Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

15 de Agosto de 2016, 09:12

Por

CGD: um passo em frente, três para o lado e mais três para trás

Quando terminar a negociação entre o governo e a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu a respeito da recapitalização da CGD, é possível que tenhamos uma vitória para o banco público. Para já, foi contida a tentativa de abrir a porta a uma privatização futura. O truque era simples: a recapitalização só se poderia fazer por títulos de dívida que pudessem ser um dia transformados em acções pelos credores. Isso não acontecerá e esta imposição do caminho alternativo (recapitalização com fundos públicos) é um sucesso para o governo e para a CGD. Ganha-se tempo e margem de manobra. É um passo em frente.

Em contrapartida, o sucessivo adiamento da tomada de posse da nova administração tem sido um passo para o lado. Desde janeiro que se prolonga o impasse e parece que só será resolvido no final deste mês (parece que a 24 de agosto). É tempo demais. Ou foi uma estratégia das autoridades europeias para prolongar a situação ou foi falta de iniciativa da administração ou do governo, ou tudo conjugado.

Outro passo errado e para o lado, totalmente escusado, foi a imposição original do novo presidente da administração, António Domingues, que conseguiu uma alteração legislativa para aumentar o seu salário, além de acumular com a pensão do BPI. Fazer uma lei para servir uma pessoa é um péssimo expediente, exigir esta vantagem é uma péssima escolha, acumular salário especial e pensão é vontade demais. Tudo feio.

Terceiro passo para o lado e vamos ver no que dá: a Mckinsey e um escritório de advogados têm estado a preparar o plano para a CGD. Quem contratou estas entidades, sob que directivas, quem lhes paga e perante quem respondem é um mistério. Suponho que a administração ainda em funções não tenha sido ouvida sobre isto e são bombas ao retardador.

Agora os passos para trás. O primeiro é este decreto-lei que altera o Estatuto do gestor público, porque não se limita a suprimir o limite salarial anterior para este caso. Vai mais longe e retira a CGD do âmbito do Estatuto, promovendo assim uma opacidade não aceitável. O banco público tem mesmo que ser público.

O segundo passo atrás são os novos estatutos, em que temos um pouco de tudo: um conselho fiscal que deixa de ser escolhido pelo acionista mas passa a ser nomeado pelo futuro presidente, mandatos que passam de três para quatro anos e com a nova possibilidade de quatro renovações, tornando possível a alguém estar 16 anos em funções, e mesmo a extravagante hipótese de contornar o código das sociedades comerciais. Isto não parece caber bem na descrição de “arrumar a casa”.

Finalmente, o terceiro passo atrás é a escolha da administração. Já elogiei a escolha do presidente, já critiquei a sua condição para o salário, já critiquei a dimensão do novo conselho de administração, mas agora foram divulgados todos os nomes. E confesso a minha perplexidade: há toda uma equipa que vem do BPI (e do seu Banco de Fomento de Angola), o que me parece demasiado, há gente da Gulbenkian (incluindo da Partex) e há depois uma lista avantajada de figuras dos negócios: da Angola Telecom, de um grupo hoteleiro, da Peugeot-Citroen, da Sonae, da Renova, da Unicer e Sogrape, com mais dois quadros que fizeram carreira no Dresdner Bank e Allianz e no Santander. Fica uma espécie de Câmara Corporativa só com representantes empresariais.

Mas para quê o presidente da Angola Telecom? E de empresas de cervejas ou papeleiras? Ou de automóveis? Ou de vinhos? Ou de centros comerciais? Com franqueza, não me digam que esses administradores (não-executivos) vão abrir as portas do banco aos negócios com esses sectores industriais e financeiros. Essa seria a mais perigosa das conveniências e daria sempre asneira. Ou estão estes administradores a assegurar que o banco promove equilibradamente projectos de investimento (seus ou dos seus concorrentes directos ou indirectos)? Não faz sentido, acrescendo ainda que estas empresas são clientes da CGD e muitas delas têm com o banco vultuosos contratos de crédito.

O PÚBLICO noticiou há dias que o BCE poderia ter recusado esta lista tão longa, impondo uma administração mais reduzida com 11 membros. Supondo que se confirma esta notícia, ainda não se sabe quem fica e quem sai da lista dos 19. Fica o problema: foram alguns convidados e serão desconvidados, mas é boa notícia se a pequena câmara corporativa ficar no tinteiro.

Bem sei que há quem diga que o melhor é não se dizer nada sobre o assunto, porque a Caixa fica vulnerabilizada. Penso o contrário. Arrume-se a questão com rapidez, transparência, bons critérios e contento público, porque o que prejudica a Caixa é esta dança irreflectida e fora de compasso.

 

 

Comentários

  1. Nunca entendi a razão dos elevados salários praticados na Banca, a nível de gestores. Se os bancos estão falidos e vivem dos dinheiros públicos, que os amparam nas horas de aflição, qual a razão da manutenção destes salários escandalosos? Temos a função de banqueiro com as remunerações-TOP na sociedade. O que dirão as pessoas que fazem avançar a vida e o mundo, como os cientistas e os inovadores? Vivemos numa sociedade com pobres valores e sentido prático. No fundo o que é a Banca, sem estes devaneios de activos de risco? Os economistas do sistema dizem que estes produtos são muito complicados…coitados, que pouco SABEM da vida, do estudo e da investigação. São, simplesmente as cortesãs do sistema. Que tristeza…

    A ideia da banca é simples: captam poupanças, a cujos detentores pagam um juro de x; emprestam dinheiro a uma taxa de y. A diferença y – x é o seu lucro, que dá para pagar os custos de funcionamento da actividade. Esta ideia foi adulterada. As crises financeiras dão nota dos
    prejuízos que estas verdadeiras sociedades do mal imprimem à vida.

    O número de balcões a encerrar e a destruição de postos de trabalho na CGD já estão visionados, o que funciona em sentido inverso. Quem se lixa é o mexilhão e lá vai a ideia de consolidar um grande banco público. É um jogo de sombras. Comandado pela clique que dirige a UE.

    Que banco vai ser este? Estará ao serviço da economia, das empresas e dos cidadãos? Não parece. O seu emagrecimento já está desenhado, para contentamento da banca privada nacional.

  2. Poder-se-á considerar a possibilidade de Portugal ter um défice de quadros técnicos com o perfil de exigência e formação que se exige a este tipo de profissionais?
    Sim, eu sei que o Pai Natal não existe e que os seres humanos são naturalmente corrompíveis. Mas não será um salto demasiado grande assumir instantaneamente que, se A, B, ou C vêm da banca ou da iniciativa privada, então têm de ser automaticamente malandros com uma agenda própria? Num país com a nossa pequena dimensão, onde não existem assim tantas grandes empresas, parece-me relativamente concebível que os mesmos profissionais qualificados – venham eles do público ou do privado – eventualmente se encontrem.
    Atenção, não discordo da sua análise. Mas sei por experiência que, em meios pequenos onde pouca gente possui uma formação muito específica, é natural que eventualmente se vejam as mesmas caras a integrar diferentes projectos e equipas.

  3. ” O segundo passo atrás são os novos estatutos, em que temos um pouco de tudo: um conselho fiscal que deixa de ser escolhido pelo acionista mas passa a ser nomeado pelo futuro presidente, mandatos que passam de três para quatro anos e com a nova possibilidade de quatro renovações, tornando possível a alguém estar 16 anos em funções.”

    *

    Eis aí apenas mais um pequeno exemplo (tão simples e significativo) da mentalidade desta gente, das manhas e caramunhas desta matilha da banca…Que credibilidade a desta gente séria! Nada que não seja afinal familiar à Tugalhada quando se trata de encomendar novas “leis”, novos aperfeiçoamentos aos seus insígnes representantes, aos seus “eleitos”, às suas “elites” … (bem diz o povão habituado aos trapaçeiros que “a lei tem sete mangas e cada manga sete manhas”).

    E o tal cardeal Domingues com sua imensa corte de gameleiros – escolhida certamente a dedo dado o seu elevado sentido de missão na defesa do interesse nacional – é portanto a única e irrefutável solução disponível para tão eminente desiderato?

  4. O nome da consultora é McKinsey e não Mackenzie. (Procurei um formulário para submeter este comentário num canal separado dos comentários de opinião, mas não encontrei.)

  5. Há muitas questões em causa na negociação e não sabemos que recapitalização será feita, quanto e em que moldes, que reestruturação sofrerá a instituição. Mas com a administração referida a ser nomeada por um governo de direita, o que diria a esquerda? Não entendemos de todo, mas aguardamos pacientemente.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo