Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

17 de Agosto de 2016, 20:01

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Eleições presidenciais nos EUA em torno da “questão russa”?

As eleições presidenciais nos EUA estão, este ano, a ganhar um carácter surreal, com contornos de filme de espionagem.

Primeiro, Hillary Clinton, parece estar a jogar à defesa, evitando dar entrevistas para não ser confrontada com o escândalo da utilização de correio electrónico privado enquanto Secretária de Estado, nem com a divulgação de e-mails comprometedores relacionados com três temas:

– Hillary Clinton utilizou o seu servidor de correio electrónico privado para ler e responder a e-mails classificados, enquanto Secretária de Estado dos EUA, i.e., responsável pela política externa dos EUA;

– A fundação Clinton recebeu doações, algumas das quais poderão ser provenientes de interesses estrangeiros, enquanto Hillary Clinton era Secretária de Estado;

– A direcção do Partido Democrata poderá ter influenciado as primárias do próprio partido favorecendo Hillary Clinton e prejudicando Bernie Sanders.

Segundo, a estratégia de Hillary Clinton parece quase exclusivamente baseada na questão russa:

– Insinuar que Donald Trump gosta, é amigo, ou é mesmo um candidato dos russos e de Putin;

–  Sem se pronunciar sobre o teor dos e-mails, defender em público que o ataque ao servidor do Partido Democrata – que revelou os e-mails comprometedores da estratégia do Partido Democrata de favorecer Hillary Clinton atacando Bernie Sanders – foi realizado pelo governo russo, tese que este já veio desmentir, mas que continua a ser defendida por altos responsáveis do Partido Democrata;

De acordo com investigação do New York Times  uma empresa de lobbying de Paul Manafort (republicano próximo de James Baker e director da campanha de Donald Trump) prestou serviços, no passado, a vários líderes ou ditadores de diversos países, como Jonas Savimbi da Unita, Ferdinando Marcos das Filipinas, Mobutu Seko, do Zaire. Mais recentemente, e pior, de uma perspectiva dos EUA e de Donald Trump (porque, em termos eleitorais, reforça a percepção de uma ligação deste à Rússia e a Vladimir Putin), essa empresa ajudou Viktor Yanukoviych, presidente da Ucrânia, aliado de Putin e da Rússia, deposto na revolução “Euromaidan“. O New York Times refere que Paul Manafort, ou a sua empresa, receberam pagamentos em dinheiro, provavelmente não declarados, provenientes de fundos (“saco azul”) controlados pelo antigo presidente da Ucrânia.

Perante estas informações, parece que a questão fundamental deveria ser: por que motivo é que Donald Trump escolhe alguém com o currículo de Paul Manafort – de aconselhamento de alguns dos piores ditadores do mundo – para director da sua campanha? Mas assim não acontece: a questão relevante, na campanha eleitoral dos EUA, é mesmo a Rússia e Putin!

Por último, um grupo de hackers (desconhecido até à data) que se auto intitula, “the shadow brokers”, fez um ataque a um servidor de um outro grupo de hackers, conhecido pelo “Equation Group”. As técnicas do “Equation Group” são tão sofisticadas que se julga que só um Estado disporia de recursos para tal finalidade, suspeitando-se que o Equation Group possa ser um grupo de hackers da National Security Agency (NSA) dos EUA, operativos esses que realizariam vigilância com “malware” ou mesmo ataques no ciberespaço (cyberwar).

Edward Snowden, o antigo consultor da NSA que se refugiou em Moscovo, desenvolve uma análise a este ataque ao servidor do Equation Group, sugerindo que o mesmo poderá ter sido realizado pelos russos para darem um sinal de que possuem toda a informação disponível desse alegado servidor do Equation Group, informação essa que seria comprometedora. A intenção, segundo Edward Snowden, seria sinalizar que se se continuar a procurar imputar à Rússia os ataques aos servidores do Partido Democrata, seria revelada informação mais comprometedora para a NSA, informação eventualmente relevante no contexto das eleições presidenciais dos EUA.

Em suma, a política doméstica, a política económica, as perspectivas de vida dos americanos, parecem ser questões relegadas para segundo ou terceiro plano. A luta pelos votos ocorre no plano do impacto da “questão russa” na opinião pública, com o Partido Democrata a parecer acreditar que o “papão russo” poderá fazer Hillary Clinton e os democratas ganhar as eleições a Donald Trump e aos republicanos.

E é possível que alguns (muitos?) republicanos não votem em Trump pela alegada ligação deste à Rússia.

Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos…

Comentários

  1. Bom resumo do que se está a passar naquelas campanhas. Claro que a Clinton é a candidata do establishment, das negociatas e dos investimentos em guerras por todo o mundo, para obtenção do domínio global. Não é surpresa que seja apoiada pelos “mercados” e pelos belicistas. Já em 2015 o WSJ em 19/3/2015 em título “Clinton Charity Tapped Foreign Friends” revelava que recebia milhões de “particulares”, “particulares” de… da Ucrânia! Em primeiro lugar os “particulares” da Ucrânia a financiarem a campanha da Clinton, imagine-se bem! Depois seguem-se os “particulares” ingleses, e depois os “particulares” sauditas… Tudo gente recomendável… Quanto ao desbocado Trump… não percebi nada… mas pior para as populações do mundo que a Clinton, deve ser muito difícil…

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