagem por países do oriente. Voluntariamente impedido de viajar de avião durante o ano de 1993, o autor reflecte durante o seu périplo sobre questões como a fé, a religião, a superstição, a História, a economia e o desenvolvimento (?) do locais que visita.

    E já agora falo da minha terceira escolha: “O choque das civilizações – Samuel Huntington”. Indispensável para perceber o mundo de hoje e os seus diversos conflitos.

    Aguardo mais sugestões suas, em posts futuros.

    Cordialmente
    CP

  4. Não deixa de ser curioso este seu novo interesse pela crítica literária. Fica-lhe bem! Assim contribui muito mais para a sociedade do que com as patetices dos partidos e da política proficional. Nunca é tarde para emendas no sentido de nos tornarmos contributos activos para uma sociedade melhor e mais justa. Os meus parabéns!

    1. Professor obrigado! :)

      Fui ver. Não tinha certezas…Tem toda a razão! Qualquer dos significados me serve.

      lexico.pt

      Significado de Condescendente

      adj.m e adj.f.
      1. Que mostra ou expõe condescendência;
      2. Em que há abertura para ceder às vontades ou às opiniões dos outros, ainda que estas não representem os próprios princípios;
      3. Particularidade de alguma coisa ou de algum indivíduo que possui flexibilidade, tolerância ou incapacidade impor ou ser autoritário;
      4. (Pejorativo) Pessoa que abdica dos bons princípios ou de outros valores quando faz a apreciação ou julgamento de algo ou de alguém;
      5. (Pejorativo) Diz-se do indivíduo que demonstra uma certa superioridade, desconsideração, arrogância ou desdém diante do outro ou de alguma coisa.
      (Etm. do latim: condescendens)

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